quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sintaxe


Minhas mãos em comixões dizem que tenho escrito pouco - o que seria fruto de uma escuta desatenta ao que realmente importa. Não sei se concordo com minhas mãos. Não quero concordar com elas. Justifico-me dizendo que tenho escrito com o pensamento, em janelas e espelhos: tenho deixado marcas em vidraças de cristaleiras, meus dedos marcando o vapor. Justifico-me dizendo que minha palavra, vou deixando nos interstícios da racionalidade que me aprisiona. Por isso, cozinho. Recheio de significados massas doces que deleitam a boca dos que amo e lhes alimentam a alma. Por isso, cozinho silente - derramando significados em caldas. Depois, prometo a mim mesma mudar. Prometo a mim mesma registros da poesia que me trespassa 24 horas por dia. Faço promessas de visibilidade, de ordem no tempo do desejo, de assinaturas. Não sei se posso cumpri-las, mas as renovo a cada fim de ano. Eventualmente, desço sobre papeis e telas o que sei desde sempre - só pra deixar papeis e telas esquecidos e semi-escondidos, aparentemente abandonados, prontos para um escavador de um tempo futuro que dedique-se a descobrir retalhos de mulheres que passaram. Eventualmente, paro e confesso - mas é tudo tão rápido, tão volátil, sem contrição. Eventualmente, tomo coragem e apaziguo o comixão das mãos.

domingo, 5 de fevereiro de 2012


No céu africano o que se lê é graça.
Rosa amarela, terra salgada
o coração do mundo é negro pulsante.
No riso branco e fácil o que se lê é graça.
Olho amarelo, olho d'água em dádiva incessante
o coração do mundo pulsa aqui, felino e dançante.
A força espalmada, a dor retumbante,
Soweto ri.
No céu africano ninguém parte ou vai embora.
Rosa arrancada, terra doce,
o coração do mundo é negro espalhado.
No mundo todo, a dor da África chora
e a graça sorri, à espera do amor do tempo
que cura saudade e fome.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Daí, um dia, a nega ressuscitou. Ela tinha morrido fazia um tempo, daquelas mortes meio idiotas, que deixou a nega com cruzinhas nos olhos e paradona, estatelada numa pose ridícula. Fazer o que...essas coisas não se escolhe.

Então chegou o tal dia. Tocou um sininho na cabeça dela e pimba! A nega sacolejou uma perna, ensaiou de abrir um olho, fez um tremilique com o lábio superior e não resistiu: caiu numa gargalhada de dar tosse, uma gargalhada pós-moderna, coquelúchica. Aquela gargalhada espanou o que ainda podia ter restado de morte na nega e ela se levantou, empinada como nunca. Ai, que trabalho...ai que trabalho isso vai me dar, explicar pro povo todo onde é que passei a morte. Falo não. Quem quiser saber, que morra. Dá licença, moço, que eu pego aquele trem ali e se não for agora perco o mês, a folhinha inteira, a estação.

Não se pode deixar de admitir que nega andou esquisita depois de voltar do lado de lá. Perdeu um pouco do...digamos assim...fairplay. Deu pra peitar maluco quando não precisava, ria menos, teve crise de rins. Mas pra sacudir as ancas e bater em couro de gato, continuava sendo ela e mais ninguém. De chicotinho de tamborim na mão, a nega era só terecoteco. Entrevistada no O Batuque, confessou: aos quarenta e poucos, bato mais que aos vinte. Pura verdade.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010


O email avisa: Você está passando por um novo trânsito astrológico.
Eu sei.
Minha lua pegou fogo. Torrada, cheia, nigérrima e estalando - quase vira Lilith.
Uma língua candente se move sem parar sobre meu Mercúrio e provoca coisas. Labaredas translúcidas azuladas não refletem nada e me obrigam a trocar vogais por consoantes. O céu, infinito, me engole e me cospe ininterruptamente. Não há lugar para mim nem no mais largo dos buracos negros.
Um Marte bem patife me azucrina e me convence a ir para a Lituânia.
Vênus se exime de palpites - nada muito arriscado, por hora. Cantarolando, espera por Paris em outubro.
Um trânsito passa por mim - e me dou conta de que sempre tenho um plano B, que não está no mapa.
Milhas e milhas de cartografias errantes me deixam sair de férias.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

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Wisława Szymborska

I’m a tranquilizer.
I’m effective at home.
I work in the office.
I can take exams
on the witness stand.
I mend broken cups with care.
All you have to do is take me,
let me melt beneath your tongue,
just gulp me
with a glass of water.

I know how to handle misfortune,
how to take bad news.
I can minimize injustice,
lighten up God’s absence,
or pick the widow’s veil that suits your face.
What are you waiting for—
have faith in my chemical compassion.

You’re still a young man/woman.
It’s not too late to learn how to unwind.
Who said
you have to take it on the chin?

