E quando Shiva Nataraja dança, tudo perece e se recria - o fogo ao redor é vida, os olhos parados, consciência.
Quando ele dança, quem é esperto descansa.
quinta-feira, 29 de abril de 2004
segunda-feira, 12 de abril de 2004
Na quinta-feira santa tive um acesso de vômito de palavras. Falei para quase estranhos sem parar, sobre um tema que carrego desde que me entendo.
Passei a sexta-feira em penitência. Que vergonha da verborragia! Mal saboreei o jantar. Fui chata.
No sábado, aleluia! Meus excessos não costumam ser à toa (diferentemente de minhas penitências). Entrei numa livraria de Ipanema e encontrei "A Deusa Branca", do Robert Graves. Há anos pensava em comprar esse livro. Foi preciso ser tratorada pelo inconsciente pra finalmente ir ao seu encontro.
Passei a sexta-feira em penitência. Que vergonha da verborragia! Mal saboreei o jantar. Fui chata.
No sábado, aleluia! Meus excessos não costumam ser à toa (diferentemente de minhas penitências). Entrei numa livraria de Ipanema e encontrei "A Deusa Branca", do Robert Graves. Há anos pensava em comprar esse livro. Foi preciso ser tratorada pelo inconsciente pra finalmente ir ao seu encontro.
quarta-feira, 31 de março de 2004
sexta-feira, 19 de março de 2004
Ilê Omolu e Oxum, Ilê Yá Omim Dayê Axé Obalayó, Ilê Axé Gantois, Ilê Axé Oxumarê, COMDEDINE, ASS. AFRO-SEC., CEAP, CETRAB,
Koinonia, ICAPRA, COBRA, NEXPP, Cia. É Tudo Cena!, FENACAB, IRMAFRO, INAEOSSTECAB, Afoxé Filhos de Gandhi...e EU!
Todos de branco, na minha área - vai ter passeata no Leme, a partir das oito da manhã (o horário é ingrato, mas o Ilê merece o esforço).
Dia 21 de março é "Dia Internacional pela Eliminação da
Discriminação Racial". Essa data foi criada em memória do massacre de Sharpeville
(1960), África do Sul. Desde então dia 21/03 está agendado em todo mundo para
mobilização e reflexão contra a intolerância racial e pela liberdade de expressão.
Oscilando entre um Eparrei! e um Ora Iê Iê Ô, eu vou lá conferir a irmandade. Em homenagem à minha vó libanesa (cristã maronita radical), meu avô italiano, (kardecista radical) e meu pai (um medroso radical de tudo que fôsse do além). Vou de nega radical abrir a boca contra a intolerância. Tô apostando que no domingo de São Miguel a nêga vira na Oxum, chora tudo que é preciso pra ser feliz, e depois empunha a espada e solta gargalhada bem alto...
Koinonia, ICAPRA, COBRA, NEXPP, Cia. É Tudo Cena!, FENACAB, IRMAFRO, INAEOSSTECAB, Afoxé Filhos de Gandhi...e EU!
Todos de branco, na minha área - vai ter passeata no Leme, a partir das oito da manhã (o horário é ingrato, mas o Ilê merece o esforço).
Dia 21 de março é "Dia Internacional pela Eliminação da
Discriminação Racial". Essa data foi criada em memória do massacre de Sharpeville
(1960), África do Sul. Desde então dia 21/03 está agendado em todo mundo para
mobilização e reflexão contra a intolerância racial e pela liberdade de expressão.
Oscilando entre um Eparrei! e um Ora Iê Iê Ô, eu vou lá conferir a irmandade. Em homenagem à minha vó libanesa (cristã maronita radical), meu avô italiano, (kardecista radical) e meu pai (um medroso radical de tudo que fôsse do além). Vou de nega radical abrir a boca contra a intolerância. Tô apostando que no domingo de São Miguel a nêga vira na Oxum, chora tudo que é preciso pra ser feliz, e depois empunha a espada e solta gargalhada bem alto...
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004
terça-feira, 24 de fevereiro de 2004
Nã há incômodo nenhum em sambar na chuva. Sequer uso solas antiderrapantes, porque faz parte do meu show o swing inesperado em busca do equilíbrio - e até o estabaco, quando é o caso. Não pode dizer que sabe sambar quem tem medo de cair.
A fantasia encharcada também não me amola. Se as penas murcham, as lantejoulas descolam e os cetins grudam no corpo, a gente canta o samba mais alto. Afinal, nasci berrando e sem fantasia...Nada como um rebirthing na avenida.
A chuva traz um efeito especial imprevisto e lindo. Quando a água toca a pele de quem, de fato, ferve na passarela, sai fumaça. Então ficam, os seres em ebulição, cercados da aura de vapor - quase inefáveis.
E aí, mais do que nunca, eu converso com Deus.
A fantasia encharcada também não me amola. Se as penas murcham, as lantejoulas descolam e os cetins grudam no corpo, a gente canta o samba mais alto. Afinal, nasci berrando e sem fantasia...Nada como um rebirthing na avenida.
A chuva traz um efeito especial imprevisto e lindo. Quando a água toca a pele de quem, de fato, ferve na passarela, sai fumaça. Então ficam, os seres em ebulição, cercados da aura de vapor - quase inefáveis.
E aí, mais do que nunca, eu converso com Deus.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004
Tinha uma nêga que tinha um tamborim e um chicotinho de bater tamborim que enlouquecia a bateria inteira. Não porque fôsse exímia em nada - nem no samba, nem no batuque.
Mas é que ela inventava. Em cima da plataforma, fazia de tudo. E as percussões, os passistas, os mestres apitantes e os destaques dos píncaros, ficavam todos irritados. Tudo hesitava e se descontrolava quando a nêga cismava de inventar. Era um passo esquisito, um repique solitário, fora de hora, uma frase que não existia no samba. Era assim que ela sabia o Carnaval. E o resto, se aturdia.
Tinha gente que pensava que ela era louca e se incomodava com os imprevistos da nêga.
Ela nunca se amolou. Não tinha medo. Era feliz, e bem o sabia.
Mas é que ela inventava. Em cima da plataforma, fazia de tudo. E as percussões, os passistas, os mestres apitantes e os destaques dos píncaros, ficavam todos irritados. Tudo hesitava e se descontrolava quando a nêga cismava de inventar. Era um passo esquisito, um repique solitário, fora de hora, uma frase que não existia no samba. Era assim que ela sabia o Carnaval. E o resto, se aturdia.
Tinha gente que pensava que ela era louca e se incomodava com os imprevistos da nêga.
Ela nunca se amolou. Não tinha medo. Era feliz, e bem o sabia.
sexta-feira, 3 de outubro de 2003
quinta-feira, 11 de setembro de 2003
quarta-feira, 20 de agosto de 2003
A Malásia é um lugar fantástico.
Todo mundo fala inglês, tem melancia amarela e, em alguns lugares, banheiros luxuosíssimos com um buraco de louça no chão, no lugar do vaso sanitário.
Tem coisas fritas que não se pode imaginar o que sejam, tem tecnologia quase de graça e é dificílimo conseguir uma água com gás.
Quero voltar pra casa.
Todo mundo fala inglês, tem melancia amarela e, em alguns lugares, banheiros luxuosíssimos com um buraco de louça no chão, no lugar do vaso sanitário.
Tem coisas fritas que não se pode imaginar o que sejam, tem tecnologia quase de graça e é dificílimo conseguir uma água com gás.
Quero voltar pra casa.
quarta-feira, 23 de julho de 2003
terça-feira, 10 de junho de 2003
Ah, moleque!
Na primeira vez em que olhei bem dentro dos olhos dele, uma surpresa. Tive tanto medo!
Desde então, se passaram dez anos e uma eternidade, porque pra um amor desse tamanho, tempo não se mede.
Continuo me assustando com seus olhares profundos - que vêm depois de um choro sentido, uma gargalhada debochada, um beijo de repente, que ganho todos os dias.
Muitas vezes, não tenho o que dizer a ele. Nem ele me pergunta muito. É como se soubéssemos tudo, juntos.
Agora, ele me vem com ânsias de independências e vergonhas injustificadas, e eu fico repetindo pra mim mesma: é o tempo, é o tempo.
Eu sempre soube que esses dias chegariam, e agradeço aos universos por estar neste presente. É o tempo, mesmo.
Que esperneia, dá frutos, tira o fôlego da emoção e me faz parir uma mãe nova por dia.
Na primeira vez em que olhei bem dentro dos olhos dele, uma surpresa. Tive tanto medo!
Desde então, se passaram dez anos e uma eternidade, porque pra um amor desse tamanho, tempo não se mede.
Continuo me assustando com seus olhares profundos - que vêm depois de um choro sentido, uma gargalhada debochada, um beijo de repente, que ganho todos os dias.
Muitas vezes, não tenho o que dizer a ele. Nem ele me pergunta muito. É como se soubéssemos tudo, juntos.
Agora, ele me vem com ânsias de independências e vergonhas injustificadas, e eu fico repetindo pra mim mesma: é o tempo, é o tempo.
Eu sempre soube que esses dias chegariam, e agradeço aos universos por estar neste presente. É o tempo, mesmo.
Que esperneia, dá frutos, tira o fôlego da emoção e me faz parir uma mãe nova por dia.
terça-feira, 13 de maio de 2003
sexta-feira, 25 de abril de 2003
Aguardo ansiosamente o sextil de Plutão com o ascendente.
Eu mudo, ele fala.
Eu muda, ele cala.
Ele some de vez em quando, em sua órbita irregular,
e volta, me fazendo entrar na minha sétima casa - quase passando para a oitava.
Plutão pulsa, eu pulso suave, às vezes, latejo.
No anular, no angular, no espelho.
Eu mudo, ele fala.
Eu muda, ele cala.
Ele some de vez em quando, em sua órbita irregular,
e volta, me fazendo entrar na minha sétima casa - quase passando para a oitava.
Plutão pulsa, eu pulso suave, às vezes, latejo.
No anular, no angular, no espelho.
sexta-feira, 11 de abril de 2003
Vamos ter um dia colorido,
olhares verdes se encontrando,
rubor por baixo de um vestido azul - comme il faut.
Dourado em círculos, rosa sobre a mesa e muito amarelo,
em doces de ovos renovadores de vida.
Vamos ter palavra e promessa,
alguns cabelos brancos que dão um tom sublime à data,
vento de mar com um cheiro que molha a gente
e espanta as cinzas.
Vamos ter festa.
olhares verdes se encontrando,
rubor por baixo de um vestido azul - comme il faut.
Dourado em círculos, rosa sobre a mesa e muito amarelo,
em doces de ovos renovadores de vida.
Vamos ter palavra e promessa,
alguns cabelos brancos que dão um tom sublime à data,
vento de mar com um cheiro que molha a gente
e espanta as cinzas.
Vamos ter festa.
terça-feira, 25 de março de 2003
segunda-feira, 10 de março de 2003
quinta-feira, 6 de março de 2003
Tem dias em que eu tenho uma vontade enorme de revelar todas as minhas senhas.
