Inspirou profundamente pela narina direita. Contou até oito e expirou lentamente pela esquerda. A posição era de lótus, e as mãos dispostas da maneira correta para ativar shakti.
Meia hora nessa brincadeira. Quando estava quase desistindo de qualquer elevação, abriu-se um pop up em sua tela mental. Uma mensagem do alto. Baixou um arquivo do seu registro akáshico. A mensagem brilhou à sua frente:
A ingnorança é que atravanca o pogresso.
Pode crer. Nós, o povo das estrelas, sabemos mesmo das coisas!!!
Disse tudo.
terça-feira, 22 de janeiro de 2002
quinta-feira, 3 de janeiro de 2002
sábado, 29 de dezembro de 2001
No ano que entra
eu quero fazer uma conta não muito exata.
Pretendo ir além da conta.
Olhar mais pra longe, para o próximo distante,
empunhar cordas e picaretas pra sair deste buraco
que é o meu umbigo (ouvi dizer que é logo ali,
entre as duas colinas ao Norte, que mora o Sol).
Também quero rir mais.
Fazer exercícios de língua pra não falar bobagem,
Andar de conversível pra encher a boca de vento.
Quiçá, usar as pontas dos dedos para somar e dividir,
de maneira que meu restante não sobre.
eu quero fazer uma conta não muito exata.
Pretendo ir além da conta.
Olhar mais pra longe, para o próximo distante,
empunhar cordas e picaretas pra sair deste buraco
que é o meu umbigo (ouvi dizer que é logo ali,
entre as duas colinas ao Norte, que mora o Sol).
Também quero rir mais.
Fazer exercícios de língua pra não falar bobagem,
Andar de conversível pra encher a boca de vento.
Quiçá, usar as pontas dos dedos para somar e dividir,
de maneira que meu restante não sobre.
terça-feira, 18 de dezembro de 2001
Dias estranhos, esses.
Há que se falar, há que se escrever -
o risco do silêncio é o ostracismo.
Não se manifestar sobre o que quer que seja pode ser a morte virtual.
O silente vira o ex, vira o outro - quiçá, um terrorista.
O compromisso é com o verbo, mesmo que sem princípio.
Strange days, indeed.
Não há lugar para o espaço entre dois pensamentos.
Isso me apavora. Não quero ser escrava da instantaneidade.
Vou continuar cedendo aos amplos vazios e à quietude sem reticências.
Há que se falar, há que se escrever -
o risco do silêncio é o ostracismo.
Não se manifestar sobre o que quer que seja pode ser a morte virtual.
O silente vira o ex, vira o outro - quiçá, um terrorista.
O compromisso é com o verbo, mesmo que sem princípio.
Strange days, indeed.
Não há lugar para o espaço entre dois pensamentos.
Isso me apavora. Não quero ser escrava da instantaneidade.
Vou continuar cedendo aos amplos vazios e à quietude sem reticências.
sexta-feira, 19 de outubro de 2001
Getting in the mood...só quero ouvir esses caras.
Silver
Swung from a chandelier
My planet sweet on a silver salver
Bailed out my worst fears
'Cause man has to be his own saviour
Blind sailors
Imprisoned jailers
God tame us
No one to blame us
The sky is blue
My hands untied
A world that's true
Through our clean eyes
Just look at you
With burning lips
You're living proof
At my fingertips
Walked on a tidal wave
Laughed in the face of a brand new day
Food for survival thought
Mapped out the place where I planned to stay
All the way
Well behaved
Just in case
It slips away
The sky is blue
My hands untied
A world that's true
Through our clean eyes
Just look at you
With burning lips
You're living proof
At my fingertips
Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips
Silver
Swung from a chandelier
My planet sweet on a silver salver
Bailed out my worst fears
'Cause man has to be his own saviour
Blind sailors
Imprisoned jailers
God tame us
No one to blame us
The sky is blue
My hands untied
A world that's true
Through our clean eyes
Just look at you
With burning lips
You're living proof
At my fingertips
Walked on a tidal wave
Laughed in the face of a brand new day
Food for survival thought
Mapped out the place where I planned to stay
All the way
Well behaved
Just in case
It slips away
The sky is blue
My hands untied
A world that's true
Through our clean eyes
Just look at you
With burning lips
You're living proof
At my fingertips
Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips
terça-feira, 16 de outubro de 2001
"Desejo", do latim de-sid-erio , provém da raiz
"sid" , da língua Zenda, significando ESTRELA, como se vê em sideral -
relativo às estrelas.
Seguir o desejo é seguir a estrela - estar
orientado, saber para onde se vai, conhecer a direção...
Recebi um texto do José Angelo Gaiarsa, na Lista Artemis, de onde recortei o
trecho acima...
Meu nome é desejo!
Carácoles...
"sid" , da língua Zenda, significando ESTRELA, como se vê em sideral -
relativo às estrelas.
Seguir o desejo é seguir a estrela - estar
orientado, saber para onde se vai, conhecer a direção...
Recebi um texto do José Angelo Gaiarsa, na Lista Artemis, de onde recortei o
trecho acima...