Let me have your abyss.
I’ll cushion it with sleep.
You’ll thank me for giving you
four paws to fall on.

Sell me your soul.
There are no other takers.

There is no other devil anymore.

Traduzido por Stanislaw Baranczak and Clare Cavanagh

segunda-feira, 29 de março de 2010

Receita antiga.

Bolo de avó com creme de manteiga, minha barriga cheia de satisfação, uma felicidade infantil ao tocar os outros com palavras.

Rosquinhas de massa frita numa tarde de inverno, céu cinzento e conforto na paixão que se renova. Tenho sete anéis de diferentes ouros no pescoço.

Morangos e suspiros, creme azedo, colher de prata. Na porta, uma batida alucinante, afobada. A novidade espia pela janelinha de vidro pra ver se tem alguém corajosa nessa casa. Venho abrir a porta de salto alto, com a boca açucarada. Suspiros all around. Eu como o morango feito monge zen.



Receita nova.

Gosto do futuro que me acolhe com elegância. Faz sol - e eu me curvo em agradecimento, sem culpa.

terça-feira, 29 de setembro de 2009


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quinta-feira, 10 de setembro de 2009


Acho que nunca estive tão perdida no meio das palavras. Tenho tanto pra ler, leio, pra em seguida me dar conta de que nessa vida li pouco. Quando me arrisco a escrever, então...aí é que sinto uma solidão absurda, uma falta irremediável das páginas que não li. Em meio a essa angústia, uma coisa me anima: eu li Kafka. Releio Kafka. Me sinto, em muitas situações dessa vida, uma personagem de 'O Processo'. Lembrar disso é um alívio passageiro, um paracetamol cognitivo.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Out of Rio

Uma estrela movediça e crescente no céu azul violeta alaranjado ouro velho
tintas derramadas no adeus do sol
Aeroplano no horizonte
e eu presa na geléia geral plebéia da perimetral.
Em casa, o cartucho preto na impressora me avisa:
cores ao alto.
Deixo as cores pro céu onde a luz plana.
No asfalto niger, buzina, buraco e calombo
dor e medo
me lembram que a terra é redonda
e que não há tombos rumo ao infinito.

segunda-feira, 18 de maio de 2009


É Samedi.
Parece que vim de Salém.
Nas estações dessa semana
vi gente de tanta cor,
na minha cabeça tocava Caetano
com a pergunta que jamais cala em mim:
Eu sou neguinha?
Também.
Sou Suleiman
Em Genebra, primavera, patrícios, kebabs.
Minha cor,
meus aparatos rosa pink
de Victoria Secrets para o eterno Samadhi.
Suleiman sempre neguinha,
fa-ber-glas-ted
com as perguntas perenes
e as respostas coloridas.

Eu vim de além
mar
deserto
cruzada
Sobrevôo a Espanha amarela encantada.
Pra sempre pergunta,
pra sempre tomada
pelo mouro.

segunda-feira, 23 de março de 2009

quarta-feira, 4 de março de 2009

Eu viro criança com uma certa frequência. É um processo simples: entro numa papelaria com pastas coloridas e muitos lápis de cor e pronto. Ou em dia de aniversário (o meu ou o dos outros), quando eu cismo de fazer docinho e confeitar bolo. Me lambuzo. Também viro criança quando discuto com violência, porque elevar meu tom de voz me dá vontade de chorar. Mas uma das coisas que mais provoca a criança em mim são os gatos. Eu amo gatos. Regrido total, converso com eles, sei que sou compreendida e sempre rola uma cumplicidade incrível.

Estas últimas semanas foram marcadas pelos gatos. No campus da universidade eles dominam, dormem em qualquer lugar e sempre tem potes de comida e água espalhados pelos cantos. Na casa do Sandro e da Paia, Frida é uma atração à parte. Linda. Na casa da minha mãe, Zara, a impossível, morre de ciúmes (e de amores) por mim.

Mas o destaque de fevereiro vai para essa mimosa aqui:


Ela dormia no frio absurdo, enquanto o realejo tocava. Não pude me conter, parei ali mesmo e ignorei meu atraso - imperdoável, naquelas bandas. Falei com a gatinha, ela me respondeu, meio acordada, meio cochilando. Trocamos confidências. Colaborei com o senhor que tocava o realejo e fiquei ali, admirando a inocência, derretendo no palato um quadradinho de chocolate e sonhando com um mundo de gatos, lápis coloridos, doces de leite Ninho e velas teimosas em bolos confeitados. Falei baixinho, com voz de gato, ronronei. Lembrei de todos os meus gatos amados - Babushka, Freddie Mercury, Chatô, Shitara, Morena, Tomé, Ray Charles e F.Dona. Praticamente engatinhei de volta pro hotel, querendo com urgência aquecimento e café.

