Está lá no Abraham Hicks:
There are as many different worlds being lived by as many different perceivers of the world as there are.
Eu gosto muito do mundo que percebo.
É um mundo de flores secas no caldeirão da trisavó.
Mundo de hibiscos-colibri e colibris sem-vergonha.
É um mundo apaixonado, um mundo de cremes doces, de pé de pimenta.
Gosto do mundo que percebo - múltiplo, como as estrelas que empoeiram meu teto.
domingo, 14 de maio de 2006
quarta-feira, 26 de abril de 2006
Uma garrafa e meia de vinho à beira da piscina.
Três caquis no pé, incontáveis pitangas, até as do chão, as mais gordas, irresistíveis.
Quarenta minutos de corrida ao som do Black Eyed Peas, lose control, all body all soul, serotonina não excede jamais e o suor me energiza.
A vida não foi feita pra gente comer de garfo e faca. Desavergonhadamente lambo os dedos.
Três caquis no pé, incontáveis pitangas, até as do chão, as mais gordas, irresistíveis.
Quarenta minutos de corrida ao som do Black Eyed Peas, lose control, all body all soul, serotonina não excede jamais e o suor me energiza.
A vida não foi feita pra gente comer de garfo e faca. Desavergonhadamente lambo os dedos.
domingo, 23 de abril de 2006
"Quero dizer, com toda seriedade, que muitos malefícios estão sendo causados no mundo moderno pela crença no caráter virtuoso do trabalho, e que o caminho da felicidade e da prosperidade é a sua redução organizada". Bertrand Russel, O Elogio ao Ócio.
Acho que um pouco mais de ócio salvaria almas. Pra mim, a cadeira de balanço é um altar.
Acho que um pouco mais de ócio salvaria almas. Pra mim, a cadeira de balanço é um altar.
domingo, 19 de março de 2006
Me interessa demais o pós-morte. Gostaria muitíssimo de encontrar mais pessoas pós-mortas. Um dia, vou enviar cartas do pós-morte para pessoas queridas, que amo, mas que ainda não aprenderam a morrer.
Lamento às vezes pelos quase-vivos...e aí estou incluída, nos dias de esquecimento. Se eu fosse um pouco mais religiosa, acenderia velas por todos os quase-vivos. Uma vela roxa pela ambição quase-viva de permanência, de segurança, de estabilidade. Uma vela amarela pelo desejo quase-vivo de reconhecimento e respeito...ah, o respeito! Uma vela azul-marinho pela mediocridade dos dias sem susto e sem improviso, aqueles dias bem conhecidos dos quase-vivos - dias de pisar nas florezinhas do caminho, nos quereres, nos sonhos, nos ex-amores, ex-mestres, ex-amigos.
Uma vela negra pela quase-vida dos que se crêem - ou se pretendem - importantes e uma mini-vela escarlate por cada palavra e gesto quase-vivo de tentar impressionar.
Deveria ser criado o dia dos ex-mortos, um dia depois do dia de nenhum santo, do dia de todos os pecadores, ou do dia de todos os esquecidos. Seria um dia de gargalhadas intermináveis, de cânticos que nos fizessem dançar, de farra, mesmo. Daquelas, bacantes, cujo superego dos quase-vivos não hesitaria em condenar. Não seria necessariamente uma festa da carne, mas seguramente uma festa da vida pós-morte em vida. De carne, osso, fruto e espírito, alma e consciência, sexo manifesto e imanifesto, fome e saciedade de tudo que é verdadeiro e efêmero. A festa da presença, a festa do agora.
Lamento às vezes pelos quase-vivos...e aí estou incluída, nos dias de esquecimento. Se eu fosse um pouco mais religiosa, acenderia velas por todos os quase-vivos. Uma vela roxa pela ambição quase-viva de permanência, de segurança, de estabilidade. Uma vela amarela pelo desejo quase-vivo de reconhecimento e respeito...ah, o respeito! Uma vela azul-marinho pela mediocridade dos dias sem susto e sem improviso, aqueles dias bem conhecidos dos quase-vivos - dias de pisar nas florezinhas do caminho, nos quereres, nos sonhos, nos ex-amores, ex-mestres, ex-amigos.
