domingo, 19 de novembro de 2006


Eu amo esse mês escorpiano. Os anúncios de verão. Os picos de primavera em mim e ao meu redor. Um vento mais morno entre as árvores, a luz rosa das seis da manhã. Tudo que eu planto, dá.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

A Elza Soares berrando no Ipod, peguei o sabão em pó em promoção, as flores amarelas também. Fui de plataforma, fui de barriga de fora, tudo que eu posso enquanto dá. Sem vergonha de requebrar com a bateria da Mocidade Independente, assim tem sido.

Canto alto. Quem quiser que escute - na fila.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Te adorando.
Daqui eu fico, detrás da escrivaninha, atenta ao som do freio antes do quebra-mola.
O que me embalou o dia foi a lembrança da tua nuca no travesseiro, no lusco-fusco das quatro da manhã.
Você chega, eu desabrocho com a lua que sobe.

domingo, 17 de setembro de 2006


Eu acredito muito que todo mundo precisa de um herói ou heroína. Também acredito que todo mundo precisa de um mito e que todo mundo precisa de uma missão.

Estamira me fez chegar mais perto dessas três coisas - de minha heroína, de meu mito, de minha missão.

Ela revela as verdades na sua pureza, na sua lucidez, na sua sagrada invisibilidade.

domingo, 3 de setembro de 2006

:::Só um minuto:::

No dia 17 de setembro, não perca:
Just-a-minute (Só um minuto) - uma iniciativa mundial que visa despertar a consciência de que todos nós temos a capacidade, o poder e a responsabilidade de criar um mundo melhor

Utilizando tecnologia multimídia, teatro, música, dança e conexão de alta velocidade, será apresentado, ao mundo, um modo de vida pacífico, através do poder de intervalos de um minuto de silêncio. 100 países estarão interligados em transmissão simultânea.
Da Arena de Wembley (Londres) o mundo estará interconectado em Just-a-minute: http://www.just-a-minute.org

Só-um-minuto é fácil, simples e acessível a qualquer um, em qualquer lugar do mundo, de qualquer raça, religião ou em qualquer circunstância. Seja na política, nas finanças, nas artes,
na educação, nos esportes, em casa ou durante qualquer outro tipo de atividade, só-um-minuto pode contribuir com excelência, com integridade e com os valores mais elevados para um mundo que está em acelerada transformação.
Quando nós mudamos, o mundo muda…

Este projeto belíssimo da Brahma Kumaris está sendo lançado mundialmente em 17 de setembro de 2006, domingo, das 12:00 às 14:30. No Rio, as atividades acontecem no Teatro João Caetano, Centro - Rio de Janeiro - RJ. A entrada é franca.

Dê a si mesm@ o minuto! Você e seu mundo merecem.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Leia o Apelo internacional – Por um cessar-fogo imediato e incondicional.
Assine aqui.
E veja quem assinou.

sexta-feira, 28 de julho de 2006

Minha amiga me disse: "fracassei exitosamente".
Haja sabedoria.
Entre um ceviche e outro, descubro que o melhor de Quito é me sentir confortável entre vulcoes que podem cuspir fogo de uma hora pra outra.

sexta-feira, 14 de julho de 2006

Está lá, no arquivo:

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Quarta-feira, Julho 11, 2001

Recado do Hans:
*saudade*, no visor do celular.
Meu precioso amigo me ajudou a descobrir o Renato Russo numa hora em que eu queria morrer - ou matar alguém, sei lá.
"O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido, ninguém prometeu".
Não é que é mesmo?
Custou pra cair a ficha, mas anos depois ninguém precisa cantar pra me lembrar:
"nem foi tempo perdido."
Hans é sabido. E querido. Como a maioria dos cachorros vadios que eu conheço.
É gente da minha espécie. Morre, não deita e renasce - três vezes por dia.

posted by Bellatrix @ 8:38 AM

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O que vinha mesmo depois, na poesia? "Nem foi tempo perdido"...
"somos tão jovens, tão jovens".
Hans é jovem. Sempre será. Assim como sempre será querido. Onde quer que vá, onde quer que esteja, é como eu - morrendo e renascendo.
Não foi tempo perdido, querido. Tão jovem. Vou cantar pra te lembrar, sempre.
Saudades - em todos os visores.

quinta-feira, 13 de julho de 2006

Para viver a paixão com compaixão é preciso despir-se. Tirar, peça por peça, de cima de si os anos, as palavras repetidas sem inocência, as memórias e seus mecanismos encarceradores, os véus.

Desnudar-se é a única forma de mergulhar na paixão compassiva, aquela que liberta e cura, a que desvenda e revela. Nus, não precisamos de reflexos - não há nada que possa estar no lugar errado, nada que não combine ou destoe.

Nus, nós somos únicos, íntegros, generosos, corajosos - e aí sim, podemos ser compaixonados.

segunda-feira, 12 de junho de 2006

Porque um dia ela acordou e ainda era tarde.
Seu amigo invisível lhe apontou Bellatrix no céu. Tantas palavras para o céu acima, a Bellatrix distante.