As pas-swords que eu empunho e que abrem todas as portas.
É uma vontade de dias de dissonância - onde o enjôo, o amor desmedido, os espasmos - tudo me leva a querer abrir mão
da ilusão dos segredos e das palavras escondidas.
As pas-swords que eu empunho e que abrem todas as portas.
É uma vontade de dias de dissonância - onde o enjôo, o amor desmedido, os espasmos - tudo me leva a querer abrir mão
da ilusão dos segredos e das palavras escondidas.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2003
Era tarde e eu estava cansada. Mas a visita chegou eu eu sempre o recebo bem - seja de onde vier.
Tinha um orgulho no olhar daquele cara que eu reconheci. Óbvio, eu me deparo com o mesmo ar de satisfação sempre que me olho mais demoradamente no espelho.
É como se ele me dissesse: está tudo bem. E está, mesmo. Em qualquer circunstância, há o bem.
Levei muitos anos pra parar de sentir medo, e o fato de ele vir me visitar me fez lembrar que a gente só se livra do medo quando se entrega sem reservas ao destino.
Custou, mas hoje consigo dar boa-noite sem susto ao meu pai.
Afinal, está tudo bem entre nós.
Tinha um orgulho no olhar daquele cara que eu reconheci. Óbvio, eu me deparo com o mesmo ar de satisfação sempre que me olho mais demoradamente no espelho.
É como se ele me dissesse: está tudo bem. E está, mesmo. Em qualquer circunstância, há o bem.
Levei muitos anos pra parar de sentir medo, e o fato de ele vir me visitar me fez lembrar que a gente só se livra do medo quando se entrega sem reservas ao destino.
Custou, mas hoje consigo dar boa-noite sem susto ao meu pai.
Afinal, está tudo bem entre nós.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2003
A vida é boa, a vida é boa.
Há coisas efêmeras e outras eternas
e a diferença entre elas é que torna tudo gostoso.
Há estrelas que não existem mais e ainda encantam,
inspirando os poetas. Até o brilho das estrelas pode ser ilusão,
mas a gente vai morrer sem saber disso. E a poesia é eterna.
E o amor, desde que a gente nasce até quando a gente vai embora - é o mesmo.
E a gente vive e se inebria e se surpreende com ele.
Definitivamente, a vida é boa. No meio de tantas possibilidades eu tenho uma certeza que não me sufoca.
Há coisas efêmeras e outras eternas
e a diferença entre elas é que torna tudo gostoso.
Há estrelas que não existem mais e ainda encantam,
inspirando os poetas. Até o brilho das estrelas pode ser ilusão,
mas a gente vai morrer sem saber disso. E a poesia é eterna.
E o amor, desde que a gente nasce até quando a gente vai embora - é o mesmo.
E a gente vive e se inebria e se surpreende com ele.
Definitivamente, a vida é boa. No meio de tantas possibilidades eu tenho uma certeza que não me sufoca.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2003
Comigo vive um moleque que vez em quando perturba.
Não deixa meu cabelo crescer, masca chicletes (faz bolas!) e
de vez em quando é estabanado e dá topadas. Também fala palavrão.
Gosto dele.
Minha filha - craque no futebol de praia, única entre mais de dezena de garotos - apazigua o meu moleque.
Meu filho - consciente e responsável - lhe dá sermões com complacência.
Meu companheiro se diverte. E lhe dá asas.
Entre risadas incontroláveis e xingamentos desnecessários, esse guri me compensa os anos no rosto.
Não deixa meu cabelo crescer, masca chicletes (faz bolas!) e
de vez em quando é estabanado e dá topadas. Também fala palavrão.
Gosto dele.
Minha filha - craque no futebol de praia, única entre mais de dezena de garotos - apazigua o meu moleque.
Meu filho - consciente e responsável - lhe dá sermões com complacência.
Meu companheiro se diverte. E lhe dá asas.
Entre risadas incontroláveis e xingamentos desnecessários, esse guri me compensa os anos no rosto.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2003
quarta-feira, 15 de janeiro de 2003
Eu tinha que escrever um projeto. Três pra meia-noite, a máquina toda disposta, mas a nuca dolorida, fica difícil entabular uma introdução, achar a justificativa, consubstanciar os objetivos e concluir o que quer que seja.
Vá lá. Tem uma veia em mim que volta e meia se esconde, e quando eu cutuco com a seringa pra tirar dela um querequequé de algo que valha a pena, o máximo que arranjo é edema. Hoje a santinha tá viva, depois de ano e pouco achou por bem latejar, eu acho que o bom que eu faço é escrever o tal projeto.
Então, né?
Introdução
A vida é simples, mas é complicada. A gente procura, procura, procura, quando acha bota defeito e cisma de assegurar que vai dar errado e que tem alguma coisa esquisita ou que a gente não merece mesmo e dane-se, sejá lá o que Deus quiser.
Todo mundo sabe que é assim. Quando a gente ganha exatamente o que queria, trata de dar um jeito de mudar, porque se não, qual é a graça da parada? Resumo da introdução: a maioria de nós é muito burra, fora as raras exceções como as irmãs carmelitas encarceradas e os siddhis meio sorridentes meio patéticos das montanhas enevoadas da Índia. Ô vida.
Justificativa
As pessoas – todos e todas – nasceram para usufruir o que esse mundo tem de bom pra dar. Missão da humanidade: ser feliz. Já sei. Dizem que não há esse estado permanente, felicidade. Não tem problema. Nem sempre ser é estar. Não me preocupo em estar feliz, porque isso implica em um estado e eu sou continente. Quero ser um ser feliz, e isso não deve ser tão difícil assim, porque se fôsse a grande maioria dos seres não ia querer a mesma coisa, porque os seres – humanos – são acomodados demais e quando uma coisa é difícil e dá trabalho eles já não querem mais. E o que não falta é gente querendo ser feliz, dando beijo na boca ou não, eu desconfio que ser feliz é o pedido da avassaladora maioria na hora de virada do ano ou na hora de assoprar as velinhas do bolo (claro, eu estou me referindo à maioria - os criativos pedem outras coisas).
Pois bem, eu acho que não há outra justificativa para querer ser feliz: sou comum, sou parte da maioria, sou humana e levo a sério esse negócio de missão.
Objetivos
Essa proposta tem como objetivo deixar as coisas claras pra mim.
Ô vida. Simples e complicada. Quando tudo tá claro, mergulho na escuridão.
Meus objetivos são mundanos e eu sou uma mulher de fé.
Esta proposta tem como objetivo um salto na noite escura.
Obs.: não há recursos previstos para ressarcimentos, em caso de desistência.
Vá lá. Tem uma veia em mim que volta e meia se esconde, e quando eu cutuco com a seringa pra tirar dela um querequequé de algo que valha a pena, o máximo que arranjo é edema. Hoje a santinha tá viva, depois de ano e pouco achou por bem latejar, eu acho que o bom que eu faço é escrever o tal projeto.
Então, né?
Introdução
A vida é simples, mas é complicada. A gente procura, procura, procura, quando acha bota defeito e cisma de assegurar que vai dar errado e que tem alguma coisa esquisita ou que a gente não merece mesmo e dane-se, sejá lá o que Deus quiser.
Todo mundo sabe que é assim. Quando a gente ganha exatamente o que queria, trata de dar um jeito de mudar, porque se não, qual é a graça da parada? Resumo da introdução: a maioria de nós é muito burra, fora as raras exceções como as irmãs carmelitas encarceradas e os siddhis meio sorridentes meio patéticos das montanhas enevoadas da Índia. Ô vida.
Justificativa
As pessoas – todos e todas – nasceram para usufruir o que esse mundo tem de bom pra dar. Missão da humanidade: ser feliz. Já sei. Dizem que não há esse estado permanente, felicidade. Não tem problema. Nem sempre ser é estar. Não me preocupo em estar feliz, porque isso implica em um estado e eu sou continente. Quero ser um ser feliz, e isso não deve ser tão difícil assim, porque se fôsse a grande maioria dos seres não ia querer a mesma coisa, porque os seres – humanos – são acomodados demais e quando uma coisa é difícil e dá trabalho eles já não querem mais. E o que não falta é gente querendo ser feliz, dando beijo na boca ou não, eu desconfio que ser feliz é o pedido da avassaladora maioria na hora de virada do ano ou na hora de assoprar as velinhas do bolo (claro, eu estou me referindo à maioria - os criativos pedem outras coisas).
Pois bem, eu acho que não há outra justificativa para querer ser feliz: sou comum, sou parte da maioria, sou humana e levo a sério esse negócio de missão.
Objetivos
Essa proposta tem como objetivo deixar as coisas claras pra mim.
Ô vida. Simples e complicada. Quando tudo tá claro, mergulho na escuridão.
Meus objetivos são mundanos e eu sou uma mulher de fé.
Esta proposta tem como objetivo um salto na noite escura.
Obs.: não há recursos previstos para ressarcimentos, em caso de desistência.
segunda-feira, 30 de setembro de 2002
sábado, 17 de agosto de 2002
sexta-feira, 5 de julho de 2002
segunda-feira, 10 de junho de 2002
terça-feira, 28 de maio de 2002
O tempo vai passar.
Meus filhos vão crescer (às vezes eles já são grandes).
Meus cabelos vão perder a cor (que já é instável).
Algumas pessoas que eu amo vão embora (e dá pra sobreviver a isso - eu sei).
Tanta coisa assustadora pela frente e eu acreditando sempre que do chão não passo.
É nisso que dá ser a porta da rua da própria casa.
Meus filhos vão crescer (às vezes eles já são grandes).
Meus cabelos vão perder a cor (que já é instável).
Algumas pessoas que eu amo vão embora (e dá pra sobreviver a isso - eu sei).
Tanta coisa assustadora pela frente e eu acreditando sempre que do chão não passo.
É nisso que dá ser a porta da rua da própria casa.
quinta-feira, 16 de maio de 2002
quarta-feira, 10 de abril de 2002
Lulu Kati Kati - isso é suahili - quer dizer "o centro", "aquilo que está no meio".
Estava escrito num muro de Johanesburgo, e imagino se não fui até lá só pra ler isso e
me dar conta de que não importam as coordenadas.
No dia do equinócio que passou, eu vi um arco-íris no céu da África.
Voltei de lá mais colorida. O sol transita pelo meu ascendente e eu transponho a
fronteira dos dias e noites iguais.
Estava escrito num muro de Johanesburgo, e imagino se não fui até lá só pra ler isso e
me dar conta de que não importam as coordenadas.
No dia do equinócio que passou, eu vi um arco-íris no céu da África.
Voltei de lá mais colorida. O sol transita pelo meu ascendente e eu transponho a
fronteira dos dias e noites iguais.
segunda-feira, 4 de março de 2002
Eu já tive medo da felicidade. Hoje em dia, somos amigas.
