sábado, 8 de setembro de 2007

Pois é. O Paulo Lima contou e eu confirmo. Almoçamos com o Tom Zé, na Cinelândia. O Mauro também é testemunha.

O Tom Zé parece ser um cara bacana. Hábitos frugais. Bebeu água sem gás, comeu legumes cozidos. Comi a mesma coisa. Só que eu não sou frugal.

Fique espiando o Tom Zé, de soslaio, com medo de um olho no olho. Vi que ele tem hábitos estranhos. Enche a taça de água e depois pega o guardanapo, branco, dobradinho, e pousa na boca da taça. Parecia rito católico. Aquilo me deixou pensando um bocado.

Aí li, do Zé:

Se eu pudesse atrasaria
Este relógio dois mil
Pra rezar na primeira missa
Pelo futuro do Brasil


Passou o sete de setembro, e só no oito eu entendo a homilia. Não rezei como deveria, no sete - mas fiz o minuto de silêncio. Depois da homilia, vem o Credo. Eu, crédula ainda, abro a boca para tudo que é consagrado. O futuro.

Ave, Zé.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Eu fiz análise por quase seis anos. Me lembro de umas poucas palavras solitárias, perdidas, escapulidas da minha cabeça em dias de sibéria: dias de paladar intragável e ritos de morte horripilantes.

Do muito que eu disse, quase nada ficou. Era pra expurgar, e foi.

Mas do que não foi dito...disso minha memória se alimenta.

Presente da minha analista - um bilhetinho, onde se lia:

A man, in some aspect, is:
like all other men;
like some other men;
like no other man.


Uma lágrima fugiu dela no dia da alta. Sim, ela me deu alta. A mim e à barriga que eu empinava desafiadora, perto de parir, símbolo vivo e agudo da minha opção pela vida.

Ninguém explica.

sábado, 18 de agosto de 2007

"Eu vi chover, eu vi relampear
mas mesmo assim o céu estava azul."

Tem dias que eu penso que fui forjada no fogo.
Tudo retine.
Tem dias que eu penso que fui cozida a vapor.
Tudo embaça.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007


Nova amiga

Wild, wild life...

sexta-feira, 3 de agosto de 2007


As melhores lembranças de Nairobi

Quando eu levei um dos maiores estabacos da minha vida, queria me levantar em quatro patas, de preferência daquelas, da altura das patinhas das girafas - capazes dos mais poderosos coices do reino animal. Além da idéia de dar coices poderosos (que ainda me agrada de vez em quando), eu também queria levantar com elegância. Por esse motivo também, as patas das girafas me encantaram: são as mais elegantes de todas. Uma girafa numa carreira daquelas, de sacudir a savana, é quase ballet.

No meio desse afã de escoicear e correr, eu recebi um recado de uma amiga experiente: baby steps, ela me disse. BABY STEPS!!!

Acatei o conselho. Fui devagar e sempre. Sem pressa e sem pausa. Funcionou. Em muito pouco tempo, eu estava segura sobre as minhas duas patas, dançando debaixo do globo espelhado, sobrevivente e vivente. Mas as corridas das girafas, os pescoços elegantésimos, os coices mortais continuaram me encantando.

Há poucos dias levei um beijão da girafa. Uma língua enorme, azulada e rápida passou pela minha mão, pescoço e cabelos. Não retribuí o beijo, mas jamais vou esquecer aqueles olhos doces delineados por pestanas meigas.

Nem o mais idiota dos mortais esqueceria.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Doce de pressão

PshSHshSHshSHsh....

A válvula da panela de pressão balançava em elipses, quase rebolava, o som chiado aumentava e diminuía num ritmo constante, era quase um vou-não-vou. Dentro da panela, duas latas de leite condensado e muita água.

A vontade crescente nos últimos dois dias era doce – muito doce. Na verdade, queria se lambuzar escondido. Sentada à mesa da cozinha, ela esperava o resultado da panela, imaginando que ia comer o doce de colher e quase civilizadamente, já que nesses dias não é civilizado ter acessos de gula. O gato também olhava a panela, mas não via. Na maioria das vezes era isso que ele fazia, olhava sem ver, olhava através. Quantas vezes ela quis aprender a olhar como o gato, mas esse, assim como todos os segredos felinos, era insondável. Tinha dias, como este, do doce, em que ela se resignava em olhar para a vida e nunca através dela. Não nascera gato, e isso era um bocado triste.