O amigo invisível pousou o indicador sobre os lábios, e em seus olhos se lia: caluda...ninguém ousaria desobedecer.

Um pássaro desorientado no espaço e no tempo bateu forte contra a janela, lhe causando calafrios. Memórias coloridas, emplumadas, voadoras, afoitas.

Voltou para a cama, o corpo pedia. O céu púrpura delatava - ainda era cedo.

domingo, 14 de maio de 2006

Está lá no Abraham Hicks:
There are as many different worlds being lived by as many different perceivers of the world as there are.

Eu gosto muito do mundo que percebo.
É um mundo de flores secas no caldeirão da trisavó.
Mundo de hibiscos-colibri e colibris sem-vergonha.
É um mundo apaixonado, um mundo de cremes doces, de pé de pimenta.
Gosto do mundo que percebo - múltiplo, como as estrelas que empoeiram meu teto.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Uma garrafa e meia de vinho à beira da piscina.
Três caquis no pé, incontáveis pitangas, até as do chão, as mais gordas, irresistíveis.
Quarenta minutos de corrida ao som do Black Eyed Peas, lose control, all body all soul, serotonina não excede jamais e o suor me energiza.
A vida não foi feita pra gente comer de garfo e faca. Desavergonhadamente lambo os dedos.

domingo, 23 de abril de 2006

"Quero dizer, com toda seriedade, que muitos malefícios estão sendo causados no mundo moderno pela crença no caráter virtuoso do trabalho, e que o caminho da felicidade e da prosperidade é a sua redução organizada". Bertrand Russel, O Elogio ao Ócio.

Acho que um pouco mais de ócio salvaria almas. Pra mim, a cadeira de balanço é um altar.

domingo, 19 de março de 2006

Me interessa demais o pós-morte. Gostaria muitíssimo de encontrar mais pessoas pós-mortas. Um dia, vou enviar cartas do pós-morte para pessoas queridas, que amo, mas que ainda não aprenderam a morrer.

Lamento às vezes pelos quase-vivos...e aí estou incluída, nos dias de esquecimento. Se eu fosse um pouco mais religiosa, acenderia velas por todos os quase-vivos. Uma vela roxa pela ambição quase-viva de permanência, de segurança, de estabilidade. Uma vela amarela pelo desejo quase-vivo de reconhecimento e respeito...ah, o respeito! Uma vela azul-marinho pela mediocridade dos dias sem susto e sem improviso, aqueles dias bem conhecidos dos quase-vivos - dias de pisar nas florezinhas do caminho, nos quereres, nos sonhos, nos ex-amores, ex-mestres, ex-amigos.

Uma vela negra pela quase-vida dos que se crêem - ou se pretendem - importantes e uma mini-vela escarlate por cada palavra e gesto quase-vivo de tentar impressionar.

Deveria ser criado o dia dos ex-mortos, um dia depois do dia de nenhum santo, do dia de todos os pecadores, ou do dia de todos os esquecidos. Seria um dia de gargalhadas intermináveis, de cânticos que nos fizessem dançar, de farra, mesmo. Daquelas, bacantes, cujo superego dos quase-vivos não hesitaria em condenar. Não seria necessariamente uma festa da carne, mas seguramente uma festa da vida pós-morte em vida. De carne, osso, fruto e espírito, alma e consciência, sexo manifesto e imanifesto, fome e saciedade de tudo que é verdadeiro e efêmero. A festa da presença, a festa do agora.

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Onde os anos não aparecem...

Nas rugas da testa, não. Nem nos cabelos, que agora eu pinto. Não aparecem nas mãos, que são saltitantes e se movem com autonomia, nem no ritmo do meu passo, porque sempre que eu quero, corro.

Os anos aparecem, sim, nas gargalhadas que já não consigo segurar como antes - ainda que sinta uma certa vergonha depois da explosão. Aparecem no tênis do filho, número 40 e nas contas da amiga que se orgulha dos quase 30 anos de amizade. Aparecem no número menor de garrafas de cerveja, no leite de soja na geladeira e na paciência de semear flores no canteiro, quando eu poderia comprar as mudas crescidas.

Os anos aparecem nos olhos, mas nunca nos sonhos.

sábado, 24 de dezembro de 2005

"Para a Mãe Terra, nos ensinam os anciãos, não há árvores melhores que outras, nem plantas melhores que outras e nem mesmo peixes melhores que outros.
Quando o homem acha que há árvores que são melhores que outras ou plantas melhores que outras ou, ainda, peixes melhores que outros, também pensa que há seres humanos melhores que outros e que esses outros devem desaparecer, para que vivam apenas os que são melhores.

A solidariedade não se decreta e nem se impõe: ela desperta quando descobrimos que somos filhos da Mãe Terra e irmãos de uma mesma espécie."