Meu nome é desejo!
Carácoles...
Transgressão
Se eu encho a boca de amoras,
meu pai vem e me pega manchada.
Vai me olhar durante horas
e me deixar encabulada.
Mas de amora eu gosto tanto,
elas me dão muito prazer...
Então, depois de curto pranto,
mais amoras vou comer.
.......................................
Onde andará meu Saturno?
Se eu encho a boca de amoras,
meu pai vem e me pega manchada.
Vai me olhar durante horas
e me deixar encabulada.
Mas de amora eu gosto tanto,
elas me dão muito prazer...
Então, depois de curto pranto,
mais amoras vou comer.
.......................................
Onde andará meu Saturno?
domingo, 14 de outubro de 2001
quarta-feira, 10 de outubro de 2001
Oh yeah, all right, funky boogie...
Eu estava me divertindo vendo o bartender cortar em oito gomos um limão pra logo em seguida enfiar um deles gargalo adentro na minha garrafa de Sol (Solllll, que ahora yo hablo español) quando uma senhora gorda me esbarrou no cotovelo.
Não sou de reclamar dessas coisas, mas confesso que na hora lancei um olhar impertinente, coisa que fiz sem me dar conta, pra variar. Causou espanto o arrojo da gordota. Cabelos brancos esticados pra trás com gel, sombra cintilante, glitter nas bochechas e um vestido azul celeste de musseline, como eu não via desde as festas de debut das minhas primas (oh!).
Acho que meu olhar passou de impertinente a divertido, mas a senhorinha não se abalou. Foi servida de kir royal, segurou firme no canudinho, deu duas cutucadas na cereja no fundo do copo e soltou a bomba.
- Tá difícil de pedir, né?
- O garçon demorou pra lhe atender? É que ele dá prioridade pras loiras...hehehehe...
- Não estou falando dele, meu bem. Estou falando de você.
Sorri. Tadinha.
- Desculpe, não entendi. De mim?
- É. Faz tempo que você não pede nada.
- Como assim? Pedir o que? Pra quem?
- Pra mim que não ia ser, você nunca levou fé na minha figura, mesmo. Mas podia pedir pra os anjos, pro Universo, pro ...pro barbudo, aquele.
- Ficou sério. Não fala assim dele. Dá pra senhora explicar melhor o assunto? Pera só um minutinho...Moço, outra Sol.
- Sou sua fada-madrinha, babe. A coisa tá feia. Você não pede nada. Orgulhosa, distraída, tá demais. Minha varinha criou teia de aranha, eu estou frustrada, trabalhar com você é fácil, mas eu gosto de desafios, quero feedback, só o salário não conta, se é que você entende.
- Sei...salário, é? De quanto?
- Não interessa. Eu quero é botar a mão na massa, Tipiti, tipiti, puff! Rodar a saia, fazer volteio com a varinha, espalhar pózinho nacarado. Dá pra esboçar um desejo, desses, bem objetivos e impactantes?
- Opa! Pode parar...a senhora está enganada, ou já não ouve direito. Eu vivo querendo coisas, não venha com essa de que a culpa é minha se a senhora não trabalha.
- Querer não é desejar, honey. Muito menos pedir. Pensei que você já soubesse a diferença, depois de tanto ler a Rubedo.
- Esqueci dessas coisas...foi uma fase, faz tempo que não penso nisso...desejo, vontade...necessidade...sabe que a senhora tem razão?
- Pois é. Naquela época, eu ainda me coçava. Agora, nem isso! Você quer fazer tudo, não me dá a deixa, eu tô no escanteio e nada de bola!
- Que mal! Mas tem muita coisa que eu desejo!! É só parar pra pensar. Posso pedir a primeira?
- Por favor. Eu sou workaholic.
You’re just too good to be true...
E o Celebrare entrou no palco enquanto eu tinha meus desejos realizados.
Eu estava me divertindo vendo o bartender cortar em oito gomos um limão pra logo em seguida enfiar um deles gargalo adentro na minha garrafa de Sol (Solllll, que ahora yo hablo español) quando uma senhora gorda me esbarrou no cotovelo.
Não sou de reclamar dessas coisas, mas confesso que na hora lancei um olhar impertinente, coisa que fiz sem me dar conta, pra variar. Causou espanto o arrojo da gordota. Cabelos brancos esticados pra trás com gel, sombra cintilante, glitter nas bochechas e um vestido azul celeste de musseline, como eu não via desde as festas de debut das minhas primas (oh!).
Acho que meu olhar passou de impertinente a divertido, mas a senhorinha não se abalou. Foi servida de kir royal, segurou firme no canudinho, deu duas cutucadas na cereja no fundo do copo e soltou a bomba.
- Tá difícil de pedir, né?
- O garçon demorou pra lhe atender? É que ele dá prioridade pras loiras...hehehehe...
- Não estou falando dele, meu bem. Estou falando de você.
Sorri. Tadinha.
- Desculpe, não entendi. De mim?
- É. Faz tempo que você não pede nada.
- Como assim? Pedir o que? Pra quem?