Uma vela negra pela quase-vida dos que se crêem - ou se pretendem - importantes e uma mini-vela escarlate por cada palavra e gesto quase-vivo de tentar impressionar.
Deveria ser criado o dia dos ex-mortos, um dia depois do dia de nenhum santo, do dia de todos os pecadores, ou do dia de todos os esquecidos. Seria um dia de gargalhadas intermináveis, de cânticos que nos fizessem dançar, de farra, mesmo. Daquelas, bacantes, cujo superego dos quase-vivos não hesitaria em condenar. Não seria necessariamente uma festa da carne, mas seguramente uma festa da vida pós-morte em vida. De carne, osso, fruto e espírito, alma e consciência, sexo manifesto e imanifesto, fome e saciedade de tudo que é verdadeiro e efêmero. A festa da presença, a festa do agora.
terça-feira, 3 de janeiro de 2006
Onde os anos não aparecem...
Nas rugas da testa, não. Nem nos cabelos, que agora eu pinto. Não aparecem nas mãos, que são saltitantes e se movem com autonomia, nem no ritmo do meu passo, porque sempre que eu quero, corro.
Os anos aparecem, sim, nas gargalhadas que já não consigo segurar como antes - ainda que sinta uma certa vergonha depois da explosão. Aparecem no tênis do filho, número 40 e nas contas da amiga que se orgulha dos quase 30 anos de amizade. Aparecem no número menor de garrafas de cerveja, no leite de soja na geladeira e na paciência de semear flores no canteiro, quando eu poderia comprar as mudas crescidas.
Os anos aparecem nos olhos, mas nunca nos sonhos.
Nas rugas da testa, não. Nem nos cabelos, que agora eu pinto. Não aparecem nas mãos, que são saltitantes e se movem com autonomia, nem no ritmo do meu passo, porque sempre que eu quero, corro.
Os anos aparecem, sim, nas gargalhadas que já não consigo segurar como antes - ainda que sinta uma certa vergonha depois da explosão. Aparecem no tênis do filho, número 40 e nas contas da amiga que se orgulha dos quase 30 anos de amizade. Aparecem no número menor de garrafas de cerveja, no leite de soja na geladeira e na paciência de semear flores no canteiro, quando eu poderia comprar as mudas crescidas.
Os anos aparecem nos olhos, mas nunca nos sonhos.
sábado, 24 de dezembro de 2005
"Para a Mãe Terra, nos ensinam os anciãos, não há árvores melhores que outras, nem plantas melhores que outras e nem mesmo peixes melhores que outros.
Quando o homem acha que há árvores que são melhores que outras ou plantas melhores que outras ou, ainda, peixes melhores que outros, também pensa que há seres humanos melhores que outros e que esses outros devem desaparecer, para que vivam apenas os que são melhores.
A solidariedade não se decreta e nem se impõe: ela desperta quando descobrimos que somos filhos da Mãe Terra e irmãos de uma mesma espécie."
Manuel Muñoz Millalonko
Armando Llaitureo Mankemilla
CONSEJO GENERAL DE CACIQUES WILLICHE DE CHILOÉ
Quando o homem acha que há árvores que são melhores que outras ou plantas melhores que outras ou, ainda, peixes melhores que outros, também pensa que há seres humanos melhores que outros e que esses outros devem desaparecer, para que vivam apenas os que são melhores.
A solidariedade não se decreta e nem se impõe: ela desperta quando descobrimos que somos filhos da Mãe Terra e irmãos de uma mesma espécie."
Manuel Muñoz Millalonko
Armando Llaitureo Mankemilla
CONSEJO GENERAL DE CACIQUES WILLICHE DE CHILOÉ
quinta-feira, 17 de novembro de 2005
- Pega o mapa, criatura.
- Mas eu não entendo os risquinhos...
- Não precisa entender, só me diz o nome desse risco aqui, ó, pra eu saber onde a gente está.
- Peraí...estamos na grande...quero dizer na quadra...não, esse risco aqui, acho que diz que estamos no triângulo...ah, não sei!