Manuel Muñoz Millalonko
Armando Llaitureo Mankemilla
CONSEJO GENERAL DE CACIQUES WILLICHE DE CHILOÉ

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

- Pega o mapa, criatura.
- Mas eu não entendo os risquinhos...
- Não precisa entender, só me diz o nome desse risco aqui, ó, pra eu saber onde a gente está.
- Peraí...estamos na grande...quero dizer na quadra...não, esse risco aqui, acho que diz que estamos no triângulo...ah, não sei!
- Agora é que danou-se, mesmo. ESSE rabisco aqui, ó. O que tá escrito?
- Tá escrito aqui que a gente tá no caminho certo.
- Tem certeza?
- Acho que tenho.
- Onde você leu isso?
- No pontinho do meio do círculo.
- Perfeito. Até que enfim você aprendeu a desvendar mapa astrológico.
- Mas eu disse que não sei.
- E eu disse a mesma coisa.
- Então tá. Toca o carro aí.
- Estou tocando. E tira o cinto, por favor.


Cuidado: cão voluntarioso,
genioso
e apaixonante
fazendo aniversário
de meio ano.

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Hoje foi dia de lembrar frases dos antigos.

De Protágoras, "O homem é a medida de todas as coisas".

De Balzac, "A resignação é um suicídio cotidiano".

Do meu avô (ou melhor, repetida por ele), "O que a gente leva da vida é a vida que a gente leva".

Afinal, a linguagem é ou não é a casa do ser?
Pra mim, a casa do ser é o silêncio. Perto dele, a linguagem é um puxadinho ainda sem embolso.

Que difícil dizer isso!!!!

terça-feira, 1 de novembro de 2005

Por que o mês onze começa com nove?
Por que o mês nove começa com sete?
Hoje é dia de todos os santos e não devia ser dia de questionamentos.
Ontem foi dia das bruxas.
Amanhã será dia dos mortos.
Hoje é dia.

sábado, 15 de outubro de 2005

A vida é filme.

sábado, 17 de setembro de 2005

Passei os últimos meses mudando. De casa, de cidade, de vida. Vou mudar mais, ainda. O melhor da mudança tem sido o tempo de pensar. Na estradinha sinuosa que leva até minha nova e temporária casa, eu penso, esqueço, despenso e tenho momentos de êxtase. O verde extasia, o sabiá extasia, o ar frio extasia. Olho tudo ao redor e vejo que onde quer que eu vá, estou sempre no lugar certo.

Voltei a obervar a vida de um outro ponto, mais atrás das lentes dos olhos. Isso me fazia falta, eu andava sem tempo pra duvidar dos pensamentos. Agora ensaio uma nova alforria da mente, feliz por me dar conta que a frase lida no cartaz do consultório do dentista é verdade: a consciência, uma vez expandida, nunca volta ao seu tamanho original.

Celebro a cozinha e a vista para a pedra nevoenta às seis da manhã. As orquídeas florescem, os amigos estão mais próximos do que nunca, porque meu coração se apazigua no silêncio absoluto da noite, só entrecortado pelos cães. As palavras ressurgem, me supreendem por sua imprevisibilidade e começo a me dispor a ser mais disciplinada com elas. É um próximo passo.

O passado bate à porta, mas é a porta da rua. Digo oi da janela do andar de cima e lamento não poder atender agora. Passado passa.

O presente é assim, permanente e abençoado por mim. Tudo ao redor resplandece, e embora às vezes o espelho me pegue de surpresa mostrando os anos e algum cansaço que ficou do caminho, dou graças pelo que o tempo fez de mim.

O futuro é mudança. Espiral-expansão-vida. Vou passar os próximos meses mudando.

segunda-feira, 13 de junho de 2005

"Eu vou te jogar num pano de guardar confetes".
A música não sai da minha cabeça - nem os confetes.
Depois da negritude de um tempo em que eu atravessei o samba, há anos...alguns anos...aprendi a guardar confetes. Entre os meus neurônios, ali estão, alternando-se com as serpentinas disparadas pelos beijos amorosos que a vida me dá. Bolos de confetes explodem em sinapses, de vez em quando - muitos deles, sem motivo aparente. Descobri que o maior aprendizado dessa vida é a arte de guardar - e jogar - confetes, em mim e ao meu redor, no raio mais amplo possível.

segunda-feira, 16 de maio de 2005

Eu estava de saco cheio de uma cidade onde não se vê gente nas ruas no domingo à tarde. Andava há mais de hora, eu e meu amigo João, por ruas quase desertas - rimos do fato de estarmos na porta de entrada para o Oeste norte-americano, numa cidade quase fantasma: uma parte de Saint Louis é um set perfeito para a versão moderna dos westerns onde venta em ruas vazias, com casas de portas e janelas cerradas, sacos plásticos vazios rolando com o vento no meio do asfalto. Andávamos quadras e quadras sem ver viva alma.

Até chegarmos ao Grand Center. Ali havia gente. Café aberto, teatro lotado. Continuamos rindo de coisas - pessoas esquisitas, gatos, cachorros, american way of life. E andamos um pouco mais, até a igreja Saint Francis Xavier, onde paramos na esquina. Em frente à igreja, ali sim, havia gente.

Umas 15 pessoas - não mais - em vigília. Manifestavam-se contra a guerra, com velas nas mãos, em pé nas escadas, abaixo delas um senhor segurava um microfone e fazia funcionar um pequeno equipamento de som de onde vinha uma música meio melosa. Nas mãos, as pessoas seguravam papéis com números escritos e na avenida em frente, a sinal abria e fechava, os carros paravam, alguns motoristas olhavam e uma das manifestantes fazia o sinal de paz e amor.