Às vezes, quando a sua presença é avassaladora, confesso que ainda tenho
um olhar desconfiado. Fico imaginando: quando é que ela vai levantar daqui e ir embora?
É uma bobagem, isso.
Essa senhora tem cadeira cativa na minha vida e está sempre de bandeira em punho nos jogos de decisão.
Às vezes, quando a sua presença é avassaladora, confesso que ainda tenho
um olhar desconfiado. Fico imaginando: quando é que ela vai levantar daqui e ir embora?
É uma bobagem, isso.
Essa senhora tem cadeira cativa na minha vida e está sempre de bandeira em punho nos jogos de decisão.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2002
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2002
Meus amigos queridos estão bem, isso me faz feliz.
Às vezes paro pra pensar no quanto eu amo algumas pessoas, e por que
o faço tão silenciosamente. Não sou dada a conversas longas, não tenho
paciência pra muitos e-mails, sou quase sempre lacônica.
Para alguns amigos (geralmente, os mais antigos) eu custo a telefonar, passo tanto tempo sem ver...o que me
redime (porque eu me culpo e me puxo as orelhas) é que o amor que eu sinto por cada um deles continua igual.
Quando há o encontro, a confidência flui, o reconhecimento é instantâneo, a sintonia é fina.
O tempo é realmente uma bobagem para a qual damos atenção demais.
Me distraio tentando desinventar - hoje posso dar colo ao meu pai e pedir a bênção ao meu filho.
Às vezes paro pra pensar no quanto eu amo algumas pessoas, e por que
o faço tão silenciosamente. Não sou dada a conversas longas, não tenho
paciência pra muitos e-mails, sou quase sempre lacônica.
Para alguns amigos (geralmente, os mais antigos) eu custo a telefonar, passo tanto tempo sem ver...o que me
redime (porque eu me culpo e me puxo as orelhas) é que o amor que eu sinto por cada um deles continua igual.
Quando há o encontro, a confidência flui, o reconhecimento é instantâneo, a sintonia é fina.
O tempo é realmente uma bobagem para a qual damos atenção demais.
Me distraio tentando desinventar - hoje posso dar colo ao meu pai e pedir a bênção ao meu filho.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2002
Às vezes penso que a luz caiu. A corrente elétrica, quero dizer.
Escurece por um instante e depois tudo volta às claras. Nunca tenho certeza se
foi pane elétrica ou se foi pane nas minhas pálpebras.
Tenho a forte impressão que esses quase apagões - que duram ínfimos segundos - são uma pestanejada mais demorada.
Tenho quase certeza de que só eu percebo o quase escuro, e me pergunto se isso acontece com todo mundo.
Ou se apenas as minhas pálpebras hesitam, de vez em quando.
Talvez seja uma vontade absurda de fechar os olhos - pra que, não sei.
É claro que todo mundo tem esses questionamentos abestados.
No meu caso, é por causa do escurinho.
Confesso que também custo a acreditar que deja vú não seja uma experiência unicamente minha.
Assim como as sincronicidades.
***
Well, é bom demais passar por aqui - só vim porque achei que precisava deixar registrado em algum lugar que eu cheguei à conclusão, dentro do táxi, que em minha próxima existência quero ser um whirlwind. Nem que seja como o Diabo da Tasmânia. Porque nutro a idéia - cada dia mais parruda - que a gente encontra Deus numa espiral.
Coisas de deusa antiga, de Giramundo, de Cho Ku Rei. Até de chacrete, quem sabe...
***
Meg. Fausto. Carol. Rick.
Eu confesso: exulto quando vocês me citam nos seus blogs.
Vissem? Caí na arapuca.
Eu posso ser pretentious, vez por outra. Pretender, não.
Love ya.
Escurece por um instante e depois tudo volta às claras. Nunca tenho certeza se
foi pane elétrica ou se foi pane nas minhas pálpebras.
Tenho a forte impressão que esses quase apagões - que duram ínfimos segundos - são uma pestanejada mais demorada.
Tenho quase certeza de que só eu percebo o quase escuro, e me pergunto se isso acontece com todo mundo.
Ou se apenas as minhas pálpebras hesitam, de vez em quando.
Talvez seja uma vontade absurda de fechar os olhos - pra que, não sei.
É claro que todo mundo tem esses questionamentos abestados.
No meu caso, é por causa do escurinho.
Confesso que também custo a acreditar que deja vú não seja uma experiência unicamente minha.
Assim como as sincronicidades.
***
Well, é bom demais passar por aqui - só vim porque achei que precisava deixar registrado em algum lugar que eu cheguei à conclusão, dentro do táxi, que em minha próxima existência quero ser um whirlwind. Nem que seja como o Diabo da Tasmânia. Porque nutro a idéia - cada dia mais parruda - que a gente encontra Deus numa espiral.
Coisas de deusa antiga, de Giramundo, de Cho Ku Rei. Até de chacrete, quem sabe...
***
Meg. Fausto. Carol. Rick.
Eu confesso: exulto quando vocês me citam nos seus blogs.
Vissem? Caí na arapuca.
Eu posso ser pretentious, vez por outra. Pretender, não.
Love ya.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2002
Eu continuo achando que um novo mito é preciso.
Porque de Narciso eu ando de saco cheio, e não é de hoje.
Vaidade é ranhetice demais e entedia. Quando caio nessa arapuca me sinto tremendamente velha.
Eu queria um vento novo, um novo ser humano possível anunciado.
Eu queria uma revelação, uma jornada inusitada, um espanto.
Que enjôo.
Porque de Narciso eu ando de saco cheio, e não é de hoje.
Vaidade é ranhetice demais e entedia. Quando caio nessa arapuca me sinto tremendamente velha.
Eu queria um vento novo, um novo ser humano possível anunciado.
Eu queria uma revelação, uma jornada inusitada, um espanto.
Que enjôo.
terça-feira, 22 de janeiro de 2002
Inspirou profundamente pela narina direita. Contou até oito e expirou lentamente pela esquerda. A posição era de lótus, e as mãos dispostas da maneira correta para ativar shakti.
Meia hora nessa brincadeira. Quando estava quase desistindo de qualquer elevação, abriu-se um pop up em sua tela mental. Uma mensagem do alto. Baixou um arquivo do seu registro akáshico. A mensagem brilhou à sua frente:
A ingnorança é que atravanca o pogresso.
Pode crer. Nós, o povo das estrelas, sabemos mesmo das coisas!!!
Disse tudo.
Meia hora nessa brincadeira. Quando estava quase desistindo de qualquer elevação, abriu-se um pop up em sua tela mental. Uma mensagem do alto. Baixou um arquivo do seu registro akáshico. A mensagem brilhou à sua frente:
A ingnorança é que atravanca o pogresso.
Pode crer. Nós, o povo das estrelas, sabemos mesmo das coisas!!!
Disse tudo.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2002
sábado, 29 de dezembro de 2001
No ano que entra
eu quero fazer uma conta não muito exata.
Pretendo ir além da conta.
Olhar mais pra longe, para o próximo distante,
empunhar cordas e picaretas pra sair deste buraco
que é o meu umbigo (ouvi dizer que é logo ali,
entre as duas colinas ao Norte, que mora o Sol).
Também quero rir mais.
Fazer exercícios de língua pra não falar bobagem,
Andar de conversível pra encher a boca de vento.
Quiçá, usar as pontas dos dedos para somar e dividir,
de maneira que meu restante não sobre.
eu quero fazer uma conta não muito exata.
Pretendo ir além da conta.
Olhar mais pra longe, para o próximo distante,
empunhar cordas e picaretas pra sair deste buraco
que é o meu umbigo (ouvi dizer que é logo ali,
entre as duas colinas ao Norte, que mora o Sol).
Também quero rir mais.
Fazer exercícios de língua pra não falar bobagem,
Andar de conversível pra encher a boca de vento.
Quiçá, usar as pontas dos dedos para somar e dividir,
de maneira que meu restante não sobre.
terça-feira, 18 de dezembro de 2001
Dias estranhos, esses.
Há que se falar, há que se escrever -
o risco do silêncio é o ostracismo.
Não se manifestar sobre o que quer que seja pode ser a morte virtual.
O silente vira o ex, vira o outro - quiçá, um terrorista.
O compromisso é com o verbo, mesmo que sem princípio.
Strange days, indeed.
Não há lugar para o espaço entre dois pensamentos.
Isso me apavora. Não quero ser escrava da instantaneidade.
Vou continuar cedendo aos amplos vazios e à quietude sem reticências.
Há que se falar, há que se escrever -
o risco do silêncio é o ostracismo.
Não se manifestar sobre o que quer que seja pode ser a morte virtual.
O silente vira o ex, vira o outro - quiçá, um terrorista.
O compromisso é com o verbo, mesmo que sem princípio.
Strange days, indeed.
Não há lugar para o espaço entre dois pensamentos.
Isso me apavora. Não quero ser escrava da instantaneidade.
Vou continuar cedendo aos amplos vazios e à quietude sem reticências.
sexta-feira, 19 de outubro de 2001
Getting in the mood...só quero ouvir esses caras.
Silver
Swung from a chandelier
My planet sweet on a silver salver
Bailed out my worst fears
'Cause man has to be his own saviour
Blind sailors
Imprisoned jailers
God tame us
No one to blame us
The sky is blue
My hands untied
A world that's true
Through our clean eyes
Just look at you
With burning lips
You're living proof
At my fingertips
Walked on a tidal wave
Laughed in the face of a brand new day
Food for survival thought
Mapped out the place where I planned to stay
All the way
Well behaved
Just in case
It slips away
The sky is blue
My hands untied
A world that's true
Through our clean eyes
Just look at you
With burning lips
You're living proof
At my fingertips
Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips
Silver
Swung from a chandelier
My planet sweet on a silver salver
Bailed out my worst fears
'Cause man has to be his own saviour
Blind sailors
Imprisoned jailers
God tame us
No one to blame us
The sky is blue
My hands untied
A world that's true
Through our clean eyes
Just look at you
With burning lips
You're living proof
At my fingertips
Walked on a tidal wave
Laughed in the face of a brand new day
Food for survival thought
Mapped out the place where I planned to stay
All the way
Well behaved
Just in case
It slips away
The sky is blue
My hands untied
A world that's true
Through our clean eyes
Just look at you
With burning lips
You're living proof
At my fingertips
Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips
terça-feira, 16 de outubro de 2001
"Desejo", do latim de-sid-erio , provém da raiz
"sid" , da língua Zenda, significando ESTRELA, como se vê em sideral -
relativo às estrelas.
Seguir o desejo é seguir a estrela - estar
orientado, saber para onde se vai, conhecer a direção...
Recebi um texto do José Angelo Gaiarsa, na Lista Artemis, de onde recortei o
trecho acima...
Meu nome é desejo!
Carácoles...
"sid" , da língua Zenda, significando ESTRELA, como se vê em sideral -
relativo às estrelas.
Seguir o desejo é seguir a estrela - estar
orientado, saber para onde se vai, conhecer a direção...