- Agora é que danou-se, mesmo. ESSE rabisco aqui, ó. O que tá escrito?
- Tá escrito aqui que a gente tá no caminho certo.
- Tem certeza?
- Acho que tenho.
- Onde você leu isso?
- No pontinho do meio do círculo.
- Perfeito. Até que enfim você aprendeu a desvendar mapa astrológico.
- Mas eu disse que não sei.
- E eu disse a mesma coisa.
- Então tá. Toca o carro aí.
- Estou tocando. E tira o cinto, por favor.
- Mas eu não entendo os risquinhos...
- Não precisa entender, só me diz o nome desse risco aqui, ó, pra eu saber onde a gente está.
- Peraí...estamos na grande...quero dizer na quadra...não, esse risco aqui, acho que diz que estamos no triângulo...ah, não sei!
- Agora é que danou-se, mesmo. ESSE rabisco aqui, ó. O que tá escrito?
- Tá escrito aqui que a gente tá no caminho certo.
- Tem certeza?
- Acho que tenho.
- Onde você leu isso?
- No pontinho do meio do círculo.
- Perfeito. Até que enfim você aprendeu a desvendar mapa astrológico.
- Mas eu disse que não sei.
- E eu disse a mesma coisa.
- Então tá. Toca o carro aí.
- Estou tocando. E tira o cinto, por favor.
quarta-feira, 9 de novembro de 2005
Hoje foi dia de lembrar frases dos antigos.
De Protágoras, "O homem é a medida de todas as coisas".
De Balzac, "A resignação é um suicídio cotidiano".
Do meu avô (ou melhor, repetida por ele), "O que a gente leva da vida é a vida que a gente leva".
Afinal, a linguagem é ou não é a casa do ser?
Pra mim, a casa do ser é o silêncio. Perto dele, a linguagem é um puxadinho ainda sem embolso.
Que difícil dizer isso!!!!
De Protágoras, "O homem é a medida de todas as coisas".
De Balzac, "A resignação é um suicídio cotidiano".
Do meu avô (ou melhor, repetida por ele), "O que a gente leva da vida é a vida que a gente leva".
Afinal, a linguagem é ou não é a casa do ser?
Pra mim, a casa do ser é o silêncio. Perto dele, a linguagem é um puxadinho ainda sem embolso.
Que difícil dizer isso!!!!
terça-feira, 1 de novembro de 2005
sábado, 15 de outubro de 2005
sábado, 17 de setembro de 2005
Passei os últimos meses mudando. De casa, de cidade, de vida. Vou mudar mais, ainda. O melhor da mudança tem sido o tempo de pensar. Na estradinha sinuosa que leva até minha nova e temporária casa, eu penso, esqueço, despenso e tenho momentos de êxtase. O verde extasia, o sabiá extasia, o ar frio extasia. Olho tudo ao redor e vejo que onde quer que eu vá, estou sempre no lugar certo.
Voltei a obervar a vida de um outro ponto, mais atrás das lentes dos olhos. Isso me fazia falta, eu andava sem tempo pra duvidar dos pensamentos. Agora ensaio uma nova alforria da mente, feliz por me dar conta que a frase lida no cartaz do consultório do dentista é verdade: a consciência, uma vez expandida, nunca volta ao seu tamanho original.
Celebro a cozinha e a vista para a pedra nevoenta às seis da manhã. As orquídeas florescem, os amigos estão mais próximos do que nunca, porque meu coração se apazigua no silêncio absoluto da noite, só entrecortado pelos cães. As palavras ressurgem, me supreendem por sua imprevisibilidade e começo a me dispor a ser mais disciplinada com elas. É um próximo passo.
O passado bate à porta, mas é a porta da rua. Digo oi da janela do andar de cima e lamento não poder atender agora. Passado passa.
O presente é assim, permanente e abençoado por mim. Tudo ao redor resplandece, e embora às vezes o espelho me pegue de surpresa mostrando os anos e algum cansaço que ficou do caminho, dou graças pelo que o tempo fez de mim.
O futuro é mudança. Espiral-expansão-vida. Vou passar os próximos meses mudando.