Trinta e cinco minutos era o tempo de que precisava para satisfazer seu desejo. O chiado da panela embalava sua espera e remetia a tempos antigos – sextas-feiras santas quando o cheiro insuportável do bacalhau na pressão invadia a casa da avó em manhãs que pareciam intermináveis. Segundas-feiras modorrentas quando o peso de começar tudo de novo era associado à panela de feijão que a empregada colocava no fogo, e que devia durar a semana inteira. Domingos festivos em que a carne assava, a massa era escorrida e os primos faziam barulho, muito barulho. Tudo era bom nesses domingos, a felicidade durava até as cinco da tarde.

Nem sempre a panela funcionava bem, e naquele dia calhou de hesitar. A válvula travava de vez em quando, para - logo depois de segundos de suspense - retomar o ritmo. Deve estar escapando ar demais, pensou. Nada que um palito de fósforo não resolva, e foi num dos buraquinhos da válvula que o palito se encaixou. Tudo começou a rodar como deveria, num ritmo constante e sem sobressaltos. O pauzinho deu jeito.

Fluoxetina também dá jeito nos sobressaltos. Era assim, já há algum tempo. O bendito fruto da Eli Lilly dormia a seu lado no criado mudo, e era a porta de entrada das manhãs em que abrir os olhos era quase um desgosto. Não porque o sonho lhe trouxesse coisas boas, mas porque o dia necessariamente lhe apresentava às claras o espelho do banheiro e os espelhos da rua. Não gostava do que via, em si e nos outros. Sua vontade era apontar o defeito do mundo, mas isso era feio. Assim, restava-lhe gastar boa parte de seu tempo e de seus pensamentos apontando para si mesma seus defeitos. Na verdade, sentia que não era a única a fazer isso. Muita gente lhe ajudava nessa tarefa, era o que pensava. A fluoxetina era uma companheira fiel, amenizava o impacto do erro onipresente e às vezes até lhe ajudava a esquecer que não era perfeita, nem jamais seria. É claro que quando o esquecimento não vinha e mais alguma ajuda era necessária, o açúcar emprestava certo bem-estar e lhe dava momentos de alento.

Não que pensasse em pôr fim à tristeza. Bastava-lhe uma convivência tolerável com os momentos de dor, pois acreditava que acreditava ser possível administrar a falta de alegria na vida. A vida de todo mundo é mais ou menos, afinal de contas. Controlar os altos e baixos, manter-se na faixa do meio é possível, principalmente com a ajuda dos fármacos e dos refinados. Nessa verdade ela se mantinha em pé.

O som do chiado era tão persistente e tão constante que a vontade que lhe deu foi de esperar no chão. O frio do ladrilho compensava o calor da fervura da panela que emanava ao redor. Deitada, imaginou que o teto da cozinha era o céu, e ali tudo seria possível, comeria o leite cozido deitada no chão, lambendo a colher de olho na eternidade. Durou um minuto e meio esse devaneio, interrompido pela explosão. A válvula da pressão foi ao seu limite, e a tampa da panela foi arrojada para cima, fazendo um buraco no teto. Uma chuva de doce de leite pontilhou todas as paredes, teto, geladeira, armários. Depois da explosão, o que se ouvia era quase um silvo – como o fim de um suspiro guardado há tempo demais. No chão, ela não se moveu. Olhos abertos, contemplava o céu. O buraco feito pela tampa era como uma lua, incandescente. As estrelas salpicadas ao seu redor pingavam, como num conto de fadas. A válvula ela não viu mais e, embora soubesse que a causa do imprevisto foi o palito de fósforo enfiado num buraco onde jamais deveria ter estado, não sentiu nenhuma culpa. Abriu a boca e esperou que alguma estrela lhe adoçasse a língua. O gato, debaixo da geladeira, olhava para ela – e não através. Suas pupilas pareciam dilatadas para sempre.

A eternidade é doce e estrelas não engordam.