Recebi um texto do José Angelo Gaiarsa, na Lista Artemis, de onde recortei o
trecho acima...
Meu nome é desejo!
Carácoles...
Transgressão
Se eu encho a boca de amoras,
meu pai vem e me pega manchada.
Vai me olhar durante horas
e me deixar encabulada.
Mas de amora eu gosto tanto,
elas me dão muito prazer...
Então, depois de curto pranto,
mais amoras vou comer.
.......................................
Onde andará meu Saturno?
Se eu encho a boca de amoras,
meu pai vem e me pega manchada.
Vai me olhar durante horas
e me deixar encabulada.
Mas de amora eu gosto tanto,
elas me dão muito prazer...
Então, depois de curto pranto,
mais amoras vou comer.
.......................................
Onde andará meu Saturno?
domingo, 14 de outubro de 2001
quarta-feira, 10 de outubro de 2001
Oh yeah, all right, funky boogie...
Eu estava me divertindo vendo o bartender cortar em oito gomos um limão pra logo em seguida enfiar um deles gargalo adentro na minha garrafa de Sol (Solllll, que ahora yo hablo español) quando uma senhora gorda me esbarrou no cotovelo.
Não sou de reclamar dessas coisas, mas confesso que na hora lancei um olhar impertinente, coisa que fiz sem me dar conta, pra variar. Causou espanto o arrojo da gordota. Cabelos brancos esticados pra trás com gel, sombra cintilante, glitter nas bochechas e um vestido azul celeste de musseline, como eu não via desde as festas de debut das minhas primas (oh!).
Acho que meu olhar passou de impertinente a divertido, mas a senhorinha não se abalou. Foi servida de kir royal, segurou firme no canudinho, deu duas cutucadas na cereja no fundo do copo e soltou a bomba.
- Tá difícil de pedir, né?
- O garçon demorou pra lhe atender? É que ele dá prioridade pras loiras...hehehehe...
- Não estou falando dele, meu bem. Estou falando de você.
Sorri. Tadinha.
- Desculpe, não entendi. De mim?
- É. Faz tempo que você não pede nada.
- Como assim? Pedir o que? Pra quem?
- Pra mim que não ia ser, você nunca levou fé na minha figura, mesmo. Mas podia pedir pra os anjos, pro Universo, pro ...pro barbudo, aquele.
- Ficou sério. Não fala assim dele. Dá pra senhora explicar melhor o assunto? Pera só um minutinho...Moço, outra Sol.
- Sou sua fada-madrinha, babe. A coisa tá feia. Você não pede nada. Orgulhosa, distraída, tá demais. Minha varinha criou teia de aranha, eu estou frustrada, trabalhar com você é fácil, mas eu gosto de desafios, quero feedback, só o salário não conta, se é que você entende.
- Sei...salário, é? De quanto?
- Não interessa. Eu quero é botar a mão na massa, Tipiti, tipiti, puff! Rodar a saia, fazer volteio com a varinha, espalhar pózinho nacarado. Dá pra esboçar um desejo, desses, bem objetivos e impactantes?
- Opa! Pode parar...a senhora está enganada, ou já não ouve direito. Eu vivo querendo coisas, não venha com essa de que a culpa é minha se a senhora não trabalha.
- Querer não é desejar, honey. Muito menos pedir. Pensei que você já soubesse a diferença, depois de tanto ler a Rubedo.
- Esqueci dessas coisas...foi uma fase, faz tempo que não penso nisso...desejo, vontade...necessidade...sabe que a senhora tem razão?
- Pois é. Naquela época, eu ainda me coçava. Agora, nem isso! Você quer fazer tudo, não me dá a deixa, eu tô no escanteio e nada de bola!
- Que mal! Mas tem muita coisa que eu desejo!! É só parar pra pensar. Posso pedir a primeira?
- Por favor. Eu sou workaholic.
You’re just too good to be true...
E o Celebrare entrou no palco enquanto eu tinha meus desejos realizados.
Eu estava me divertindo vendo o bartender cortar em oito gomos um limão pra logo em seguida enfiar um deles gargalo adentro na minha garrafa de Sol (Solllll, que ahora yo hablo español) quando uma senhora gorda me esbarrou no cotovelo.
Não sou de reclamar dessas coisas, mas confesso que na hora lancei um olhar impertinente, coisa que fiz sem me dar conta, pra variar. Causou espanto o arrojo da gordota. Cabelos brancos esticados pra trás com gel, sombra cintilante, glitter nas bochechas e um vestido azul celeste de musseline, como eu não via desde as festas de debut das minhas primas (oh!).
Acho que meu olhar passou de impertinente a divertido, mas a senhorinha não se abalou. Foi servida de kir royal, segurou firme no canudinho, deu duas cutucadas na cereja no fundo do copo e soltou a bomba.
- Tá difícil de pedir, né?
- O garçon demorou pra lhe atender? É que ele dá prioridade pras loiras...hehehehe...
- Não estou falando dele, meu bem. Estou falando de você.
Sorri. Tadinha.
- Desculpe, não entendi. De mim?
- É. Faz tempo que você não pede nada.
- Como assim? Pedir o que? Pra quem?
- Pra mim que não ia ser, você nunca levou fé na minha figura, mesmo. Mas podia pedir pra os anjos, pro Universo, pro ...pro barbudo, aquele.
- Ficou sério. Não fala assim dele. Dá pra senhora explicar melhor o assunto? Pera só um minutinho...Moço, outra Sol.
- Sou sua fada-madrinha, babe. A coisa tá feia. Você não pede nada. Orgulhosa, distraída, tá demais. Minha varinha criou teia de aranha, eu estou frustrada, trabalhar com você é fácil, mas eu gosto de desafios, quero feedback, só o salário não conta, se é que você entende.
- Sei...salário, é? De quanto?
- Não interessa. Eu quero é botar a mão na massa, Tipiti, tipiti, puff! Rodar a saia, fazer volteio com a varinha, espalhar pózinho nacarado. Dá pra esboçar um desejo, desses, bem objetivos e impactantes?
- Opa! Pode parar...a senhora está enganada, ou já não ouve direito. Eu vivo querendo coisas, não venha com essa de que a culpa é minha se a senhora não trabalha.
- Querer não é desejar, honey. Muito menos pedir. Pensei que você já soubesse a diferença, depois de tanto ler a Rubedo.
- Esqueci dessas coisas...foi uma fase, faz tempo que não penso nisso...desejo, vontade...necessidade...sabe que a senhora tem razão?
- Pois é. Naquela época, eu ainda me coçava. Agora, nem isso! Você quer fazer tudo, não me dá a deixa, eu tô no escanteio e nada de bola!
- Que mal! Mas tem muita coisa que eu desejo!! É só parar pra pensar. Posso pedir a primeira?
- Por favor. Eu sou workaholic.
You’re just too good to be true...
E o Celebrare entrou no palco enquanto eu tinha meus desejos realizados.
sábado, 29 de setembro de 2001
Há pessoas cuja alma não aceita ser engaiolada.
Há outras, como eu, que amarram as asas da alma,
violentam-na para dentro das grades e mantêm-se vigilantes
à porta da gaiola - aberta.
Fingem viver no mundo da normalidade, mas morrem de pavor de uma vingança alada.
.................................................................
A RESPIRAÇÃO DAS PALAVRAS
**Dos Fundamentos dos Pássaros**
O pássaro é denso mas crispado e tem angústias, medos. Aprendeu a sabedoria de pôr-se a jusante das alamedas e do turvo chão, testemunha das planuras , pouquidões humanas.
Há pássaros óbvios. Outros habitam o peito dos mares e aí parecem-se a peixes e a algas que erram. Os pássaros não deixam tocar-se porque são nus e anunciadores. Raro desfazerem-se das sedas de que são articulados: ponto a ponto. Os pássaros são orgíacos, substantivos, a despeito de seu desarvoramento.
Pássaros são feitos de gritos monossilábicos e pulsam pautados: cascos partindo-se no ar. São o silêncio das claras de ovo, o modo de ser da marcha resolvida dos alados.
Os pássaros expõem-se denodados mas de perfil. Irrompem nas desferidas asas ou as colam ao corpo - depositário das deliberações que exacerbam os arcos, que se dão sempre e quebram-se.
por Maria Elisa Guimarães® (Meg)
(que tem a alma livre)
Há outras, como eu, que amarram as asas da alma,
violentam-na para dentro das grades e mantêm-se vigilantes
à porta da gaiola - aberta.
Fingem viver no mundo da normalidade, mas morrem de pavor de uma vingança alada.
.................................................................
A RESPIRAÇÃO DAS PALAVRAS
**Dos Fundamentos dos Pássaros**
O pássaro é denso mas crispado e tem angústias, medos. Aprendeu a sabedoria de pôr-se a jusante das alamedas e do turvo chão, testemunha das planuras , pouquidões humanas.
Há pássaros óbvios. Outros habitam o peito dos mares e aí parecem-se a peixes e a algas que erram. Os pássaros não deixam tocar-se porque são nus e anunciadores. Raro desfazerem-se das sedas de que são articulados: ponto a ponto. Os pássaros são orgíacos, substantivos, a despeito de seu desarvoramento.
Pássaros são feitos de gritos monossilábicos e pulsam pautados: cascos partindo-se no ar. São o silêncio das claras de ovo, o modo de ser da marcha resolvida dos alados.
Os pássaros expõem-se denodados mas de perfil. Irrompem nas desferidas asas ou as colam ao corpo - depositário das deliberações que exacerbam os arcos, que se dão sempre e quebram-se.
por Maria Elisa Guimarães® (Meg)
(que tem a alma livre)
Ele lia em voz alta a parábola de Gibran: "A violeta e a rosa".
Eu assistia à cena muda, percebendo quando sua voz tremia, quando o canto dos seus lábios esboçavam um sorriso enquanto ele lia, quando as suas mãos apertavam um pouco mais o livro e, finalmente, quando terminava a leitura, percebia o quanto seus olhos brilhavam. Aquilo o emocionava demais. Ele se identificava com a rosa.
Juro que tentei ser rosa, mas as pétalas não se comportam...não se encaixam com a perfeição que deveriam, e os espinhos - tão necessários - me dão comichões. Aí, sendo rosa, fico descabelada e com coceira.
Ele também não suportou ser rosa muito tempo.
Tampouco sou violeta.
Nasci miosótis e vou morrer maria-sem-vergonha.
Eu assistia à cena muda, percebendo quando sua voz tremia, quando o canto dos seus lábios esboçavam um sorriso enquanto ele lia, quando as suas mãos apertavam um pouco mais o livro e, finalmente, quando terminava a leitura, percebia o quanto seus olhos brilhavam. Aquilo o emocionava demais. Ele se identificava com a rosa.
Juro que tentei ser rosa, mas as pétalas não se comportam...não se encaixam com a perfeição que deveriam, e os espinhos - tão necessários - me dão comichões. Aí, sendo rosa, fico descabelada e com coceira.
Ele também não suportou ser rosa muito tempo.
Tampouco sou violeta.