- Pra mim que não ia ser, você nunca levou fé na minha figura, mesmo. Mas podia pedir pra os anjos, pro Universo, pro ...pro barbudo, aquele.
- Ficou sério. Não fala assim dele. Dá pra senhora explicar melhor o assunto? Pera só um minutinho...Moço, outra Sol.
- Sou sua fada-madrinha, babe. A coisa tá feia. Você não pede nada. Orgulhosa, distraída, tá demais. Minha varinha criou teia de aranha, eu estou frustrada, trabalhar com você é fácil, mas eu gosto de desafios, quero feedback, só o salário não conta, se é que você entende.
- Sei...salário, é? De quanto?
- Não interessa. Eu quero é botar a mão na massa, Tipiti, tipiti, puff! Rodar a saia, fazer volteio com a varinha, espalhar pózinho nacarado. Dá pra esboçar um desejo, desses, bem objetivos e impactantes?
- Opa! Pode parar...a senhora está enganada, ou já não ouve direito. Eu vivo querendo coisas, não venha com essa de que a culpa é minha se a senhora não trabalha.
- Querer não é desejar, honey. Muito menos pedir. Pensei que você já soubesse a diferença, depois de tanto ler a Rubedo.
- Esqueci dessas coisas...foi uma fase, faz tempo que não penso nisso...desejo, vontade...necessidade...sabe que a senhora tem razão?
- Pois é. Naquela época, eu ainda me coçava. Agora, nem isso! Você quer fazer tudo, não me dá a deixa, eu tô no escanteio e nada de bola!
- Que mal! Mas tem muita coisa que eu desejo!! É só parar pra pensar. Posso pedir a primeira?
- Por favor. Eu sou workaholic.
You’re just too good to be true...
E o Celebrare entrou no palco enquanto eu tinha meus desejos realizados.
sábado, 29 de setembro de 2001
Há pessoas cuja alma não aceita ser engaiolada.
Há outras, como eu, que amarram as asas da alma,
violentam-na para dentro das grades e mantêm-se vigilantes
à porta da gaiola - aberta.
Fingem viver no mundo da normalidade, mas morrem de pavor de uma vingança alada.
.................................................................
A RESPIRAÇÃO DAS PALAVRAS
**Dos Fundamentos dos Pássaros**
O pássaro é denso mas crispado e tem angústias, medos. Aprendeu a sabedoria de pôr-se a jusante das alamedas e do turvo chão, testemunha das planuras , pouquidões humanas.
Há pássaros óbvios. Outros habitam o peito dos mares e aí parecem-se a peixes e a algas que erram. Os pássaros não deixam tocar-se porque são nus e anunciadores. Raro desfazerem-se das sedas de que são articulados: ponto a ponto. Os pássaros são orgíacos, substantivos, a despeito de seu desarvoramento.
Pássaros são feitos de gritos monossilábicos e pulsam pautados: cascos partindo-se no ar. São o silêncio das claras de ovo, o modo de ser da marcha resolvida dos alados.
Os pássaros expõem-se denodados mas de perfil. Irrompem nas desferidas asas ou as colam ao corpo - depositário das deliberações que exacerbam os arcos, que se dão sempre e quebram-se.
por Maria Elisa Guimarães® (Meg)
(que tem a alma livre)
Há outras, como eu, que amarram as asas da alma,
violentam-na para dentro das grades e mantêm-se vigilantes
à porta da gaiola - aberta.
Fingem viver no mundo da normalidade, mas morrem de pavor de uma vingança alada.
.................................................................
A RESPIRAÇÃO DAS PALAVRAS
**Dos Fundamentos dos Pássaros**
O pássaro é denso mas crispado e tem angústias, medos. Aprendeu a sabedoria de pôr-se a jusante das alamedas e do turvo chão, testemunha das planuras , pouquidões humanas.
Há pássaros óbvios. Outros habitam o peito dos mares e aí parecem-se a peixes e a algas que erram. Os pássaros não deixam tocar-se porque são nus e anunciadores. Raro desfazerem-se das sedas de que são articulados: ponto a ponto. Os pássaros são orgíacos, substantivos, a despeito de seu desarvoramento.
Pássaros são feitos de gritos monossilábicos e pulsam pautados: cascos partindo-se no ar. São o silêncio das claras de ovo, o modo de ser da marcha resolvida dos alados.
Os pássaros expõem-se denodados mas de perfil. Irrompem nas desferidas asas ou as colam ao corpo - depositário das deliberações que exacerbam os arcos, que se dão sempre e quebram-se.
por Maria Elisa Guimarães® (Meg)
(que tem a alma livre)
Ele lia em voz alta a parábola de Gibran: "A violeta e a rosa".
Eu assistia à cena muda, percebendo quando sua voz tremia, quando o canto dos seus lábios esboçavam um sorriso enquanto ele lia, quando as suas mãos apertavam um pouco mais o livro e, finalmente, quando terminava a leitura, percebia o quanto seus olhos brilhavam. Aquilo o emocionava demais. Ele se identificava com a rosa.