Ficamos ali na esquina até o final da vigília. Quando a música silenciou e as pessoas começaram a sair da escada da igreja, fomos ver o que significavam os números e falar com aquela gente. O que passou em seguida não sei descrever nem explicar, mas fomos acolhidos naquela força e compartilhamos aquela dor, que também era nossa e talvez tivéssemos esquecido por um tempo. Ali nós choramos - e choramos de verdade - abraçados à Mary, uma senhora miúda de cabelos brancos. Uma criatura enorme, junto com seus companheiros que se reúnem em frente à Saint Francis Xavier Church todos os domingos, desde o 11 de setembro, pra dizer "Not in our names". Conversamos com Mary, Mark, Deborah, e foi muito difícil sair dali, de verdade. Difícil dar as costas e andar pra longe daquele grupo. Difícil entender o que passou, difícil esperar o ônibus no vento, difícil segurar o choro mesmo depois de atravessar a rua.

Antes de irmos, ouvimos da Mary: vocês sempre estarão conosco nesta esquina, daqui pra frente.

Isso foi fácil de entender. Posso atravessar o oceano, quantos forem. Passar o tempo, passar pelo tempo, ficar de cabelos brancos como aquela senhora - vou continuar naquela esquina. Definitivamente, uma parte de mim ficou ali e uma nova versão de mim saiu dali. Uma versão mais inteira, melhorada. Abduzida do lugar do julgamento. Orgânica.

Grande Saint Louis.

quarta-feira, 23 de março de 2005

Eu sou desaforada, sim. Mas não penso na presidência.
Nem na direção, nem na gerência, nem na coordenação. Nenhum posto, só um porto.
Penso na presença.
Hoje é que vale, isso ensina o Urano que teimo em desafiar.
Passado, se bate à porta, é oi e tchau. Futuro, desculpem, estou muito ocupada tratando de escolher o agora. O que será é o que é e isso importa. E, pensando no que chamam por aí de livre-arbítrio, fico com o livre e dispenso o arbítrio, que é muito empavonado por meu gosto de desaforada.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2005

Uranóidicamente

- Tome ortomoleculares.
- Hã?
- Remédios...ortomoleculares. Por que vc não toma?
- Pra que?
- É moderno e dizem que emagrece.
- E você com isso?
- Tenho que sugerir novidades.
- Pra que?
- Pra sua vida não ser um tédio. Deve ser horrível ter tanto planeta em Capricórnio, na casa 10.
- Olha quem fala...você está em Virgem!
- Hehehe...isso não é nada banal. O caos em Virgem é sempre novidade.
- Não acho você tão caótico. Você tem sido brando, embora sempre ativo.
- Isso é um desafio? Posso mudar tudo delugar na sua vida já, já - e ainda te provocar crises alternadas de diarréia com prisão de ventre...
- Ops, calma lá, não se trata de desafio. Fique quieto aí, por favor.
- Agora você pediu muito.
- Ok, então continue como está, por favor.
- Hummm...não sei,não...está me dando vontade de esculhambar a mesmice.
- Que mesmice, criatura? Que mesmice? Tem seis meses que mudamos radicalmente a rotina, você quer mais?
- Hehehe...pergunta de novo...
- Pára! Calado! Tem um stellium em Capricórnio te dizendo pra segurar a onda!
- Onda, filha? Pega a tua prancha de surf e vou te mostrar o que é onda.
- Jura?
- Juro!
- Maneiro!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

Ela tinha uma saia rodada
Sob a qual circulavam mil pernas
Em passos às vezes incertos
Mas sempre ritmados.

Tinha um cabelo de nós e laços
Que escondiam pensamentos mulatos
Como numa mandala as imagens se sucediam
Brancas e negras, em velocidade de confundir.

Ela ria. Ah, como ela ria,
Isso sim. Ela ria.

E o mundo ao redor se regojizava,
A cada gargalhada que se esvaía
A cada suspiro de retomar o ar,
Que era tudo de que ela precisava para ir adiante.

Além do ar, a água dos olhos,
A terra debaixo das unhas
O fogo do espírito. Hare-ave-aieiê.
E a nêga se reinventava.

terça-feira, 23 de novembro de 2004

Recebido de uma assessora de imprensa...
O título do e-mail dizia: saiba como evitar o "Tchauzinho Maria Mole". A curiosidade mata gatos e seres humanos. De rir, nesse caso, por conta da mensagem copiada abaixo, na íntegra.

"Prezado (a) jornalista,
O músculo Tríceps Braquial, popularmente conhecido como o músculo do tchauzinho, pode começar a "despencar". Entre os motivos a flacidez, a alimentação irregular e a genética estão associadas.

Para combater o Tchauzinho Maria Mole o professor de Educação Física e instrutor de Musculação da Trixblabla Academia, Fulano das Quantas (eu sou má mas não sou sacana de dizer o nome do cara), dá algumas dicas.