Nasci miosótis e vou morrer maria-sem-vergonha.
quarta-feira, 19 de setembro de 2001
terça-feira, 18 de setembro de 2001
Eu estava sondando os preços dos palmtops (que é a minha próxima empreitada no universo dos gadgets tecnológicos, eu, que não sei programar o videocassete, pretendo escrever na tela de cristal líquido com um pauzinho de laranjeira pós-moderno) quando abriu uma janela totalmente esquisita no meu monitor.
A primeira coisa que imaginei foi que havia feito uma trapalhada e baixado um novo screensaver com uma animação de que até Ele duvida. Uma carta (feito aquelas, amarelinhas, do ICQ - só que bem maior e vermelha) piscava sem parar e uma animação sugeria de um jeito meio ameaçador: abra-me....abra-me...Entre as palavras, uma espiral preta rodava. Catifum.
Muito bem. Beijei a imagem de São Judas Tadeu que carrego sempre comigo e cliquei duas vezes no envelope vermelho. Abriu uma sala de chat. Lá estávamos, eu e ele.
- Bem vinda...
- Oi, tudo bem? De onde vc tc?
- Não vem ao caso. Que bom que você aceitou meu convite para o chat.
- Legal, ficaria melhor se você se apresentasse.
- Claro, me desculpe...eu sou O Outro.
- Francisco Cuoco?
- Hehehe..vc lembra, é? Também gostei dessa novela. Mas não sou o Cuoco, não.
- Ok, continuo na mesma. Vc é o outro quem?
- O Outro. O transgressor da sua ordem. O da esquerda, o da mão que segura o garfo. O distante, o exilado, o diferente. Compreende?
- Tá insinuando que é o Capeta? (nem devia escrever essa palavra, que não é de bom agouro, é que nem "azar", que a gente não deve falar nem escrever, pra ver se risca do mapa)
- Acho que me dão muitos nomes por aí, mas não atendo por nenhum deles. Digamos que eu seja só o Outro. Curiosamente, é em mim que muita gente faz morada de seus capetas.
- Tô entendendo. Não sou burra nesses assuntos, sabe? Minha avó é Rosacruz, meu tio é pai-de-santo. Eu mesma ando num canto e noutro. Diga lá, vc me procurou pra que? Aliás, interessante essa sua abordagem via Internet.
- A Rede não deve ser para todos?
- De fato. Não ia ser você um excluído, um sem-acesso, um sem-tela.
- Absolutamente. Estou aqui por gentileza. Realmente, não tenho acesso - livre, gratuito, nada disso. Meu território é a própria exclusão. Imaginei que você soubesse disso. Mas tenho percebido que ultimamente, o que aparece no seu monitor vira sua realidade e julguei (ops) que esta seria uma forma eficiente de chamar a sua atenção.
- Bacana, boa estratégia. Agora, vamos à vaca fria. Me diga, pra que você quer minha atenção?
- Quero ser integrado. Quero que você faça um esforço para relativizar as diferenças que nos separam, para cooptar uma parcela do que represento. Quero que você abra mão de algumas certezas, que questione-as à luz das possibilidades que venho oferecer, quero que você reavalie alguns de seus conceitos.
- Deixa eu ver se entendi: você quer que eu abra mão de um pedaço de mim, de uma parte da minha história, que eu me desfaça dos valores que levei quase 35 anos pra construir, à custa de muita porrada, você quer que eu deixe de acreditar em coisas nas quais meus pais acreditaram, em coisas que eu estudei, li e refleti até chegar ao ponto de acreditar, em tudo que é mais precioso pra mim - idéias, filosofias, crenças pessoais, herança - pra ceder espaço pra você??? Que eu nem sei quem é??? A troco de que? Que conversa é essa? Tá me estranhando? Será que você sabe com quem tá falando?
You have mail!
Nova janelinha. Cliquei duas vezes, ato impensado, quase vício.
Notícias do mundo.
Cliquei correndo para a janelinha da sala de chat, procurando o Outro pra ver se dava tempo de uma explicação, uma busca de reconhecimento, uma reavaliação da minha postura, tão irrefletida.
The user "O outro" left the chat.
Cliquei no quadradinho com um X e fechei a sessão. Quem será que era esse outro?
Paciência...bobagem. Outra hora ele aparece e eu penso nisso de novo. Entrei no site da CNN pra saber mais sobre o atentado terrorista, cuja notícia acabara de chegar. Isso sim, merece minha atenção. Dane-se o Outro.
A primeira coisa que imaginei foi que havia feito uma trapalhada e baixado um novo screensaver com uma animação de que até Ele duvida. Uma carta (feito aquelas, amarelinhas, do ICQ - só que bem maior e vermelha) piscava sem parar e uma animação sugeria de um jeito meio ameaçador: abra-me....abra-me...Entre as palavras, uma espiral preta rodava. Catifum.
Muito bem. Beijei a imagem de São Judas Tadeu que carrego sempre comigo e cliquei duas vezes no envelope vermelho. Abriu uma sala de chat. Lá estávamos, eu e ele.
- Bem vinda...
- Oi, tudo bem? De onde vc tc?
- Não vem ao caso. Que bom que você aceitou meu convite para o chat.
- Legal, ficaria melhor se você se apresentasse.
- Claro, me desculpe...eu sou O Outro.
- Francisco Cuoco?
- Hehehe..vc lembra, é? Também gostei dessa novela. Mas não sou o Cuoco, não.
- Ok, continuo na mesma. Vc é o outro quem?
- O Outro. O transgressor da sua ordem. O da esquerda, o da mão que segura o garfo. O distante, o exilado, o diferente. Compreende?
- Tá insinuando que é o Capeta? (nem devia escrever essa palavra, que não é de bom agouro, é que nem "azar", que a gente não deve falar nem escrever, pra ver se risca do mapa)
- Acho que me dão muitos nomes por aí, mas não atendo por nenhum deles. Digamos que eu seja só o Outro. Curiosamente, é em mim que muita gente faz morada de seus capetas.
- Tô entendendo. Não sou burra nesses assuntos, sabe? Minha avó é Rosacruz, meu tio é pai-de-santo. Eu mesma ando num canto e noutro. Diga lá, vc me procurou pra que? Aliás, interessante essa sua abordagem via Internet.
- A Rede não deve ser para todos?
- De fato. Não ia ser você um excluído, um sem-acesso, um sem-tela.
- Absolutamente. Estou aqui por gentileza. Realmente, não tenho acesso - livre, gratuito, nada disso. Meu território é a própria exclusão. Imaginei que você soubesse disso. Mas tenho percebido que ultimamente, o que aparece no seu monitor vira sua realidade e julguei (ops) que esta seria uma forma eficiente de chamar a sua atenção.
- Bacana, boa estratégia. Agora, vamos à vaca fria. Me diga, pra que você quer minha atenção?
- Quero ser integrado. Quero que você faça um esforço para relativizar as diferenças que nos separam, para cooptar uma parcela do que represento. Quero que você abra mão de algumas certezas, que questione-as à luz das possibilidades que venho oferecer, quero que você reavalie alguns de seus conceitos.
- Deixa eu ver se entendi: você quer que eu abra mão de um pedaço de mim, de uma parte da minha história, que eu me desfaça dos valores que levei quase 35 anos pra construir, à custa de muita porrada, você quer que eu deixe de acreditar em coisas nas quais meus pais acreditaram, em coisas que eu estudei, li e refleti até chegar ao ponto de acreditar, em tudo que é mais precioso pra mim - idéias, filosofias, crenças pessoais, herança - pra ceder espaço pra você??? Que eu nem sei quem é??? A troco de que? Que conversa é essa? Tá me estranhando? Será que você sabe com quem tá falando?
You have mail!
Nova janelinha. Cliquei duas vezes, ato impensado, quase vício.
Notícias do mundo.
Cliquei correndo para a janelinha da sala de chat, procurando o Outro pra ver se dava tempo de uma explicação, uma busca de reconhecimento, uma reavaliação da minha postura, tão irrefletida.
The user "O outro" left the chat.
Cliquei no quadradinho com um X e fechei a sessão. Quem será que era esse outro?
Paciência...bobagem. Outra hora ele aparece e eu penso nisso de novo. Entrei no site da CNN pra saber mais sobre o atentado terrorista, cuja notícia acabara de chegar. Isso sim, merece minha atenção. Dane-se o Outro.
quarta-feira, 5 de setembro de 2001
Medea nunc sum.
Ponto de congelamento, cuja questão persiste através da trêmula fluidez de nossas emoções.
Ninguém sonha imitar Medéia, não se imita o acontecimento, não se pode antecipá-lo, não se pode vivê-lo por procuração: ele produz seu presente, a cada vez singular e, no entanto, a cada vez repetido.
Ninguém pensa em consolar Medéia, cercá-la de uma afeição que repara e reconcilia. Ninguém deveria nem mesmo ousar expressar qualquer tipo de solidariedade com Medéia. Ela não pode fazer mais nada, não nos pede nada, não pede mais nada a ninguém. Ela é Medéia.
Isabelle Stengers
Ponto de congelamento, cuja questão persiste através da trêmula fluidez de nossas emoções.
Ninguém sonha imitar Medéia, não se imita o acontecimento, não se pode antecipá-lo, não se pode vivê-lo por procuração: ele produz seu presente, a cada vez singular e, no entanto, a cada vez repetido.
Ninguém pensa em consolar Medéia, cercá-la de uma afeição que repara e reconcilia. Ninguém deveria nem mesmo ousar expressar qualquer tipo de solidariedade com Medéia. Ela não pode fazer mais nada, não nos pede nada, não pede mais nada a ninguém. Ela é Medéia.
Isabelle Stengers
De uns dias pra cá, ele só anda curvado. Não sei se é por algum motivo concreto, físico, ou se é mania, mesmo.
A impressão que dá é que ele procura por alguma coisa bem pequenininha, que se perdeu num vão entre as pedras portuguesas.
Talvez, de tanto dormir na calçada, tenha aprendido a língua das pedras e, ao invés de procurar com os olhos, cata segredos com os ouvidos.
Ele fala sozinho de monte e inventa umas modas que eu considero verdadeiras instalações: amarra sacos de lixo nos respiradouros da calçada, ordena objetos catados na rua com uma lógica que só ele entende e fica olhando pra eles durante muito tempo, cuidando para que nenhum passante distraído esbarre e estrague tudo que é perfeito. Tem dias em que me pergunto se as montagens de coisas, ao lado da banca de jornal, não fazem parte de algum ritual secreto do povo das ruas. Já o flagrei de varinha na mão, andando em círculos ao redor de cacarecos. Sabe-se lá.
À primeira vista, pensei que ele fosse um mendigo como tantos outros. Com a convivência (nos encontramos todos os dias, afinal) fui percebendo que não é só mendicância a sua realidade. Há um viés, ali. Para muitos, pode ser interpretado como alienação e loucura. Até mesmo para mim, era disso que se tratava, até hoje.
Mudei de idéia.