Voltei a obervar a vida de um outro ponto, mais atrás das lentes dos olhos. Isso me fazia falta, eu andava sem tempo pra duvidar dos pensamentos. Agora ensaio uma nova alforria da mente, feliz por me dar conta que a frase lida no cartaz do consultório do dentista é verdade: a consciência, uma vez expandida, nunca volta ao seu tamanho original.
Celebro a cozinha e a vista para a pedra nevoenta às seis da manhã. As orquídeas florescem, os amigos estão mais próximos do que nunca, porque meu coração se apazigua no silêncio absoluto da noite, só entrecortado pelos cães. As palavras ressurgem, me supreendem por sua imprevisibilidade e começo a me dispor a ser mais disciplinada com elas. É um próximo passo.
O passado bate à porta, mas é a porta da rua. Digo oi da janela do andar de cima e lamento não poder atender agora. Passado passa.
O presente é assim, permanente e abençoado por mim. Tudo ao redor resplandece, e embora às vezes o espelho me pegue de surpresa mostrando os anos e algum cansaço que ficou do caminho, dou graças pelo que o tempo fez de mim.
O futuro é mudança. Espiral-expansão-vida. Vou passar os próximos meses mudando.
segunda-feira, 13 de junho de 2005
"Eu vou te jogar num pano de guardar confetes".
A música não sai da minha cabeça - nem os confetes.
Depois da negritude de um tempo em que eu atravessei o samba, há anos...alguns anos...aprendi a guardar confetes. Entre os meus neurônios, ali estão, alternando-se com as serpentinas disparadas pelos beijos amorosos que a vida me dá. Bolos de confetes explodem em sinapses, de vez em quando - muitos deles, sem motivo aparente. Descobri que o maior aprendizado dessa vida é a arte de guardar - e jogar - confetes, em mim e ao meu redor, no raio mais amplo possível.
A música não sai da minha cabeça - nem os confetes.
Depois da negritude de um tempo em que eu atravessei o samba, há anos...alguns anos...aprendi a guardar confetes. Entre os meus neurônios, ali estão, alternando-se com as serpentinas disparadas pelos beijos amorosos que a vida me dá. Bolos de confetes explodem em sinapses, de vez em quando - muitos deles, sem motivo aparente. Descobri que o maior aprendizado dessa vida é a arte de guardar - e jogar - confetes, em mim e ao meu redor, no raio mais amplo possível.
segunda-feira, 16 de maio de 2005
Eu estava de saco cheio de uma cidade onde não se vê gente nas ruas no domingo à tarde. Andava há mais de hora, eu e meu amigo João, por ruas quase desertas - rimos do fato de estarmos na porta de entrada para o Oeste norte-americano, numa cidade quase fantasma: uma parte de Saint Louis é um set perfeito para a versão moderna dos westerns onde venta em ruas vazias, com casas de portas e janelas cerradas, sacos plásticos vazios rolando com o vento no meio do asfalto. Andávamos quadras e quadras sem ver viva alma.
Até chegarmos ao Grand Center. Ali havia gente. Café aberto, teatro lotado. Continuamos rindo de coisas - pessoas esquisitas, gatos, cachorros, american way of life. E andamos um pouco mais, até a igreja Saint Francis Xavier, onde paramos na esquina. Em frente à igreja, ali sim, havia gente.
Umas 15 pessoas - não mais - em vigília. Manifestavam-se contra a guerra, com velas nas mãos, em pé nas escadas, abaixo delas um senhor segurava um microfone e fazia funcionar um pequeno equipamento de som de onde vinha uma música meio melosa. Nas mãos, as pessoas seguravam papéis com números escritos e na avenida em frente, a sinal abria e fechava, os carros paravam, alguns motoristas olhavam e uma das manifestantes fazia o sinal de paz e amor.