Juro que tentei ser rosa, mas as pétalas não se comportam...não se encaixam com a perfeição que deveriam, e os espinhos - tão necessários - me dão comichões. Aí, sendo rosa, fico descabelada e com coceira.
Ele também não suportou ser rosa muito tempo.
Tampouco sou violeta.
Nasci miosótis e vou morrer maria-sem-vergonha.
Eu assistia à cena muda, percebendo quando sua voz tremia, quando o canto dos seus lábios esboçavam um sorriso enquanto ele lia, quando as suas mãos apertavam um pouco mais o livro e, finalmente, quando terminava a leitura, percebia o quanto seus olhos brilhavam. Aquilo o emocionava demais. Ele se identificava com a rosa.
Juro que tentei ser rosa, mas as pétalas não se comportam...não se encaixam com a perfeição que deveriam, e os espinhos - tão necessários - me dão comichões. Aí, sendo rosa, fico descabelada e com coceira.
Ele também não suportou ser rosa muito tempo.
Tampouco sou violeta.
Nasci miosótis e vou morrer maria-sem-vergonha.
quarta-feira, 19 de setembro de 2001
terça-feira, 18 de setembro de 2001
Eu estava sondando os preços dos palmtops (que é a minha próxima empreitada no universo dos gadgets tecnológicos, eu, que não sei programar o videocassete, pretendo escrever na tela de cristal líquido com um pauzinho de laranjeira pós-moderno) quando abriu uma janela totalmente esquisita no meu monitor.
A primeira coisa que imaginei foi que havia feito uma trapalhada e baixado um novo screensaver com uma animação de que até Ele duvida. Uma carta (feito aquelas, amarelinhas, do ICQ - só que bem maior e vermelha) piscava sem parar e uma animação sugeria de um jeito meio ameaçador: abra-me....abra-me...Entre as palavras, uma espiral preta rodava. Catifum.
Muito bem. Beijei a imagem de São Judas Tadeu que carrego sempre comigo e cliquei duas vezes no envelope vermelho. Abriu uma sala de chat. Lá estávamos, eu e ele.
- Bem vinda...
- Oi, tudo bem? De onde vc tc?
- Não vem ao caso. Que bom que você aceitou meu convite para o chat.
- Legal, ficaria melhor se você se apresentasse.
- Claro, me desculpe...eu sou O Outro.
- Francisco Cuoco?
- Hehehe..vc lembra, é? Também gostei dessa novela. Mas não sou o Cuoco, não.
- Ok, continuo na mesma. Vc é o outro quem?
- O Outro. O transgressor da sua ordem. O da esquerda, o da mão que segura o garfo. O distante, o exilado, o diferente. Compreende?
- Tá insinuando que é o Capeta? (nem devia escrever essa palavra, que não é de bom agouro, é que nem "azar", que a gente não deve falar nem escrever, pra ver se risca do mapa)
- Acho que me dão muitos nomes por aí, mas não atendo por nenhum deles. Digamos que eu seja só o Outro. Curiosamente, é em mim que muita gente faz morada de seus capetas.
- Tô entendendo. Não sou burra nesses assuntos, sabe? Minha avó é Rosacruz, meu tio é pai-de-santo. Eu mesma ando num canto e noutro. Diga lá, vc me procurou pra que? Aliás, interessante essa sua abordagem via Internet.
- A Rede não deve ser para todos?
- De fato. Não ia ser você um excluído, um sem-acesso, um sem-tela.
- Absolutamente. Estou aqui por gentileza. Realmente, não tenho acesso - livre, gratuito, nada disso. Meu território é a própria exclusão. Imaginei que você soubesse disso. Mas tenho percebido que ultimamente, o que aparece no seu monitor vira sua realidade e julguei (ops) que esta seria uma forma eficiente de chamar a sua atenção.
- Bacana, boa estratégia. Agora, vamos à vaca fria. Me diga, pra que você quer minha atenção?
- Quero ser integrado. Quero que você faça um esforço para relativizar as diferenças que nos separam, para cooptar uma parcela do que represento. Quero que você abra mão de algumas certezas, que questione-as à luz das possibilidades que venho oferecer, quero que você reavalie alguns de seus conceitos.
- Deixa eu ver se entendi: você quer que eu abra mão de um pedaço de mim, de uma parte da minha história, que eu me desfaça dos valores que levei quase 35 anos pra construir, à custa de muita porrada, você quer que eu deixe de acreditar em coisas nas quais meus pais acreditaram, em coisas que eu estudei, li e refleti até chegar ao ponto de acreditar, em tudo que é mais precioso pra mim - idéias, filosofias, crenças pessoais, herança - pra ceder espaço pra você??? Que eu nem sei quem é??? A troco de que? Que conversa é essa? Tá me estranhando? Será que você sabe com quem tá falando?
You have mail!
Nova janelinha. Cliquei duas vezes, ato impensado, quase vício.
Notícias do mundo.
Cliquei correndo para a janelinha da sala de chat, procurando o Outro pra ver se dava tempo de uma explicação, uma busca de reconhecimento, uma reavaliação da minha postura, tão irrefletida.