Mais informações, estamos à disposição.
obrigada
um abraço
Jornalista das Candongas" (também não vou entregar a colega).

Tchauzinho Maria Mole??? Isso é genial. "Despencar"? As aspas são geniais!
Se eu tivesse muito dinheiro sobrando, abriria uma empresa de assessoria de imprensa pra inundar a caixa-postal dos colegas com essas pérolas.
O que será que as pessoas pensam quando andam dentro de ternos e tailleurs? Quando carregam laptops pendurados como se fôssem troféus e usam crachás bacanudos...quando falam ao celular como se estivessem decidindo o destino do mundo, e sacam seus cartões de visitas de dentro dos bolsos ou caixinhas moderninhas que servem para carregar o que elas acham que são? O que será qua as pessoas pensam? Que a vida há de lhes trazer mais dinheiro, mais reconhecimento, mais importância, mais oportunidades de trabalho, mais destaque - deve ser isso. Devem pensar que vão a algum lugar melhor, dali onde estão, empavonadas, se fizerem tudo certinho. Há que se dizer a coisa certa, ter a opinião certa, adotar a posição política mais conveniente, mostrar que se sabe o que esperam que seja sabido, ser igual aos bons.

Eu acho uma chatice isso tudo. Eventos, hotéis, laptops, cartões de visita. Ser igual aos bons. Eca. Almoçar com o fulano que alguém disse que é importante. Eca. Tudo em nome da sobrevivência? Eca. Dispenso o sobre, fico com a vivência.

sexta-feira, 5 de novembro de 2004

Eu olhei a Mona Lisa nos olhos. É verdade que o olhar dela segue a gente. Tanta confusão diante de um quadro pequeno, solitário numa parede enorme, isolado atrás do vidro. Diante dela, uma quase-multidão se acotovelando sem entender nada. Sorriso enigmático? Com certeza. Mas eu posso apostar que ela pensa, lá de trás do vidro: "seus babacas"! Ô mulher debochada!

segunda-feira, 1 de novembro de 2004

Um babuíno sorriu pra mim. Deve haver algum trânsito bom no meu céu.
O céu da África sempre me encanta, e o céu africano sobre o Oceano Índico é insuperável. Babuínos que assustam e divertem, pinguins em fila, graciosos, à beira-mar, multilínguas, multiculturas, comida picante e doce ao mesmo tempo, calor e frio. Mil estrelas no céu africano. A vida é bela e o vento me faz feliz.

sexta-feira, 15 de outubro de 2004

Please allow me to introduce myself
I'm a man of wealth and taste
I've been around for a long long year stolen many man's soul and faith
I was around when Jesus Christ had His moment of doubt and pain
Made damn sure that Pilate washed his hands and sealed His fate
Pleased to meet you hope you guess my name
But what's puzzling you is the nature of my game


Noite passada, vi de novo na TV "O Advogado do Diabo".
Amo esse filme.
"A vaidade é o meu pecado preferido", diz o fascinante diabo na pele do Al Pacino.
Pleased to meet you - we do agree on this ;-)

quinta-feira, 7 de outubro de 2004

Ele gosta da minha letra e dos intervalos entre as minhas linhas.
Gosta quando falo, gosta da minha língua,
gosta quando sou ininteligível.
Ele se compraz com meu ritmo e com minha métrica.
Não se incomoda quando perco uma boa rima.
Até na minha prosa ele é feliz.
Com ele, componho de tudo.

terça-feira, 28 de setembro de 2004


Borboleta Posted by Hello

sexta-feira, 3 de setembro de 2004

Ante-passado

Na ante-câmara do lugar onde se escondem meus segredos
eu vi meus antepassados alegres e joviais.
Vi meu presente tímido.
Não vi meu futuro porque isso não é da minha conta.
Finalmente pude perceber,
os anos passam,
as efemérides se repetem
e nada é igual. Nada redondo,
tudo espiral.

quinta-feira, 2 de setembro de 2004

Ela fabrica aviões terroristas. Vontade de destruir um monte, eu entendo perfeitamente.
Ele engole chôro. Chuta dever pro alto. Me olha de canto de olho, se cala. Entendo perfeitamente.

Um dia um amigo pra lá de analisado soltou a seguinte pérola: "quem tem pai tem medo". Eu perdi meu pai bem cedo. Eles também, de certa forma. Só que tive mais sorte. Pai, melhor morto que inconseqüente.

quarta-feira, 11 de agosto de 2004

Porque hoje são 11

Eu gosto de agosto, até no dia 13. Mas hoje, por ser 11, resolvi me preparar e entrei numa loja de artigos religiosos (leia-se macumba) pra comprar umas velas coloridas. Não me considero macumbeira, mas adoro um cheiro de defumador e acho vela colorida lindo.

Estava no balcão, entregando as velas para um senhor surdo e mal-humorado, cuja mulher fazia as vezes de RP da casa, exagerando no sorriso em contrapartida a cada resmungo do velhinho. Encostei sem querer numa pilha de pratinhos de plástico preto (daqueles de aparar água de vaso de plantas), e caiu tudo no chão. Um rapaz correu em meu socorro e prontificou-se a juntar os pratinhos e refazer a pilha.