O caso é que estava comprando empadas numa carrocinha aqui perto de casa, quando ele passou. Percebi seu olhar para a vitrine do carrinho e depois, para o vendedor. Por fim, pararam em mim.
Impossível ficar indiferente. Ele murmurou alguma coisa ininteligível, que eu compreendi - claro, sou cristã, decente, compassiva, politicamente correta e ainda por cima, trabalho em ONG - como um pedido.
- Dá uma pra ele - disse ao vendedor.
Feito.
Ele olhou fixamente para a empada por um tempo, como se avaliando a conveniência de comê-la naquele momento e ali. Depois olhou pra mim, por uns minutos. Impossível descrever o que eu vi.
Era a mim mesma, que eu observava. Não achei estranho ser o homem encurvado à minha frente. Aposto que ele também não achou estranho ser a mulher empertigada.
A impressão que dá é que ele procura por alguma coisa bem pequenininha, que se perdeu num vão entre as pedras portuguesas.
Talvez, de tanto dormir na calçada, tenha aprendido a língua das pedras e, ao invés de procurar com os olhos, cata segredos com os ouvidos.
Ele fala sozinho de monte e inventa umas modas que eu considero verdadeiras instalações: amarra sacos de lixo nos respiradouros da calçada, ordena objetos catados na rua com uma lógica que só ele entende e fica olhando pra eles durante muito tempo, cuidando para que nenhum passante distraído esbarre e estrague tudo que é perfeito. Tem dias em que me pergunto se as montagens de coisas, ao lado da banca de jornal, não fazem parte de algum ritual secreto do povo das ruas. Já o flagrei de varinha na mão, andando em círculos ao redor de cacarecos. Sabe-se lá.
À primeira vista, pensei que ele fosse um mendigo como tantos outros. Com a convivência (nos encontramos todos os dias, afinal) fui percebendo que não é só mendicância a sua realidade. Há um viés, ali. Para muitos, pode ser interpretado como alienação e loucura. Até mesmo para mim, era disso que se tratava, até hoje.
Mudei de idéia.
O caso é que estava comprando empadas numa carrocinha aqui perto de casa, quando ele passou. Percebi seu olhar para a vitrine do carrinho e depois, para o vendedor. Por fim, pararam em mim.
Impossível ficar indiferente. Ele murmurou alguma coisa ininteligível, que eu compreendi - claro, sou cristã, decente, compassiva, politicamente correta e ainda por cima, trabalho em ONG - como um pedido.
- Dá uma pra ele - disse ao vendedor.
Feito.
Ele olhou fixamente para a empada por um tempo, como se avaliando a conveniência de comê-la naquele momento e ali. Depois olhou pra mim, por uns minutos. Impossível descrever o que eu vi.
Era a mim mesma, que eu observava. Não achei estranho ser o homem encurvado à minha frente. Aposto que ele também não achou estranho ser a mulher empertigada.
quinta-feira, 30 de agosto de 2001
Me aconteceu uma coisa inédita. Fui desenhada.
Não vou contar em que condições, mas Deus e todo mundo pode apostar que não foi caricatura.
O artista me olhava e rabiscava, lambia a ponta do dedo e esfumaçava tudo o que tinha feito.
Por pouco eu não dizia - não apaga esse pedaço! - mas quando pude finalmente olhar, a obra
estava perfeita.
Admiro demais esse talento.
Não vou contar em que condições, mas Deus e todo mundo pode apostar que não foi caricatura.
O artista me olhava e rabiscava, lambia a ponta do dedo e esfumaçava tudo o que tinha feito.
Por pouco eu não dizia - não apaga esse pedaço! - mas quando pude finalmente olhar, a obra
estava perfeita.
Admiro demais esse talento.
Esse cara vê tudo.
Tomei. Tomei mesmo. Todas.
Tava lá na minha frente, aquela garrafinha comprida. Eu já tinha engolido quatro gomos de limão e brincava com os fiapinhos de uma lima-da-pérsia no meio dos dentes, que também já tinha sido traçada com pinga - da boa.
Gastei meia boca num sorriso pro garçon e apontei com o dedo mindinho (pra mais ninguém ver, além dele):
- aquela garrafinha ali.
- Tem certeza? Olha que aquilo pega...
- Pega o que, meu filho, tome tento! Desce a garrafinha, please.
O engravatado nem disse ok, me deu as costas (ele usava mullet - hahaha! - coitado.) e serviu o líquido verde.
Weeellll....abri meu Mac azul ali mesmo, ao som de "Girl you'll be a woman soon" e dedilhei o teclado sem pudores.
Era absinto. Entrei no espírito e expressei minhas impressões. Na lapela do garçon, uma flor enorme girava.
A última coisa de que me lembro foi de ter conversado longamente com um transexual que veio puxar papo, encantado com a minha tatuagem. "Charming..."disse o ser.
"As you like it" - respondi.
Da noite, só sobraram duas lembranças. Um post meio maluco que suscitou dúvidas acerca de minha feminilidade e uma foto (não sei que desnaturado tirou) onde apareço numa fila de cachorras dançando a Macareña.
Tomei. Tomei mesmo. Todas.
Tava lá na minha frente, aquela garrafinha comprida. Eu já tinha engolido quatro gomos de limão e brincava com os fiapinhos de uma lima-da-pérsia no meio dos dentes, que também já tinha sido traçada com pinga - da boa.
Gastei meia boca num sorriso pro garçon e apontei com o dedo mindinho (pra mais ninguém ver, além dele):
- aquela garrafinha ali.
- Tem certeza? Olha que aquilo pega...
- Pega o que, meu filho, tome tento! Desce a garrafinha, please.
O engravatado nem disse ok, me deu as costas (ele usava mullet - hahaha! - coitado.) e serviu o líquido verde.
Weeellll....abri meu Mac azul ali mesmo, ao som de "Girl you'll be a woman soon" e dedilhei o teclado sem pudores.
Era absinto. Entrei no espírito e expressei minhas impressões. Na lapela do garçon, uma flor enorme girava.
A última coisa de que me lembro foi de ter conversado longamente com um transexual que veio puxar papo, encantado com a minha tatuagem. "Charming..."disse o ser.
"As you like it" - respondi.
Da noite, só sobraram duas lembranças. Um post meio maluco que suscitou dúvidas acerca de minha feminilidade e uma foto (não sei que desnaturado tirou) onde apareço numa fila de cachorras dançando a Macareña.
sexta-feira, 24 de agosto de 2001
Ela se virou na cama muito disposta a se permitir mais cinco minutos de sono, quando sentiu um volume inesperado contra o colchão. Sequer abriu os olhos, tateou pra ver o que era...bateu o pânico. Seu seio estava enorme. Três vezes o tamanho normal. Pensou em doença, em distúrbio hormonal durante a noite, em algum pesadelo esquisito, em visita da fada madrinha. O peitão continuava lá, e - o que é pior (ou melhor, mais provavelmente) eram os dois, grandes e duros.
Pulou da cama, arrancou a camiseta e fechou a porta do quarto, pra que ninguém descobrisse a novidade esquisotérica antes que lhe ocorresse uma explicação plausível. Também porque era o maior espelho da casa, aquele de trás da porta. Não deu tempo de avaliar os novos peitos. Parou - congelou - olhando para a própria cara, irreconhecível. Sua boca estava delineada com um lápis marrom e os lábios cintilavam no batom dourado. Os olhos....e isso eram olhos? Sobravam pestanas, os tufos de cílios postiços enormes, fizeram-na lembrar da infância, quando tinha medo de uma caixinha com pestanas pretas de mentira que a mãe guardava na gaveta do banheiro, junto com um tubinho micro de cola. Pois agora estavam lá, penduradas nas suas pálpebras.
Pensou em tocar na imagem refletida, mas quando aproximou a mão do espelho descuidadamente, as unhas estalaram contra o vidro. Tão grandes, que a ponta dos dedos não sentiam o frio do espelho. Aquelas eram garras, e estavam pintadas com uma cor intraduzível, com glitter por cima.
Ergueu a sombrancelha - agora finíssima e muito arqueada, tão fake quanto o resto, rabiscada sem vergonha. O que se passava, afinal? Quem era aquela figura esquisita tomando conta do seu pedaço?
Não teve tempo de esperar uma resposta - a empregada entrou sem cerimônia, colocou uma bandeja com café e comprimidos em cima da cama e deu bom-dia sem espanto.
-Aparecida? (ARGH! O que aconteceu com a minha voz????)
- Que é que houve, patroa?
- Você não tá me achando estranha? (a voz continuava errada, como se estivesse se curando de uma faringite)
- Tô não senhora. Tá sentindo bem?
- Aparecida, você não tá vendo a minha cara? Não tá ouvindo essa voz esquisitona? Tá vendo esses peitões, que coisa estranha??
- Ih, dona Arlete, a senhora tá em crise de novo? Quer um chazinho no lugar do café? Já sei, a batalha ontem foi ruim.
- Arlete? Batalha? Aparecida do que é que você tá falando?
- Tá bom, já entendi. Vou lá na rua, buscar sua bota de pelúcia azul no sapateiro, e trago um Calminex na volta, tá? Enquanto isso a senhora fica quietinha aí.
- Aparecida, tá tudo muito errado! Tá tudo muito estranho!!
Não deu tempo de falar mais nada. Aparecida saiu e levou junto um poodle que ela nunca tinha visto na vida.
Pensou em voltar para a cama para tentar acordar de novo, com as coisas como eram antes. Pensou em chorar.
Pensou....pensou...hesitou...deu outra espiadinha no espelho. De cima até em baixo.
- Se eu chorar, vai descolar minhas pestanas.
.....suspiro....
- Acho que virei um travesti.
Não teve coragem para conferir o que tinha por baixo da samba-canção de seda púrpura. O cheiro de Chanel nº 5 que exalava dos - agora longos e louros - cabelos estava a deixando inebriada.
- É isso. Arlete...peitões de silicone...bota de pelúcia azul...É, nega. I will survive.
Pulou da cama, arrancou a camiseta e fechou a porta do quarto, pra que ninguém descobrisse a novidade esquisotérica antes que lhe ocorresse uma explicação plausível. Também porque era o maior espelho da casa, aquele de trás da porta. Não deu tempo de avaliar os novos peitos. Parou - congelou - olhando para a própria cara, irreconhecível. Sua boca estava delineada com um lápis marrom e os lábios cintilavam no batom dourado. Os olhos....e isso eram olhos? Sobravam pestanas, os tufos de cílios postiços enormes, fizeram-na lembrar da infância, quando tinha medo de uma caixinha com pestanas pretas de mentira que a mãe guardava na gaveta do banheiro, junto com um tubinho micro de cola. Pois agora estavam lá, penduradas nas suas pálpebras.
Pensou em tocar na imagem refletida, mas quando aproximou a mão do espelho descuidadamente, as unhas estalaram contra o vidro. Tão grandes, que a ponta dos dedos não sentiam o frio do espelho. Aquelas eram garras, e estavam pintadas com uma cor intraduzível, com glitter por cima.