The user "O outro" left the chat.
Cliquei no quadradinho com um X e fechei a sessão. Quem será que era esse outro?
Paciência...bobagem. Outra hora ele aparece e eu penso nisso de novo. Entrei no site da CNN pra saber mais sobre o atentado terrorista, cuja notícia acabara de chegar. Isso sim, merece minha atenção. Dane-se o Outro.
A primeira coisa que imaginei foi que havia feito uma trapalhada e baixado um novo screensaver com uma animação de que até Ele duvida. Uma carta (feito aquelas, amarelinhas, do ICQ - só que bem maior e vermelha) piscava sem parar e uma animação sugeria de um jeito meio ameaçador: abra-me....abra-me...Entre as palavras, uma espiral preta rodava. Catifum.
Muito bem. Beijei a imagem de São Judas Tadeu que carrego sempre comigo e cliquei duas vezes no envelope vermelho. Abriu uma sala de chat. Lá estávamos, eu e ele.
- Bem vinda...
- Oi, tudo bem? De onde vc tc?
- Não vem ao caso. Que bom que você aceitou meu convite para o chat.
- Legal, ficaria melhor se você se apresentasse.
- Claro, me desculpe...eu sou O Outro.
- Francisco Cuoco?
- Hehehe..vc lembra, é? Também gostei dessa novela. Mas não sou o Cuoco, não.
- Ok, continuo na mesma. Vc é o outro quem?
- O Outro. O transgressor da sua ordem. O da esquerda, o da mão que segura o garfo. O distante, o exilado, o diferente. Compreende?
- Tá insinuando que é o Capeta? (nem devia escrever essa palavra, que não é de bom agouro, é que nem "azar", que a gente não deve falar nem escrever, pra ver se risca do mapa)
- Acho que me dão muitos nomes por aí, mas não atendo por nenhum deles. Digamos que eu seja só o Outro. Curiosamente, é em mim que muita gente faz morada de seus capetas.
- Tô entendendo. Não sou burra nesses assuntos, sabe? Minha avó é Rosacruz, meu tio é pai-de-santo. Eu mesma ando num canto e noutro. Diga lá, vc me procurou pra que? Aliás, interessante essa sua abordagem via Internet.
- A Rede não deve ser para todos?
- De fato. Não ia ser você um excluído, um sem-acesso, um sem-tela.
- Absolutamente. Estou aqui por gentileza. Realmente, não tenho acesso - livre, gratuito, nada disso. Meu território é a própria exclusão. Imaginei que você soubesse disso. Mas tenho percebido que ultimamente, o que aparece no seu monitor vira sua realidade e julguei (ops) que esta seria uma forma eficiente de chamar a sua atenção.
- Bacana, boa estratégia. Agora, vamos à vaca fria. Me diga, pra que você quer minha atenção?
- Quero ser integrado. Quero que você faça um esforço para relativizar as diferenças que nos separam, para cooptar uma parcela do que represento. Quero que você abra mão de algumas certezas, que questione-as à luz das possibilidades que venho oferecer, quero que você reavalie alguns de seus conceitos.
- Deixa eu ver se entendi: você quer que eu abra mão de um pedaço de mim, de uma parte da minha história, que eu me desfaça dos valores que levei quase 35 anos pra construir, à custa de muita porrada, você quer que eu deixe de acreditar em coisas nas quais meus pais acreditaram, em coisas que eu estudei, li e refleti até chegar ao ponto de acreditar, em tudo que é mais precioso pra mim - idéias, filosofias, crenças pessoais, herança - pra ceder espaço pra você??? Que eu nem sei quem é??? A troco de que? Que conversa é essa? Tá me estranhando? Será que você sabe com quem tá falando?
You have mail!
Nova janelinha. Cliquei duas vezes, ato impensado, quase vício.
Notícias do mundo.
Cliquei correndo para a janelinha da sala de chat, procurando o Outro pra ver se dava tempo de uma explicação, uma busca de reconhecimento, uma reavaliação da minha postura, tão irrefletida.
The user "O outro" left the chat.
Cliquei no quadradinho com um X e fechei a sessão. Quem será que era esse outro?
Paciência...bobagem. Outra hora ele aparece e eu penso nisso de novo. Entrei no site da CNN pra saber mais sobre o atentado terrorista, cuja notícia acabara de chegar. Isso sim, merece minha atenção. Dane-se o Outro.
quarta-feira, 5 de setembro de 2001
Medea nunc sum.
Ponto de congelamento, cuja questão persiste através da trêmula fluidez de nossas emoções.
Ninguém sonha imitar Medéia, não se imita o acontecimento, não se pode antecipá-lo, não se pode vivê-lo por procuração: ele produz seu presente, a cada vez singular e, no entanto, a cada vez repetido.
Ninguém pensa em consolar Medéia, cercá-la de uma afeição que repara e reconcilia. Ninguém deveria nem mesmo ousar expressar qualquer tipo de solidariedade com Medéia. Ela não pode fazer mais nada, não nos pede nada, não pede mais nada a ninguém. Ela é Medéia.