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quinta-feira, 26 de abril de 2007

Recado pra tu, ó, ô Marte:

Para Que Digladiar
Jorge Ben Jor

Para que digladiar, para que digladiar
Se bom mesmo é cozer
Esperar ficar no ponto e comer
Se bom mesmo é coser
Esperar ficar pronto, vestir, aparecer

Para que digladiar, para que digladiar
Pois o meu amor (ai ai)
Gosta, gosta gosta de mim
Pois o meu amor (ai ai)
Reza, reza por mim

Alcança a esperança
Contra a aliança da vingança
Avança e lança
A bonança da herança
Da criança de trança
Da dança da lembrança
Da poupança que é mansa
Mas não cansa

Duas mulheres se digladiavam no sonho. Iguais, gêmeas, uma perseguia a outra com desejo de morte. Eu me sentia a perseguida. A outra também era eu. Tentando me defender, me batia – e via minha menina chorando, quando acertava o soco. Muita culpa. Muita graça. Muita luz.

Agradeço ao meu Marte na 12, provocando esses golpes de inconsciente, para que venham à tona. Atenta ao Marte, estou. Numinoso, na 12.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Ganhei, nos últimos dias, presentes preciosos.
De Jim Lord, ganhei o livro "What kind of world do you want?".
De Ana Lucia ganhei um sindhi halva, doce especialíssimo que veio de Mount Abu, energizado pela meditação de pessoas definitivamente dedicadas a criar pensamentos melhores, vidas melhores, mundos melhores.

O Universo não me manda recados - ele fala direto, cai na minha caixa postal.

"Oh sure, dreaming is the easy part! Thinking the shiny, sexy, happy thoughts. And so are the baby steps; moving with your dream. The hard part, Graciela, is... Well, actually, choosing words that imply you're on your way is pretty easy, too... Pretending is easy... Gratitude, easy... Finding stuff to be happy about, easy...

Help me, Graciela. I must be forgetting something. What's supposed to be the hard part?"

The Universe

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Amanhã minha Bella faz 12 anos. Ela já quase corre com as próprias pernas, já quase compra suas próprias brigas, já quase acha que sabe o que quer...mas ainda ronrona encostada na barriga da mãe.

É feroz, a bichinha. Eu gosto. Ensino a ela como afiar as garras, a língua, e a cuidar do coração, pra que nenhum orgulho excessivo o machuque. Aos poucos, ela tem relativizado a importância suas vitórias, no instigante caminho de aprender a escolher ser livre.

Sei que de uma hora para a outra ela vai estender suas pernas e ganhar o mundo numa velocidade de deixar qualquer mãe atônita. Estou me preparando pra esfregar os olhos no meio da nuvem de poeira que ela deixar pra trás, e sorrir. Sei que também de uma hora pra outra ela vai voltar pra lamber feridas, me trazer troféus pra polir ou simplesmente me contar do mundo, porque o dela será, certamente, bem maior que o meu.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Algumas mulheres são redemoinho, são tornado, são um vórtice criador e transmutador.
Por serem muito capazes de entregar o coração, se desfazem dos apêndices sem anestesia. No universo delas, não há perda, há compostagem de vida. São essas mulheres que me fazem respirar fundo e rir muito, porque a lágrima é leve, é fácil de carregar. Elas me ensinam a não cavar o solo pra conferir sementes, me ensinam a alegrar-me com o verde quando tudo que se vê é o negro da terra. Me ensinam a manter a cabeça em pé e as velas içadas.

Os ventos da graça sopram o tempo todo, você só tem que içar as velas.
(Ramakrishna)

Para Ilane Gehrs, que me ensina sem saber.
Então, os 40 chegaram. Vieram com água doce e trovoadas, como não podia deixar de ser. Tirei os olhos do computador, no final da tarde do fim dos 39 anos e vi a cachoeira na pedra em frente à minha casa, onde antes só havia pedra. Lavei a casa com alegria.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Cuando el cabrón lloró

Estava no táxi me despedindo de San Jose, a caminho do aeroporto. Quem me levava era Juan Fernando, um taxista colombiano que se irrita com a “arrogância costarricence e da maneira feia como são tratados os nicaraguenses aqui”. Falamos sobre o tratado da TLC, sobre a influência norte-americana no país e sobre o perigo que representam os chineses para o mundo.