"É uma torre", ele me disse."
Derrubei a torre, pensei - agradecendo ao rapaz e aos deuses e deusas. Como um raio da Oiá no arcano do Tarot.

Que alívio! E hoje são 11, nem são 16. Dia da Força de derrubar torres.

Dia 16, dia da Torre, Martha Pires Ferreira lança livro - magnífico, eu imagino - sobre astrologia na Livraria Leonardo Da Vinci, no Rio. Às 18:04. Leitura imperdível.

quinta-feira, 13 de maio de 2004

Uma das características das grandes revelações que acontecem na vida da gente é que elas chegam quando são mais necessárias. As revelações desnecessárias simplesmente não são percebidas, porque não se encaixam em nenhum processo, nenhum contexto que lhes dê sentido. Podem ser importantes mas, porque não somos capazes de apreendê-las, se tornam desnecessárias. É por isso que lemos milhares de palavras, abrimos dezenas, centenas de livros, consumimos um número incontável de informações até que – tchan! - uma faz sentido e muda nossa vida. Às vezes, três palavras são suficientes pra nos fazer entender que tudo o que temos feito é uma grande bobagem – ou não. Na maioria das vezes, é, sim, uma grande bobagem.

Pois abri outro dia desses um livro sobre física quântica e coisas que tais, mudanças de paradigmas, e tudo isso que os arautos da Nova Era têm proposto e popularizado nos últimos anos. Está escrito lá que a matéria, todos os corpos, são 99,9999 por cento espaço vazio. Na mesma hora, uma grande interrogação se acendeu na minha cabeça: por que diabos eu faço dieta??

terça-feira, 11 de maio de 2004

Os maus pensamentos são como bolhas de sabão: a gente sopra e eles geralmente estouram, vão embora. O problema das bolhas de sabão é que às vezes, quando estouram, pinga aquela água ensaboada no olho da gente e arde muito. Com os maus pensamentos também é assim. Tem horas em que eles estouram, respingam e a gente chora.

Mudando de pesamento...

quinta-feira, 29 de abril de 2004

E quando Shiva Nataraja dança, tudo perece e se recria - o fogo ao redor é vida, os olhos parados, consciência.

Quando ele dança, quem é esperto descansa.

segunda-feira, 12 de abril de 2004

Na quinta-feira santa tive um acesso de vômito de palavras. Falei para quase estranhos sem parar, sobre um tema que carrego desde que me entendo.

Passei a sexta-feira em penitência. Que vergonha da verborragia! Mal saboreei o jantar. Fui chata.

No sábado, aleluia! Meus excessos não costumam ser à toa (diferentemente de minhas penitências). Entrei numa livraria de Ipanema e encontrei "A Deusa Branca", do Robert Graves. Há anos pensava em comprar esse livro. Foi preciso ser tratorada pelo inconsciente pra finalmente ir ao seu encontro.

quarta-feira, 31 de março de 2004

No meio de muita coisa importante sempre tem uma desimportante. Essa coisa desimportante faria a vida diferente.
Com gente, é a mesma coisa. Eu gosto de gente desimportante. Essas fazem o mundo diferente.
;-p

sexta-feira, 19 de março de 2004

Ilê Omolu e Oxum, Ilê Yá Omim Dayê Axé Obalayó, Ilê Axé Gantois, Ilê Axé Oxumarê, COMDEDINE, ASS. AFRO-SEC., CEAP, CETRAB,
Koinonia, ICAPRA, COBRA, NEXPP, Cia. É Tudo Cena!, FENACAB, IRMAFRO, INAEOSSTECAB, Afoxé Filhos de Gandhi...e EU!

Todos de branco, na minha área - vai ter passeata no Leme, a partir das oito da manhã (o horário é ingrato, mas o Ilê merece o esforço).

Dia 21 de março é "Dia Internacional pela Eliminação da
Discriminação Racial". Essa data foi criada em memória do massacre de Sharpeville
(1960), África do Sul. Desde então dia 21/03 está agendado em todo mundo para
mobilização e reflexão contra a intolerância racial e pela liberdade de expressão.

Oscilando entre um Eparrei! e um Ora Iê Iê Ô, eu vou lá conferir a irmandade. Em homenagem à minha vó libanesa (cristã maronita radical), meu avô italiano, (kardecista radical) e meu pai (um medroso radical de tudo que fôsse do além). Vou de nega radical abrir a boca contra a intolerância. Tô apostando que no domingo de São Miguel a nêga vira na Oxum, chora tudo que é preciso pra ser feliz, e depois empunha a espada e solta gargalhada bem alto...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004

A água tá cara. E vai ficar mais ainda. A lata dela tá cheia. Equilibrada na cabeça, não desperdiça nenhuma gota, por mais sacolejo inesperado ou remelexo proposital. Não cai um pinguinho da lata da nêga, plena até a borda, cintilante quando bate sol.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2004