Isabelle Stengers
Ponto de congelamento, cuja questão persiste através da trêmula fluidez de nossas emoções.
Ninguém sonha imitar Medéia, não se imita o acontecimento, não se pode antecipá-lo, não se pode vivê-lo por procuração: ele produz seu presente, a cada vez singular e, no entanto, a cada vez repetido.
Ninguém pensa em consolar Medéia, cercá-la de uma afeição que repara e reconcilia. Ninguém deveria nem mesmo ousar expressar qualquer tipo de solidariedade com Medéia. Ela não pode fazer mais nada, não nos pede nada, não pede mais nada a ninguém. Ela é Medéia.
Isabelle Stengers
De uns dias pra cá, ele só anda curvado. Não sei se é por algum motivo concreto, físico, ou se é mania, mesmo.
A impressão que dá é que ele procura por alguma coisa bem pequenininha, que se perdeu num vão entre as pedras portuguesas.
Talvez, de tanto dormir na calçada, tenha aprendido a língua das pedras e, ao invés de procurar com os olhos, cata segredos com os ouvidos.
Ele fala sozinho de monte e inventa umas modas que eu considero verdadeiras instalações: amarra sacos de lixo nos respiradouros da calçada, ordena objetos catados na rua com uma lógica que só ele entende e fica olhando pra eles durante muito tempo, cuidando para que nenhum passante distraído esbarre e estrague tudo que é perfeito. Tem dias em que me pergunto se as montagens de coisas, ao lado da banca de jornal, não fazem parte de algum ritual secreto do povo das ruas. Já o flagrei de varinha na mão, andando em círculos ao redor de cacarecos. Sabe-se lá.
À primeira vista, pensei que ele fosse um mendigo como tantos outros. Com a convivência (nos encontramos todos os dias, afinal) fui percebendo que não é só mendicância a sua realidade. Há um viés, ali. Para muitos, pode ser interpretado como alienação e loucura. Até mesmo para mim, era disso que se tratava, até hoje.
Mudei de idéia.
O caso é que estava comprando empadas numa carrocinha aqui perto de casa, quando ele passou. Percebi seu olhar para a vitrine do carrinho e depois, para o vendedor. Por fim, pararam em mim.
Impossível ficar indiferente. Ele murmurou alguma coisa ininteligível, que eu compreendi - claro, sou cristã, decente, compassiva, politicamente correta e ainda por cima, trabalho em ONG - como um pedido.
- Dá uma pra ele - disse ao vendedor.
Feito.
Ele olhou fixamente para a empada por um tempo, como se avaliando a conveniência de comê-la naquele momento e ali. Depois olhou pra mim, por uns minutos. Impossível descrever o que eu vi.
Era a mim mesma, que eu observava. Não achei estranho ser o homem encurvado à minha frente. Aposto que ele também não achou estranho ser a mulher empertigada.
A impressão que dá é que ele procura por alguma coisa bem pequenininha, que se perdeu num vão entre as pedras portuguesas.
Talvez, de tanto dormir na calçada, tenha aprendido a língua das pedras e, ao invés de procurar com os olhos, cata segredos com os ouvidos.
Ele fala sozinho de monte e inventa umas modas que eu considero verdadeiras instalações: amarra sacos de lixo nos respiradouros da calçada, ordena objetos catados na rua com uma lógica que só ele entende e fica olhando pra eles durante muito tempo, cuidando para que nenhum passante distraído esbarre e estrague tudo que é perfeito. Tem dias em que me pergunto se as montagens de coisas, ao lado da banca de jornal, não fazem parte de algum ritual secreto do povo das ruas. Já o flagrei de varinha na mão, andando em círculos ao redor de cacarecos. Sabe-se lá.
À primeira vista, pensei que ele fosse um mendigo como tantos outros. Com a convivência (nos encontramos todos os dias, afinal) fui percebendo que não é só mendicância a sua realidade. Há um viés, ali. Para muitos, pode ser interpretado como alienação e loucura. Até mesmo para mim, era disso que se tratava, até hoje.
Mudei de idéia.
O caso é que estava comprando empadas numa carrocinha aqui perto de casa, quando ele passou. Percebi seu olhar para a vitrine do carrinho e depois, para o vendedor. Por fim, pararam em mim.
Impossível ficar indiferente. Ele murmurou alguma coisa ininteligível, que eu compreendi - claro, sou cristã, decente, compassiva, politicamente correta e ainda por cima, trabalho em ONG - como um pedido.
- Dá uma pra ele - disse ao vendedor.
Feito.
Ele olhou fixamente para a empada por um tempo, como se avaliando a conveniência de comê-la naquele momento e ali. Depois olhou pra mim, por uns minutos. Impossível descrever o que eu vi.
Era a mim mesma, que eu observava. Não achei estranho ser o homem encurvado à minha frente. Aposto que ele também não achou estranho ser a mulher empertigada.
quinta-feira, 30 de agosto de 2001
Me aconteceu uma coisa inédita. Fui desenhada.
Não vou contar em que condições, mas Deus e todo mundo pode apostar que não foi caricatura.