Ficamos ali na esquina até o final da vigília. Quando a música silenciou e as pessoas começaram a sair da escada da igreja, fomos ver o que significavam os números e falar com aquela gente. O que passou em seguida não sei descrever nem explicar, mas fomos acolhidos naquela força e compartilhamos aquela dor, que também era nossa e talvez tivéssemos esquecido por um tempo. Ali nós choramos - e choramos de verdade - abraçados à Mary, uma senhora miúda de cabelos brancos. Uma criatura enorme, junto com seus companheiros que se reúnem em frente à Saint Francis Xavier Church todos os domingos, desde o 11 de setembro, pra dizer "Not in our names". Conversamos com Mary, Mark, Deborah, e foi muito difícil sair dali, de verdade. Difícil dar as costas e andar pra longe daquele grupo. Difícil entender o que passou, difícil esperar o ônibus no vento, difícil segurar o choro mesmo depois de atravessar a rua.
Antes de irmos, ouvimos da Mary: vocês sempre estarão conosco nesta esquina, daqui pra frente.
Isso foi fácil de entender. Posso atravessar o oceano, quantos forem. Passar o tempo, passar pelo tempo, ficar de cabelos brancos como aquela senhora - vou continuar naquela esquina. Definitivamente, uma parte de mim ficou ali e uma nova versão de mim saiu dali. Uma versão mais inteira, melhorada. Abduzida do lugar do julgamento. Orgânica.
Grande Saint Louis.
Até chegarmos ao Grand Center. Ali havia gente. Café aberto, teatro lotado. Continuamos rindo de coisas - pessoas esquisitas, gatos, cachorros, american way of life. E andamos um pouco mais, até a igreja Saint Francis Xavier, onde paramos na esquina. Em frente à igreja, ali sim, havia gente.
Umas 15 pessoas - não mais - em vigília. Manifestavam-se contra a guerra, com velas nas mãos, em pé nas escadas, abaixo delas um senhor segurava um microfone e fazia funcionar um pequeno equipamento de som de onde vinha uma música meio melosa. Nas mãos, as pessoas seguravam papéis com números escritos e na avenida em frente, a sinal abria e fechava, os carros paravam, alguns motoristas olhavam e uma das manifestantes fazia o sinal de paz e amor.
Ficamos ali na esquina até o final da vigília. Quando a música silenciou e as pessoas começaram a sair da escada da igreja, fomos ver o que significavam os números e falar com aquela gente. O que passou em seguida não sei descrever nem explicar, mas fomos acolhidos naquela força e compartilhamos aquela dor, que também era nossa e talvez tivéssemos esquecido por um tempo. Ali nós choramos - e choramos de verdade - abraçados à Mary, uma senhora miúda de cabelos brancos. Uma criatura enorme, junto com seus companheiros que se reúnem em frente à Saint Francis Xavier Church todos os domingos, desde o 11 de setembro, pra dizer "Not in our names". Conversamos com Mary, Mark, Deborah, e foi muito difícil sair dali, de verdade. Difícil dar as costas e andar pra longe daquele grupo. Difícil entender o que passou, difícil esperar o ônibus no vento, difícil segurar o choro mesmo depois de atravessar a rua.
Antes de irmos, ouvimos da Mary: vocês sempre estarão conosco nesta esquina, daqui pra frente.
Isso foi fácil de entender. Posso atravessar o oceano, quantos forem. Passar o tempo, passar pelo tempo, ficar de cabelos brancos como aquela senhora - vou continuar naquela esquina. Definitivamente, uma parte de mim ficou ali e uma nova versão de mim saiu dali. Uma versão mais inteira, melhorada. Abduzida do lugar do julgamento. Orgânica.
Grande Saint Louis.
quarta-feira, 23 de março de 2005
Eu sou desaforada, sim. Mas não penso na presidência.
Nem na direção, nem na gerência, nem na coordenação. Nenhum posto, só um porto.
Penso na presença.
Hoje é que vale, isso ensina o Urano que teimo em desafiar.
Passado, se bate à porta, é oi e tchau. Futuro, desculpem, estou muito ocupada tratando de escolher o agora. O que será é o que é e isso importa. E, pensando no que chamam por aí de livre-arbítrio, fico com o livre e dispenso o arbítrio, que é muito empavonado por meu gosto de desaforada.
Nem na direção, nem na gerência, nem na coordenação. Nenhum posto, só um porto.