Ergueu a sombrancelha - agora finíssima e muito arqueada, tão fake quanto o resto, rabiscada sem vergonha. O que se passava, afinal? Quem era aquela figura esquisita tomando conta do seu pedaço?
Não teve tempo de esperar uma resposta - a empregada entrou sem cerimônia, colocou uma bandeja com café e comprimidos em cima da cama e deu bom-dia sem espanto.
-Aparecida? (ARGH! O que aconteceu com a minha voz????)
- Que é que houve, patroa?
- Você não tá me achando estranha? (a voz continuava errada, como se estivesse se curando de uma faringite)
- Tô não senhora. Tá sentindo bem?
- Aparecida, você não tá vendo a minha cara? Não tá ouvindo essa voz esquisitona? Tá vendo esses peitões, que coisa estranha??
- Ih, dona Arlete, a senhora tá em crise de novo? Quer um chazinho no lugar do café? Já sei, a batalha ontem foi ruim.
- Arlete? Batalha? Aparecida do que é que você tá falando?
- Tá bom, já entendi. Vou lá na rua, buscar sua bota de pelúcia azul no sapateiro, e trago um Calminex na volta, tá? Enquanto isso a senhora fica quietinha aí.
- Aparecida, tá tudo muito errado! Tá tudo muito estranho!!
Não deu tempo de falar mais nada. Aparecida saiu e levou junto um poodle que ela nunca tinha visto na vida.
Pensou em voltar para a cama para tentar acordar de novo, com as coisas como eram antes. Pensou em chorar.
Pensou....pensou...hesitou...deu outra espiadinha no espelho. De cima até em baixo.
- Se eu chorar, vai descolar minhas pestanas.
.....suspiro....
- Acho que virei um travesti.
Não teve coragem para conferir o que tinha por baixo da samba-canção de seda púrpura. O cheiro de Chanel nº 5 que exalava dos - agora longos e louros - cabelos estava a deixando inebriada.
- É isso. Arlete...peitões de silicone...bota de pelúcia azul...É, nega. I will survive.
domingo, 19 de agosto de 2001
Percebi que minhas palavras são muito velhas.
Tudo já foi dito. Não há novidade em falar ou escrever.
Nada de revolucionário, fora do silêncio.
Tudo previsível, tudo repeteco, tudo comum.
Em muitos momentos me identifico com o papagaio histérico da minha vizinha da frente.
"Quando velhas palavras morrem na língua, novas melodias brotam no coração", dizia Tagore.
Tudo já foi dito. Não há novidade em falar ou escrever.
Nada de revolucionário, fora do silêncio.
Tudo previsível, tudo repeteco, tudo comum.
Em muitos momentos me identifico com o papagaio histérico da minha vizinha da frente.
"Quando velhas palavras morrem na língua, novas melodias brotam no coração", dizia Tagore.
domingo, 12 de agosto de 2001
quinta-feira, 9 de agosto de 2001
-...mas eu só estava tentando ser agradável...que mal há nisso?
- Isso é o que você faz sempre, mas..convenhamos. Não é a melhor estratégia, pelo menos, não o tempo todo.
- E o que você esperava de mim? Que eu mandasse todo mundo se f*(com o perdão da má palavra)? É isso que você chama de estratégia que funciona...faz-me rir!
- De vez em quando presta. Faz as coisas andarem, entende? Vem cá, por que você não fala palavrão? Fala assim, ó, é fácil: se fo-der. Repete.
- Não, obrigado. Prefiro manter a categoria.
- Hehehehe....categoria, né? Tá. Você devia é se meter numa armadura, enfiar um elmo, empunhar uma espada e ensandecer, desferindo golpes a três por quatro!!!
- Ahã.
- Cadê sua armadura? Você tem uma, não tem?
- Mandei polir.
- Quê?
- Mandei polir. Faço isso com frequência. Não saio desarrumado, vc nunca se deu conta?
- Mandou polir....eu sei que você é elegante, mas precisa tanto fricote?
- Não é fricote. O diabo mora nos detalhes. Gosto de seduzir, antes de degolar. Esse é o expediente de um Marte em Libra.
- Isso é o que você faz sempre, mas..convenhamos. Não é a melhor estratégia, pelo menos, não o tempo todo.
- E o que você esperava de mim? Que eu mandasse todo mundo se f*(com o perdão da má palavra)? É isso que você chama de estratégia que funciona...faz-me rir!
- De vez em quando presta. Faz as coisas andarem, entende? Vem cá, por que você não fala palavrão? Fala assim, ó, é fácil: se fo-der. Repete.
- Não, obrigado. Prefiro manter a categoria.
- Hehehehe....categoria, né? Tá. Você devia é se meter numa armadura, enfiar um elmo, empunhar uma espada e ensandecer, desferindo golpes a três por quatro!!!
- Ahã.
- Cadê sua armadura? Você tem uma, não tem?
- Mandei polir.
- Quê?
- Mandei polir. Faço isso com frequência. Não saio desarrumado, vc nunca se deu conta?
- Mandou polir....eu sei que você é elegante, mas precisa tanto fricote?
- Não é fricote. O diabo mora nos detalhes. Gosto de seduzir, antes de degolar. Esse é o expediente de um Marte em Libra.
Ming
Quando ela se engasgava, se traía
e a fúria abandonava seu quartel.
E se espalhava, impetrava, se expandia,
pulava a muralha da China,
queimava dragões de papel.
Eu não ligo pra Mandarins,
porém venero os velhos ancestrais.
E se o futuro nas folhas do chá for ruim,
fecho o tempo e caem os temporais
que Lig Lig Lé abomina.
Eu gosto das flores da China.
Me fascina o seu vermelho.
Lig Lig Lé, vem comigo
invadir o Ocidente.
Lig Lig Lé, vem comigo
fritar macarrão.
Lig Lig Lé, vem comigo,
me ajuda a mexer os pauzinhos.
Lig Lig Lé, não liga
pros meus temporais.
O raio e o trovão
são apenas efeitos especiais.
Quando ela se engasgava, se traía
e a fúria abandonava seu quartel.
E se espalhava, impetrava, se expandia,
pulava a muralha da China,
queimava dragões de papel.
Eu não ligo pra Mandarins,
porém venero os velhos ancestrais.
E se o futuro nas folhas do chá for ruim,
fecho o tempo e caem os temporais
que Lig Lig Lé abomina.
Eu gosto das flores da China.
Me fascina o seu vermelho.
Lig Lig Lé, vem comigo
invadir o Ocidente.
Lig Lig Lé, vem comigo
fritar macarrão.
Lig Lig Lé, vem comigo,
me ajuda a mexer os pauzinhos.
Lig Lig Lé, não liga
pros meus temporais.
O raio e o trovão
são apenas efeitos especiais.
domingo, 5 de agosto de 2001
Aaaahhhhh..sou EU!!
Divina, divinésima estou me sentindo, sendo a primeira entrevistada do Repórter Mosca!
Saí na edição de Domingo, na íntegra!
Eu sabia, sabia que ainda teria os meus quinze minutos de fama.
Thanks, Mosca! Much too kind of you...
Divina, divinésima estou me sentindo, sendo a primeira entrevistada do Repórter Mosca!
Saí na edição de Domingo, na íntegra!
Eu sabia, sabia que ainda teria os meus quinze minutos de fama.
Thanks, Mosca! Much too kind of you...
segunda-feira, 30 de julho de 2001
Com licença poética
Adélia Prado
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade da alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Adélia Prado
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade da alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
- Que é que tu tá falando, ô meu filho?
- Slow down.
- Que diabos,...ops (perdão).
- I know you ment it. Be cool.
- Fico aqui pensando porque é que tu nunca fala na língua certa.
- Cause love is such an old-fashioned word and love dares you to...
- Apelou! Fuck you!
- I bet you knew the lyrics by heart. Hahahahaha!
E esse réquiem tem letra?
quinta-feira, 26 de julho de 2001
Tan, tan.. tan-tan-tan-tan-tan- tan, tan....
tan-tan-tan-tan-tan- tan, tan....
tan-tan-tan-tan-tan..TAN!
Todo mundo lembra da abertura da Jeannie é um Gênio, né?
Aquela mulher tinha que ser Barbara....tem o paraíso no nome!
Eu até que gostava da Samantha. Mas aquele "pirulirulim!" que acompanhava as tremidinhas do nariz dela nunca me convenceu.
O melhor naquele seriado era a Endora, que usava sombra verde e delineador carregadésimo nos olhos.
Bruxona porreta.
tan-tan-tan-tan-tan- tan, tan....
tan-tan-tan-tan-tan..TAN!
Todo mundo lembra da abertura da Jeannie é um Gênio, né?
Aquela mulher tinha que ser Barbara....tem o paraíso no nome!
Eu até que gostava da Samantha. Mas aquele "pirulirulim!" que acompanhava as tremidinhas do nariz dela nunca me convenceu.
O melhor naquele seriado era a Endora, que usava sombra verde e delineador carregadésimo nos olhos.
Bruxona porreta.
- ???
- Ouviu? O espanador. Como é que você deixa isso ficar desse jeito? Tem poeira, teia de aranha...
- Hehehe. Teia de aranha é de se esperar. Faz tempo que não apareço aqui.
- Você devia ser mais cuidadosa com suas coisas. Ninguém progride na vida, desse jeito.
- Ok, só que este é um espaço virtual, não é uma coisa. Vá fazer o seu serviço. Aliás, quem é você pra me dar ordens?
- Se é seu, você tem que cuidar. Releia o Pequeno Príncipe, minha filha. Vai lhe fazer bem. E passe mais tempo conversando com sua avó. Ela vai lhe ajudar a lembrar o que são capricho e boas maneiras. Sou a Lua em Capricórnio. Entendeu bem?
- Sim senhora. Entendi. Desculpe o tom.
- A vida é assim...eu devo merecer sua ingratidão.
- Caceta!!! Foi mal...
- Olha os modos!!!
domingo, 15 de julho de 2001
sábado, 14 de julho de 2001
No Grande Theatro de Fusili,
todo mundo desempenha um papel.
Todo mundo faz Fusili rir.
Fazemos graça para uma platéia invisível
que nos aplaude enquanto somos patéticos.
Na verdade, depois de bem pouco tempo
de espetáculo em cartaz,
passamos as tardes de folga cerzindo as cortinas
que escondem o tablado.
todo mundo desempenha um papel.
Todo mundo faz Fusili rir.
Fazemos graça para uma platéia invisível
que nos aplaude enquanto somos patéticos.
Na verdade, depois de bem pouco tempo
de espetáculo em cartaz,
passamos as tardes de folga cerzindo as cortinas
que escondem o tablado.
quinta-feira, 12 de julho de 2001
- Senhora Vênus....
- Hein?
- Como é que você foi parar em Aquário?
- Sei lá, escorreguei.
- Ok. A senhora poderia assim....tirar umas férias...em Capricórnio?