O artista me olhava e rabiscava, lambia a ponta do dedo e esfumaçava tudo o que tinha feito.
Por pouco eu não dizia - não apaga esse pedaço! - mas quando pude finalmente olhar, a obra
estava perfeita.
Admiro demais esse talento.
Não vou contar em que condições, mas Deus e todo mundo pode apostar que não foi caricatura.
O artista me olhava e rabiscava, lambia a ponta do dedo e esfumaçava tudo o que tinha feito.
Por pouco eu não dizia - não apaga esse pedaço! - mas quando pude finalmente olhar, a obra
estava perfeita.
Admiro demais esse talento.
Esse cara vê tudo.
Tomei. Tomei mesmo. Todas.
Tava lá na minha frente, aquela garrafinha comprida. Eu já tinha engolido quatro gomos de limão e brincava com os fiapinhos de uma lima-da-pérsia no meio dos dentes, que também já tinha sido traçada com pinga - da boa.
Gastei meia boca num sorriso pro garçon e apontei com o dedo mindinho (pra mais ninguém ver, além dele):
- aquela garrafinha ali.
- Tem certeza? Olha que aquilo pega...
- Pega o que, meu filho, tome tento! Desce a garrafinha, please.
O engravatado nem disse ok, me deu as costas (ele usava mullet - hahaha! - coitado.) e serviu o líquido verde.
Weeellll....abri meu Mac azul ali mesmo, ao som de "Girl you'll be a woman soon" e dedilhei o teclado sem pudores.
Era absinto. Entrei no espírito e expressei minhas impressões. Na lapela do garçon, uma flor enorme girava.
A última coisa de que me lembro foi de ter conversado longamente com um transexual que veio puxar papo, encantado com a minha tatuagem. "Charming..."disse o ser.
"As you like it" - respondi.
Da noite, só sobraram duas lembranças. Um post meio maluco que suscitou dúvidas acerca de minha feminilidade e uma foto (não sei que desnaturado tirou) onde apareço numa fila de cachorras dançando a Macareña.
Tomei. Tomei mesmo. Todas.
Tava lá na minha frente, aquela garrafinha comprida. Eu já tinha engolido quatro gomos de limão e brincava com os fiapinhos de uma lima-da-pérsia no meio dos dentes, que também já tinha sido traçada com pinga - da boa.
Gastei meia boca num sorriso pro garçon e apontei com o dedo mindinho (pra mais ninguém ver, além dele):
- aquela garrafinha ali.
- Tem certeza? Olha que aquilo pega...
- Pega o que, meu filho, tome tento! Desce a garrafinha, please.
O engravatado nem disse ok, me deu as costas (ele usava mullet - hahaha! - coitado.) e serviu o líquido verde.
Weeellll....abri meu Mac azul ali mesmo, ao som de "Girl you'll be a woman soon" e dedilhei o teclado sem pudores.
Era absinto. Entrei no espírito e expressei minhas impressões. Na lapela do garçon, uma flor enorme girava.
A última coisa de que me lembro foi de ter conversado longamente com um transexual que veio puxar papo, encantado com a minha tatuagem. "Charming..."disse o ser.
"As you like it" - respondi.
Da noite, só sobraram duas lembranças. Um post meio maluco que suscitou dúvidas acerca de minha feminilidade e uma foto (não sei que desnaturado tirou) onde apareço numa fila de cachorras dançando a Macareña.
sexta-feira, 24 de agosto de 2001
Ela se virou na cama muito disposta a se permitir mais cinco minutos de sono, quando sentiu um volume inesperado contra o colchão. Sequer abriu os olhos, tateou pra ver o que era...bateu o pânico. Seu seio estava enorme. Três vezes o tamanho normal. Pensou em doença, em distúrbio hormonal durante a noite, em algum pesadelo esquisito, em visita da fada madrinha. O peitão continuava lá, e - o que é pior (ou melhor, mais provavelmente) eram os dois, grandes e duros.
Pulou da cama, arrancou a camiseta e fechou a porta do quarto, pra que ninguém descobrisse a novidade esquisotérica antes que lhe ocorresse uma explicação plausível. Também porque era o maior espelho da casa, aquele de trás da porta. Não deu tempo de avaliar os novos peitos. Parou - congelou - olhando para a própria cara, irreconhecível. Sua boca estava delineada com um lápis marrom e os lábios cintilavam no batom dourado. Os olhos....e isso eram olhos? Sobravam pestanas, os tufos de cílios postiços enormes, fizeram-na lembrar da infância, quando tinha medo de uma caixinha com pestanas pretas de mentira que a mãe guardava na gaveta do banheiro, junto com um tubinho micro de cola. Pois agora estavam lá, penduradas nas suas pálpebras.
Pensou em tocar na imagem refletida, mas quando aproximou a mão do espelho descuidadamente, as unhas estalaram contra o vidro. Tão grandes, que a ponta dos dedos não sentiam o frio do espelho. Aquelas eram garras, e estavam pintadas com uma cor intraduzível, com glitter por cima.