Nã há incômodo nenhum em sambar na chuva. Sequer uso solas antiderrapantes, porque faz parte do meu show o swing inesperado em busca do equilíbrio - e até o estabaco, quando é o caso. Não pode dizer que sabe sambar quem tem medo de cair.
A fantasia encharcada também não me amola. Se as penas murcham, as lantejoulas descolam e os cetins grudam no corpo, a gente canta o samba mais alto. Afinal, nasci berrando e sem fantasia...Nada como um rebirthing na avenida.
A chuva traz um efeito especial imprevisto e lindo. Quando a água toca a pele de quem, de fato, ferve na passarela, sai fumaça. Então ficam, os seres em ebulição, cercados da aura de vapor - quase inefáveis.
E aí, mais do que nunca, eu converso com Deus.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004

Comprei um pão a metro, meio metro de bordado inglês pra uma toalha de rosto, corri quilômetros esta semana e devo ter diminuído uma polegada na cintura.
Talvez eu me sentisse mais bacana se tivesse mais cinco centímetros de altura. Mas não há de ser nada. Tenho cada salto assim, Ó!

Tinha uma nêga que tinha um tamborim e um chicotinho de bater tamborim que enlouquecia a bateria inteira. Não porque fôsse exímia em nada - nem no samba, nem no batuque.
Mas é que ela inventava. Em cima da plataforma, fazia de tudo. E as percussões, os passistas, os mestres apitantes e os destaques dos píncaros, ficavam todos irritados. Tudo hesitava e se descontrolava quando a nêga cismava de inventar. Era um passo esquisito, um repique solitário, fora de hora, uma frase que não existia no samba. Era assim que ela sabia o Carnaval. E o resto, se aturdia.
Tinha gente que pensava que ela era louca e se incomodava com os imprevistos da nêga.
Ela nunca se amolou. Não tinha medo. Era feliz, e bem o sabia.

sexta-feira, 3 de outubro de 2003

Acho que meus cabelos já estão grandes o suficiente pra receber flores, rolinhos e presilhas.
Achei que nunca mais conseguiria deixá-los crescer, depois de 12 anos de nuca de fora. É gostoso o movimento dos fios, isso me agrada. Sempre posso mostrar a nuca de outras formas, quando tiver vontade.

quinta-feira, 11 de setembro de 2003

Setembro é primavera. Mês de virgem, balança, alianças.
Em outubro, verão.

quarta-feira, 20 de agosto de 2003

Parece que não consigo me livrar das interrogações.
Como a vida é paradoxo, elas aparecem bem no momento da mais deliciosa certeza.
Sejam bem-vindas.
A Malásia é um lugar fantástico.
Todo mundo fala inglês, tem melancia amarela e, em alguns lugares, banheiros luxuosíssimos com um buraco de louça no chão, no lugar do vaso sanitário.
Tem coisas fritas que não se pode imaginar o que sejam, tem tecnologia quase de graça e é dificílimo conseguir uma água com gás.

Quero voltar pra casa.

quarta-feira, 23 de julho de 2003

Não há o menor significado na paixão de quem não tem compaixão. Uma é o avesso da outra, nas pessoas verdadeiramente corajosas. E essas, são ventania a vida toda. Até quando tudo parece estático.

terça-feira, 10 de junho de 2003

Ah, moleque!
Na primeira vez em que olhei bem dentro dos olhos dele, uma surpresa. Tive tanto medo!
Desde então, se passaram dez anos e uma eternidade, porque pra um amor desse tamanho, tempo não se mede.
Continuo me assustando com seus olhares profundos - que vêm depois de um choro sentido, uma gargalhada debochada, um beijo de repente, que ganho todos os dias.
Muitas vezes, não tenho o que dizer a ele. Nem ele me pergunta muito. É como se soubéssemos tudo, juntos.
Agora, ele me vem com ânsias de independências e vergonhas injustificadas, e eu fico repetindo pra mim mesma: é o tempo, é o tempo.
Eu sempre soube que esses dias chegariam, e agradeço aos universos por estar neste presente. É o tempo, mesmo.
Que esperneia, dá frutos, tira o fôlego da emoção e me faz parir uma mãe nova por dia.

terça-feira, 13 de maio de 2003

Maravilhoso Plutão!
Tudo se regenera, se reconstitui, se reconstrói em versão melhorada.
Tá bonito, tá bonito....

sexta-feira, 25 de abril de 2003

Aguardo ansiosamente o sextil de Plutão com o ascendente.
Eu mudo, ele fala.
Eu muda, ele cala.
Ele some de vez em quando, em sua órbita irregular,
e volta, me fazendo entrar na minha sétima casa - quase passando para a oitava.
Plutão pulsa, eu pulso suave, às vezes, latejo.
No anular, no angular, no espelho.

sexta-feira, 11 de abril de 2003

Vamos ter um dia colorido,
olhares verdes se encontrando,
rubor por baixo de um vestido azul - comme il faut.
Dourado em círculos, rosa sobre a mesa e muito amarelo,
em doces de ovos renovadores de vida.
Vamos ter palavra e promessa,
alguns cabelos brancos que dão um tom sublime à data,
vento de mar com um cheiro que molha a gente
e espanta as cinzas.
Vamos ter festa.