Penso na presença.
Hoje é que vale, isso ensina o Urano que teimo em desafiar.
Passado, se bate à porta, é oi e tchau. Futuro, desculpem, estou muito ocupada tratando de escolher o agora. O que será é o que é e isso importa. E, pensando no que chamam por aí de livre-arbítrio, fico com o livre e dispenso o arbítrio, que é muito empavonado por meu gosto de desaforada.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2005
Uranóidicamente
- Tome ortomoleculares.
- Hã?
- Remédios...ortomoleculares. Por que vc não toma?
- Pra que?
- É moderno e dizem que emagrece.
- E você com isso?
- Tenho que sugerir novidades.
- Pra que?
- Pra sua vida não ser um tédio. Deve ser horrível ter tanto planeta em Capricórnio, na casa 10.
- Olha quem fala...você está em Virgem!
- Hehehe...isso não é nada banal. O caos em Virgem é sempre novidade.
- Não acho você tão caótico. Você tem sido brando, embora sempre ativo.
- Isso é um desafio? Posso mudar tudo delugar na sua vida já, já - e ainda te provocar crises alternadas de diarréia com prisão de ventre...
- Ops, calma lá, não se trata de desafio. Fique quieto aí, por favor.
- Agora você pediu muito.
- Ok, então continue como está, por favor.
- Hummm...não sei,não...está me dando vontade de esculhambar a mesmice.
- Que mesmice, criatura? Que mesmice? Tem seis meses que mudamos radicalmente a rotina, você quer mais?
- Hehehe...pergunta de novo...
- Pára! Calado! Tem um stellium em Capricórnio te dizendo pra segurar a onda!
- Onda, filha? Pega a tua prancha de surf e vou te mostrar o que é onda.
- Jura?
- Juro!
- Maneiro!
- Tome ortomoleculares.
- Hã?
- Remédios...ortomoleculares. Por que vc não toma?
- Pra que?
- É moderno e dizem que emagrece.
- E você com isso?
- Tenho que sugerir novidades.
- Pra que?
- Pra sua vida não ser um tédio. Deve ser horrível ter tanto planeta em Capricórnio, na casa 10.
- Olha quem fala...você está em Virgem!
- Hehehe...isso não é nada banal. O caos em Virgem é sempre novidade.
- Não acho você tão caótico. Você tem sido brando, embora sempre ativo.
- Isso é um desafio? Posso mudar tudo delugar na sua vida já, já - e ainda te provocar crises alternadas de diarréia com prisão de ventre...
- Ops, calma lá, não se trata de desafio. Fique quieto aí, por favor.
- Agora você pediu muito.
- Ok, então continue como está, por favor.
- Hummm...não sei,não...está me dando vontade de esculhambar a mesmice.
- Que mesmice, criatura? Que mesmice? Tem seis meses que mudamos radicalmente a rotina, você quer mais?
- Hehehe...pergunta de novo...
- Pára! Calado! Tem um stellium em Capricórnio te dizendo pra segurar a onda!
- Onda, filha? Pega a tua prancha de surf e vou te mostrar o que é onda.
- Jura?
- Juro!
- Maneiro!
quinta-feira, 16 de dezembro de 2004
Ela tinha uma saia rodada
Sob a qual circulavam mil pernas
Em passos às vezes incertos
Mas sempre ritmados.
Tinha um cabelo de nós e laços
Que escondiam pensamentos mulatos
Como numa mandala as imagens se sucediam
Brancas e negras, em velocidade de confundir.
Ela ria. Ah, como ela ria,
Isso sim. Ela ria.
E o mundo ao redor se regojizava,
A cada gargalhada que se esvaía
A cada suspiro de retomar o ar,
Que era tudo de que ela precisava para ir adiante.
Além do ar, a água dos olhos,
A terra debaixo das unhas
O fogo do espírito. Hare-ave-aieiê.
E a nêga se reinventava.
Sob a qual circulavam mil pernas
Em passos às vezes incertos
Mas sempre ritmados.