Ergueu a sombrancelha - agora finíssima e muito arqueada, tão fake quanto o resto, rabiscada sem vergonha. O que se passava, afinal? Quem era aquela figura esquisita tomando conta do seu pedaço?
Não teve tempo de esperar uma resposta - a empregada entrou sem cerimônia, colocou uma bandeja com café e comprimidos em cima da cama e deu bom-dia sem espanto.
-Aparecida? (ARGH! O que aconteceu com a minha voz????)
- Que é que houve, patroa?
- Você não tá me achando estranha? (a voz continuava errada, como se estivesse se curando de uma faringite)
- Tô não senhora. Tá sentindo bem?
- Aparecida, você não tá vendo a minha cara? Não tá ouvindo essa voz esquisitona? Tá vendo esses peitões, que coisa estranha??
- Ih, dona Arlete, a senhora tá em crise de novo? Quer um chazinho no lugar do café? Já sei, a batalha ontem foi ruim.
- Arlete? Batalha? Aparecida do que é que você tá falando?
- Tá bom, já entendi. Vou lá na rua, buscar sua bota de pelúcia azul no sapateiro, e trago um Calminex na volta, tá? Enquanto isso a senhora fica quietinha aí.
- Aparecida, tá tudo muito errado! Tá tudo muito estranho!!
Não deu tempo de falar mais nada. Aparecida saiu e levou junto um poodle que ela nunca tinha visto na vida.
Pensou em voltar para a cama para tentar acordar de novo, com as coisas como eram antes. Pensou em chorar.
Pensou....pensou...hesitou...deu outra espiadinha no espelho. De cima até em baixo.
- Se eu chorar, vai descolar minhas pestanas.
.....suspiro....
- Acho que virei um travesti.
Não teve coragem para conferir o que tinha por baixo da samba-canção de seda púrpura. O cheiro de Chanel nº 5 que exalava dos - agora longos e louros - cabelos estava a deixando inebriada.
- É isso. Arlete...peitões de silicone...bota de pelúcia azul...É, nega. I will survive.
Pulou da cama, arrancou a camiseta e fechou a porta do quarto, pra que ninguém descobrisse a novidade esquisotérica antes que lhe ocorresse uma explicação plausível. Também porque era o maior espelho da casa, aquele de trás da porta. Não deu tempo de avaliar os novos peitos. Parou - congelou - olhando para a própria cara, irreconhecível. Sua boca estava delineada com um lápis marrom e os lábios cintilavam no batom dourado. Os olhos....e isso eram olhos? Sobravam pestanas, os tufos de cílios postiços enormes, fizeram-na lembrar da infância, quando tinha medo de uma caixinha com pestanas pretas de mentira que a mãe guardava na gaveta do banheiro, junto com um tubinho micro de cola. Pois agora estavam lá, penduradas nas suas pálpebras.
Pensou em tocar na imagem refletida, mas quando aproximou a mão do espelho descuidadamente, as unhas estalaram contra o vidro. Tão grandes, que a ponta dos dedos não sentiam o frio do espelho. Aquelas eram garras, e estavam pintadas com uma cor intraduzível, com glitter por cima.
Ergueu a sombrancelha - agora finíssima e muito arqueada, tão fake quanto o resto, rabiscada sem vergonha. O que se passava, afinal? Quem era aquela figura esquisita tomando conta do seu pedaço?
Não teve tempo de esperar uma resposta - a empregada entrou sem cerimônia, colocou uma bandeja com café e comprimidos em cima da cama e deu bom-dia sem espanto.
-Aparecida? (ARGH! O que aconteceu com a minha voz????)
- Que é que houve, patroa?
- Você não tá me achando estranha? (a voz continuava errada, como se estivesse se curando de uma faringite)
- Tô não senhora. Tá sentindo bem?
- Aparecida, você não tá vendo a minha cara? Não tá ouvindo essa voz esquisitona? Tá vendo esses peitões, que coisa estranha??
- Ih, dona Arlete, a senhora tá em crise de novo? Quer um chazinho no lugar do café? Já sei, a batalha ontem foi ruim.
- Arlete? Batalha? Aparecida do que é que você tá falando?
- Tá bom, já entendi. Vou lá na rua, buscar sua bota de pelúcia azul no sapateiro, e trago um Calminex na volta, tá? Enquanto isso a senhora fica quietinha aí.
- Aparecida, tá tudo muito errado! Tá tudo muito estranho!!
Não deu tempo de falar mais nada. Aparecida saiu e levou junto um poodle que ela nunca tinha visto na vida.
Pensou em voltar para a cama para tentar acordar de novo, com as coisas como eram antes. Pensou em chorar.
Pensou....pensou...hesitou...deu outra espiadinha no espelho. De cima até em baixo.
- Se eu chorar, vai descolar minhas pestanas.
.....suspiro....
- Acho que virei um travesti.
Não teve coragem para conferir o que tinha por baixo da samba-canção de seda púrpura. O cheiro de Chanel nº 5 que exalava dos - agora longos e louros - cabelos estava a deixando inebriada.
- É isso. Arlete...peitões de silicone...bota de pelúcia azul...É, nega. I will survive.
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