Saudades de casa.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Só pra lembrar:

You don't have to take everything so seriously, Graciela. Reality isn't black and white, answers don't have to be yes or no, and absolutely nothing has to happen today. Act when you're ready. Be led by your feelings. And the next time someone wants to fit you into a mold, just tell 'em that your jeans are in the wash, your angel's at the mall, and Oprah's on the other line.

Fuzzy as dice -
The Universe

You're a spiritual being, Graciela, on an eternal quest [grifo meu], in a love-adventure you get to design. Do it your way.
India in bits and pieces...

A Índia só tem duas partes: a chegada e a partida. Ainda me recupero da segunda - há três dias descompensada, como e enjôo, durmo antes das 7 da noite e ao longo do dia bamboleio, pensando em quando vou voltar lá novamente...se é que vou.



Eu vou, sim. É instigante esse lugar onde me sinto, ao mesmo tempo, em casa e em outro planeta (como se fôssem coisas diferentes :-)).

Mais complicado são os sentimentos alternados: empatia e aversão, reconhecimento e medo, amor e ojeriza. Porque não há meio termo ali, para mim. Não sou turista. Não consigo ser turista dentro de um rickshaw, no meio da poeira, das ruas sem mão e contra-mão, das mulheres te agarrando com uma mão e segurando crianças desnutridas com a outra, dos velhos desdentados que abrem bem a boca pra mostrar o tamanho da fome, das centenas de cabritos pintados no lombo que serão sacrificados no dia seguinte.



Na volta da Índia, Amsterdam e Paris. Tudo normal, o Natal vai ser lindo, cintilante.

Os cheiros da Índia sempre estarão em mim.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008



Estou amando Hyderabad.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Vi essa imagem em frente ao Pinel, no muro do Rocha Maia.
Grande verdade.
Você já teve sua privacidade invadida? Eu já.
É uma enorme violência. E, como em outras violências, nos crimes de invasão de privacidade muitas vezes a vítima acaba acusada, e o criminoso impune - quase um justiceiro.

Mas como tudo na vida tem um lado bom, tirei disso uma lição, um projeto de mestrado, muito gosto por Foucault e um 9,5 na ECO.

Na continuidade, talvez eu decida fazer formação psicanalítica.

sábado, 1 de novembro de 2008

Meu irmão é um cara classudo. Chique, mesmo. Foi pra Nova Iorque fazer palestra no FMI. Voltou de lá com um presente que é a minha cara. Um Moleskine.



Lindinho, um clássico. Está guardado, esperando pelo meu dezembro em Bangalore e Hyderabad. Vai voltar colorido, eu acho.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Dia das Bruxas

quarta-feira, 8 de outubro de 2008


Muitas das coisas importantes - das mais importantes - que aprendi na vida, aprendi com a minha avó.
Ela me ensinou a dar nó na linha do bordado.
A fazer o arremate.
Me ensinou que o bordado perfeito tem um avesso bonito.
Ainda não consigo por em prática essa última lição.
Sei fazer nós e arremates,
mas meu avesso é cheio de erros.
Por pressa, deixo buracos, eu pulo pontos e às vezes, negligente,
largo restos de fios, linhas soltas, em trechos onde poderia haver outros finais.
Deixo emaranhados.
Sei que eles estão lá, mas me falta a sabedoria para voltar atrás,
desfazer pontos e cerzir de um jeito mais bonito.
O tempo urge, me ilude, e assim vou postergando o capricho do avesso.
Esse tempo - tão meu amigo e tão cruel.
Quero parar o tempo pra alinhavar um declaração de amor por ela.
Mas a linha continua, a linha do tempo - cretina - não me deixa assumir essa tessitura da despedida.
A linha vai, entra e sai dos meus tecidos enquanto ela também se vai,
calada como nunca.
Eu queria poder sentar ao lado dela e pedir que não fôsse - que voltasse atrás,
que me ensinasse tudo de novo, porque eu não aprendi nada.
Também queria pedir que ela fôsse, porque sei que a bordadura não tem fim e ela tem mãos habilidosas.
Eu queria saber fazer um avesso bonito.

sábado, 23 de agosto de 2008

Serviço

Tem coisas que servem melhor para outras coisas
do que para serem o que são.
Mercúrios com quírons desmanchados em dores
servem de bússola para o Norte sideral
do auto-perdão.
Laranjas espremidas transformadas em bolo
servem de presente de manhãs de domingo
aos ausentes, às lembranças macias,
aos pais.
Drogas lícitas de três em três horas
servem de cuco a um relógio interno parado
que perdeu a hora do descanso
e inflamou.
Pesadelos escorregados da cama antes das seis
servem de justificativa para um café temporão
que silencia a tagarelice da mente
ávida de porquês.
Palavras servem de trampolim.
Filosofia serve de band-aid.
Espelhos servem de linha de fuga.
Eu olho e vejo.