- Sem chance. Tem muita gente lá. Preciso de ar.
- Mas, uma vez lá, a senhora não vai se importar com as companhias...
- Hã, hã. Não vou. Vou gastar o seu dinheiro um pouco, porque você anda muito pastel. Vá comprar uns badulaques novos. Vem cá, por que vc não faz uns reflexos vermelhos no cabelo? Ia ficar interessante.
- Eu estou falando sério.
- Esse é o seu problema. Não estou ouvindo, não percebeu?
(ela põe os dedos nos ouvidos e fica cantarolando).
- Hein?
- Como é que você foi parar em Aquário?
- Sei lá, escorreguei.
- Ok. A senhora poderia assim....tirar umas férias...em Capricórnio?
- Sem chance. Tem muita gente lá. Preciso de ar.
- Mas, uma vez lá, a senhora não vai se importar com as companhias...
- Hã, hã. Não vou. Vou gastar o seu dinheiro um pouco, porque você anda muito pastel. Vá comprar uns badulaques novos. Vem cá, por que vc não faz uns reflexos vermelhos no cabelo? Ia ficar interessante.
- Eu estou falando sério.
- Esse é o seu problema. Não estou ouvindo, não percebeu?
(ela põe os dedos nos ouvidos e fica cantarolando).
quarta-feira, 11 de julho de 2001
Recado do Hans:
*saudade*, no visor do celular.
Meu precioso amigo me ajudou a descobrir o Renato Russo numa hora em que eu queria morrer - ou matar alguém, sei lá.
"O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido, ninguém prometeu".
Não é que é mesmo?
Custou pra cair a ficha, mas anos depois ninguém precisa cantar pra me lembrar:
"nem foi tempo perdido."
Hans é sabido. E querido. Como a maioria dos cachorros vadios que eu conheço.
É gente da minha espécie. Morre, não deita e renasce - três vezes por dia.
*saudade*, no visor do celular.
Meu precioso amigo me ajudou a descobrir o Renato Russo numa hora em que eu queria morrer - ou matar alguém, sei lá.
"O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido, ninguém prometeu".
Não é que é mesmo?
Custou pra cair a ficha, mas anos depois ninguém precisa cantar pra me lembrar:
"nem foi tempo perdido."
Hans é sabido. E querido. Como a maioria dos cachorros vadios que eu conheço.
É gente da minha espécie. Morre, não deita e renasce - três vezes por dia.
domingo, 8 de julho de 2001
terça-feira, 3 de julho de 2001
quinta-feira, 28 de junho de 2001
Over
A cara pra lá
A cara pra cá
Tapa pra lá
Tapa pra cá.
Terror de saber do mundo.
Deixe-me de fora
E deixe-me ir mais alto,
Além das ruas,
Ciscar em outra vizinhança.
As pessoas caminham,
Os bebês engatinham.
Eu não faço uma coisa nem outra.
Eu sento em cima do muro,
Cato cacos de sanidade
E dou risada das cafonices.
A cara pra lá
A cara pra cá
Tapa pra lá
Tapa pra cá.
Terror de saber do mundo.
Deixe-me de fora
E deixe-me ir mais alto,
Além das ruas,
Ciscar em outra vizinhança.
As pessoas caminham,
Os bebês engatinham.
Eu não faço uma coisa nem outra.
Eu sento em cima do muro,
Cato cacos de sanidade
E dou risada das cafonices.
Eu tenho uma response abilidade.
Glória aos céus.
Que seria de mim sem esse talento?
Eterna vítima? A pior carrasca?
Sai de mim.
O único sacrifício que me permito de hoje em diante é ficar hanging around até perder a cabeça.
Matando os micróbios e os vermezinhos verdes de pensamentos inúteis com Tequila -
que é santa e purifica tudo.
No mais: que minha response me habilite.
Glória aos céus.
Que seria de mim sem esse talento?
Eterna vítima? A pior carrasca?
Sai de mim.
O único sacrifício que me permito de hoje em diante é ficar hanging around até perder a cabeça.
Matando os micróbios e os vermezinhos verdes de pensamentos inúteis com Tequila -
que é santa e purifica tudo.
No mais: que minha response me habilite.
segunda-feira, 18 de junho de 2001
Eu gosto de soprar folhinhas no jardim do Mestre, deitada no chão.
Também gosto de pendurar um balangandã barulhento no meu tornozelo e dançar por deleite.
Gosto de juntar amoras numa caneca de alumínio e me divertir com o espirro do seu suco quando a gente aperta a frutinha entre a língua e o céu da boca.
Gosto de luz e de casas amarelas.
Gosto de gente que se sacode quando ri.
Gosto de café quente e doce, com pão dormido.
Gosto de viajar à noite e de chegar onde haja cama fresca e lençol recém-lavado.
Gosto de saquinhos de anil, vaga-lumes, banho de mangueira, mar calmo, cheiro de hortelã.
Hummm...
Nostalgia.
Também gosto de pendurar um balangandã barulhento no meu tornozelo e dançar por deleite.
Gosto de juntar amoras numa caneca de alumínio e me divertir com o espirro do seu suco quando a gente aperta a frutinha entre a língua e o céu da boca.
Gosto de luz e de casas amarelas.
Gosto de gente que se sacode quando ri.
Gosto de café quente e doce, com pão dormido.
Gosto de viajar à noite e de chegar onde haja cama fresca e lençol recém-lavado.
Gosto de saquinhos de anil, vaga-lumes, banho de mangueira, mar calmo, cheiro de hortelã.
Hummm...
Nostalgia.
domingo, 17 de junho de 2001
sábado, 16 de junho de 2001
sexta-feira, 15 de junho de 2001
quinta-feira, 14 de junho de 2001
segunda-feira, 11 de junho de 2001
sexta-feira, 1 de junho de 2001
Minha gata entrou no cio.
Me rouba o sono com miados.
Tenho pena da bichana,
nem ela sabe o que ocorre:
é criança, ainda.
Não sei se devo convocar
o gato da vizinha.
Ele até que é bonitão,
mas fica meio abestalhado
perto da vira-lata preta safa.
Era capaz dela dar uma surra no Mimi da velhinha do 502.
Deixa o gato quieto, por hora.
Me rouba o sono com miados.
Tenho pena da bichana,
nem ela sabe o que ocorre:
é criança, ainda.
Não sei se devo convocar
o gato da vizinha.
Ele até que é bonitão,
mas fica meio abestalhado
perto da vira-lata preta safa.
Era capaz dela dar uma surra no Mimi da velhinha do 502.
Deixa o gato quieto, por hora.
E-logica é co-logica
Só quero ficar nua na rede que balança,
pegar um vento nas partes.
Me enroscar na varanda de barbantes
e tramar com meus pêlos essa teia.
Fora dali, enrubesço.
Não é em qualquer rede que me dispo.
Nem é em qualquer web que me disponho
aranha.
Pequititinha. Venenosa.
Sai, chinelo!
Gargalhadas!
Só quero ficar nua na rede que balança,
pegar um vento nas partes.
Me enroscar na varanda de barbantes
e tramar com meus pêlos essa teia.
Fora dali, enrubesço.
Não é em qualquer rede que me dispo.
Nem é em qualquer web que me disponho
aranha.
Pequititinha. Venenosa.
Sai, chinelo!
Gargalhadas!
quinta-feira, 31 de maio de 2001
Rosário Café
Aprendi o que é sorte
quando vi o baleiro rodar.
De pé,
no balcão do café,
entre a mão que debocha
e a que me segura no ar.
As mãos vão embora,
acenam de longe
ou são incineradas.
Que triste essa perspectiva!
Confio na sorte
que traz grandes amores.
Assim como o baleiro gira
e o colorido das balas confunde os olhos da criança,
Também o mundo gira
E minha cabeça roda.
Descubro que o colorido continua,
no caleidoscópio.
Sem as mãos ancestrais no amparo
não me arrisco mais em vertigens.
Aprendi o que é sorte
quando vi o baleiro rodar.
De pé,
no balcão do café,
entre a mão que debocha
e a que me segura no ar.
As mãos vão embora,
acenam de longe
ou são incineradas.
Que triste essa perspectiva!
Confio na sorte
que traz grandes amores.
Assim como o baleiro gira
e o colorido das balas confunde os olhos da criança,
Também o mundo gira
E minha cabeça roda.
Descubro que o colorido continua,
no caleidoscópio.
Sem as mãos ancestrais no amparo
não me arrisco mais em vertigens.
Às vezes eu me sinto mergulhada até o pescoço na caldeirinha do diabo.
Não tenho medo de falar o nome do dito cujo (Salve, São Miguel) porque se é verdade que ele mora nos detalhes, temos nos relacionado relativamente bem. Não encrenco com detalhes, ele não encrenca comigo.
Me assusta até, essa pressa. A velocidade que imprimo às coisas e a velocidade com que as coisas se imprimem em mim é a minha medida do possível.
Delicioso, assim. Não perco nada com interpretações do real.
Só me incomodo um pouco comigo mesma quando fico chafurdando numa montanha de "queros" e não saio do lugar.
O resto é bobagem. Com o que mais me incomodaria, além dos meus quereres que me levam ao movimento ou à estagnação?
Às vezes eu penso que me desperdiço.
Não tenho medo de falar o nome do dito cujo (Salve, São Miguel) porque se é verdade que ele mora nos detalhes, temos nos relacionado relativamente bem. Não encrenco com detalhes, ele não encrenca comigo.
Me assusta até, essa pressa. A velocidade que imprimo às coisas e a velocidade com que as coisas se imprimem em mim é a minha medida do possível.
Delicioso, assim. Não perco nada com interpretações do real.
Só me incomodo um pouco comigo mesma quando fico chafurdando numa montanha de "queros" e não saio do lugar.
O resto é bobagem. Com o que mais me incomodaria, além dos meus quereres que me levam ao movimento ou à estagnação?
Às vezes eu penso que me desperdiço.
domingo, 13 de maio de 2001
segunda-feira, 7 de maio de 2001
sábado, 5 de maio de 2001
Pessoas felizes são assim: se regozijam com uma máquina de lavar nova, um edredom, um telefonema, um sábado chuvoso, ovo de páscoa na geladeira, uma minissaia velha que entra de novo, uma filha que aprendeu a ler sozinha, guaraná diet, jogo da memória, paz.
Tudo meio comum, meio fora-de-moda, meio sem glamour.
Mas gostoso e meu.
"Cantemos a canção da vida
na própria luz consumida."
Mário Quintana
São presentes preciosos, os que recebo. Mesmo os ausentes.
Tudo meio comum, meio fora-de-moda, meio sem glamour.
Mas gostoso e meu.
"Cantemos a canção da vida
na própria luz consumida."
Mário Quintana
São presentes preciosos, os que recebo. Mesmo os ausentes.
quarta-feira, 2 de maio de 2001
The Road Not Taken
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that, the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I marked the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I,
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Amo Robert Frost.
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that, the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I marked the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I,
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Amo Robert Frost.
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