De repente, no rádio, toca uma versão castelhana de “Menina Veneno”, do Ritchie. Comentei com Juan Fernando - “uma música brasileira!”. E ele me responde – pois é, mas o Roberto e o Nelson são incomparáveis.

- ?

- Roberto – o Rei.

- Ah, tá. E o Nelson, é o Nelson ....

- Ned!!

- Nelson Ned?

- Sííí...buenísimo cantante!

- Ahhh...si...es verdad [eu pensava por onde andaria o Nelson Ned].


Contei a Juanfe que o Nelson Ned não cantava mais no Brasil.

- Por que????

- Porque chamaram ele de anãozinho num programa de TV e ele “se enojó”.

- Ai!!! Que feo!!!

Engatei noutra noticia ruim: o Roberto sofre de depressão desde que a mulher dele faleceu.


Um silêncio absoluto no carro do Juanfe. Eu me distraí comendo uns plátanos com sal e limão e, de repente, dou uma espiada para o retrovisor. Juanfe chorava em silêncio.


Não quis dizer mais nada, bastava de más notícias. Sabe-se lá o que poderia acontecer com ele se eu contasse mais uma novidade daquelas. Se eu contasse que a Sandy não é mais virgem? Se eu contasse o final de “Chocolate com Pimenta” - novela que é retumbante sucesso aqui por essas bandas...? Se eu contasse...sei lá.


Achei melhor terminar a viagem em silêncio, com meus plátanos. Não se pode tirar as ilusões de um homem assim, de uma hora pra outra.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Faltam 21 dias pros meus 40 anos.
Três semanas de sete dias - hoje é um dia e tanto, olha quanta Cabala!
Sendo assim, começa a série Re-capitulando.

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Sábado, Abril 28, 2001

"A natureza dos gatos parece fundamentar-se no princípio de que nunca é ruim pedir o que se deseja."
Joseph Wood Krutch

Não é absolutamente delicioso? Nenhuma palavra faz sentido sem desejo.

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Acho que foi nessa época que eu decidi ser gata de almofada. Funciona. Depois de cinco anos de prática, eu recomendo.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Eu não dou conta de tudo.
UEBA!
Não tenho que dar conta de nada. Posso não ouvir as mensagens na caixa-postal do celular, posso não fazer o jantar, posso não trabalhar amanhã, posso fazer tudo errado e me divertir com isso.
Vou imprimir esse post e tirar xerox. Vai ser minha filipeta do evento pessoal deste fim de semana. Vou distribuir 400 filipetas destas pra mim mesma ao longo do dia e me embebedar - de tequila, óbvio - na noite de sábado. Com nargueela sabor melão amarelo.
E a partir de janeiro de 2007 vou tratar de ganhar dinheiro dando idéias aos outros.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006


Red hot chilli peppers!

domingo, 19 de novembro de 2006


Eu amo esse mês escorpiano. Os anúncios de verão. Os picos de primavera em mim e ao meu redor. Um vento mais morno entre as árvores, a luz rosa das seis da manhã. Tudo que eu planto, dá.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

A Elza Soares berrando no Ipod, peguei o sabão em pó em promoção, as flores amarelas também. Fui de plataforma, fui de barriga de fora, tudo que eu posso enquanto dá. Sem vergonha de requebrar com a bateria da Mocidade Independente, assim tem sido.

Canto alto. Quem quiser que escute - na fila.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Te adorando.
Daqui eu fico, detrás da escrivaninha, atenta ao som do freio antes do quebra-mola.
O que me embalou o dia foi a lembrança da tua nuca no travesseiro, no lusco-fusco das quatro da manhã.
Você chega, eu desabrocho com a lua que sobe.

domingo, 17 de setembro de 2006


Eu acredito muito que todo mundo precisa de um herói ou heroína. Também acredito que todo mundo precisa de um mito e que todo mundo precisa de uma missão.

Estamira me fez chegar mais perto dessas três coisas - de minha heroína, de meu mito, de minha missão.

Ela revela as verdades na sua pureza, na sua lucidez, na sua sagrada invisibilidade.