Tinha um cabelo de nós e laços
Que escondiam pensamentos mulatos
Como numa mandala as imagens se sucediam
Brancas e negras, em velocidade de confundir.
Ela ria. Ah, como ela ria,
Isso sim. Ela ria.
E o mundo ao redor se regojizava,
A cada gargalhada que se esvaía
A cada suspiro de retomar o ar,
Que era tudo de que ela precisava para ir adiante.
Além do ar, a água dos olhos,
A terra debaixo das unhas
O fogo do espírito. Hare-ave-aieiê.
E a nêga se reinventava.
terça-feira, 23 de novembro de 2004
Recebido de uma assessora de imprensa...
O título do e-mail dizia: saiba como evitar o "Tchauzinho Maria Mole". A curiosidade mata gatos e seres humanos. De rir, nesse caso, por conta da mensagem copiada abaixo, na íntegra.
"Prezado (a) jornalista,
O músculo Tríceps Braquial, popularmente conhecido como o músculo do tchauzinho, pode começar a "despencar". Entre os motivos a flacidez, a alimentação irregular e a genética estão associadas.
Para combater o Tchauzinho Maria Mole o professor de Educação Física e instrutor de Musculação da Trixblabla Academia, Fulano das Quantas (eu sou má mas não sou sacana de dizer o nome do cara), dá algumas dicas.
Mais informações, estamos à disposição.
obrigada
um abraço
Jornalista das Candongas" (também não vou entregar a colega).
Tchauzinho Maria Mole??? Isso é genial. "Despencar"? As aspas são geniais!
Se eu tivesse muito dinheiro sobrando, abriria uma empresa de assessoria de imprensa pra inundar a caixa-postal dos colegas com essas pérolas.
O título do e-mail dizia: saiba como evitar o "Tchauzinho Maria Mole". A curiosidade mata gatos e seres humanos. De rir, nesse caso, por conta da mensagem copiada abaixo, na íntegra.
"Prezado (a) jornalista,
O músculo Tríceps Braquial, popularmente conhecido como o músculo do tchauzinho, pode começar a "despencar". Entre os motivos a flacidez, a alimentação irregular e a genética estão associadas.
Para combater o Tchauzinho Maria Mole o professor de Educação Física e instrutor de Musculação da Trixblabla Academia, Fulano das Quantas (eu sou má mas não sou sacana de dizer o nome do cara), dá algumas dicas.
Mais informações, estamos à disposição.
obrigada
um abraço
Jornalista das Candongas" (também não vou entregar a colega).
Tchauzinho Maria Mole??? Isso é genial. "Despencar"? As aspas são geniais!
Se eu tivesse muito dinheiro sobrando, abriria uma empresa de assessoria de imprensa pra inundar a caixa-postal dos colegas com essas pérolas.
O que será que as pessoas pensam quando andam dentro de ternos e tailleurs? Quando carregam laptops pendurados como se fôssem troféus e usam crachás bacanudos...quando falam ao celular como se estivessem decidindo o destino do mundo, e sacam seus cartões de visitas de dentro dos bolsos ou caixinhas moderninhas que servem para carregar o que elas acham que são? O que será qua as pessoas pensam? Que a vida há de lhes trazer mais dinheiro, mais reconhecimento, mais importância, mais oportunidades de trabalho, mais destaque - deve ser isso. Devem pensar que vão a algum lugar melhor, dali onde estão, empavonadas, se fizerem tudo certinho. Há que se dizer a coisa certa, ter a opinião certa, adotar a posição política mais conveniente, mostrar que se sabe o que esperam que seja sabido, ser igual aos bons.
Eu acho uma chatice isso tudo. Eventos, hotéis, laptops, cartões de visita. Ser igual aos bons. Eca. Almoçar com o fulano que alguém disse que é importante. Eca. Tudo em nome da sobrevivência? Eca. Dispenso o sobre, fico com a vivência.
Eu acho uma chatice isso tudo. Eventos, hotéis, laptops, cartões de visita. Ser igual aos bons. Eca. Almoçar com o fulano que alguém disse que é importante. Eca. Tudo em nome da sobrevivência? Eca. Dispenso o sobre, fico com a vivência.
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