terça-feira, 25 de março de 2003

Dizem que o amor é cego. Mentira. Ele tem astigmatismo.
De longe, as coisas ficam esquisitas, mas de perto, tudo funciona e fica perfeito.
Quando eu olho o amor de perto, fico meio estrábica. Vejo tudo em dobro, o que faz muito sentido.

segunda-feira, 10 de março de 2003

Se tem uma coisa que os Áries fazem bem nessa vida, é começar de novo.

quinta-feira, 6 de março de 2003

Tem dias em que eu tenho uma vontade enorme de revelar todas as minhas senhas.
As pas-swords que eu empunho e que abrem todas as portas.
É uma vontade de dias de dissonância - onde o enjôo, o amor desmedido, os espasmos - tudo me leva a querer abrir mão
da ilusão dos segredos e das palavras escondidas.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2003

Era tarde e eu estava cansada. Mas a visita chegou eu eu sempre o recebo bem - seja de onde vier.
Tinha um orgulho no olhar daquele cara que eu reconheci. Óbvio, eu me deparo com o mesmo ar de satisfação sempre que me olho mais demoradamente no espelho.
É como se ele me dissesse: está tudo bem. E está, mesmo. Em qualquer circunstância, há o bem.
Levei muitos anos pra parar de sentir medo, e o fato de ele vir me visitar me fez lembrar que a gente só se livra do medo quando se entrega sem reservas ao destino.
Custou, mas hoje consigo dar boa-noite sem susto ao meu pai.
Afinal, está tudo bem entre nós.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2003

A vida é boa, a vida é boa.
Há coisas efêmeras e outras eternas
e a diferença entre elas é que torna tudo gostoso.
Há estrelas que não existem mais e ainda encantam,
inspirando os poetas. Até o brilho das estrelas pode ser ilusão,
mas a gente vai morrer sem saber disso. E a poesia é eterna.
E o amor, desde que a gente nasce até quando a gente vai embora - é o mesmo.
E a gente vive e se inebria e se surpreende com ele.
Definitivamente, a vida é boa. No meio de tantas possibilidades eu tenho uma certeza que não me sufoca.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2003

Comigo vive um moleque que vez em quando perturba.
Não deixa meu cabelo crescer, masca chicletes (faz bolas!) e
de vez em quando é estabanado e dá topadas. Também fala palavrão.
Gosto dele.
Minha filha - craque no futebol de praia, única entre mais de dezena de garotos - apazigua o meu moleque.
Meu filho - consciente e responsável - lhe dá sermões com complacência.
Meu companheiro se diverte. E lhe dá asas.
Entre risadas incontroláveis e xingamentos desnecessários, esse guri me compensa os anos no rosto.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2003

Saudades.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2003

Um dia não é um quadradinho que se rabisca
Uma hora não é um rabisco no círculo imperfeito
Um ano não é nada
Meu amor é tudo
E prescinde de projetos.
Eu tinha que escrever um projeto. Três pra meia-noite, a máquina toda disposta, mas a nuca dolorida, fica difícil entabular uma introdução, achar a justificativa, consubstanciar os objetivos e concluir o que quer que seja.

Vá lá. Tem uma veia em mim que volta e meia se esconde, e quando eu cutuco com a seringa pra tirar dela um querequequé de algo que valha a pena, o máximo que arranjo é edema. Hoje a santinha tá viva, depois de ano e pouco achou por bem latejar, eu acho que o bom que eu faço é escrever o tal projeto.

Então, né?

Introdução

A vida é simples, mas é complicada. A gente procura, procura, procura, quando acha bota defeito e cisma de assegurar que vai dar errado e que tem alguma coisa esquisita ou que a gente não merece mesmo e dane-se, sejá lá o que Deus quiser.
Todo mundo sabe que é assim. Quando a gente ganha exatamente o que queria, trata de dar um jeito de mudar, porque se não, qual é a graça da parada? Resumo da introdução: a maioria de nós é muito burra, fora as raras exceções como as irmãs carmelitas encarceradas e os siddhis meio sorridentes meio patéticos das montanhas enevoadas da Índia. Ô vida.

Justificativa

As pessoas – todos e todas – nasceram para usufruir o que esse mundo tem de bom pra dar. Missão da humanidade: ser feliz. Já sei. Dizem que não há esse estado permanente, felicidade. Não tem problema. Nem sempre ser é estar. Não me preocupo em estar feliz, porque isso implica em um estado e eu sou continente. Quero ser um ser feliz, e isso não deve ser tão difícil assim, porque se fôsse a grande maioria dos seres não ia querer a mesma coisa, porque os seres – humanos – são acomodados demais e quando uma coisa é difícil e dá trabalho eles já não querem mais. E o que não falta é gente querendo ser feliz, dando beijo na boca ou não, eu desconfio que ser feliz é o pedido da avassaladora maioria na hora de virada do ano ou na hora de assoprar as velinhas do bolo (claro, eu estou me referindo à maioria - os criativos pedem outras coisas).

Pois bem, eu acho que não há outra justificativa para querer ser feliz: sou comum, sou parte da maioria, sou humana e levo a sério esse negócio de missão.

Objetivos

Essa proposta tem como objetivo deixar as coisas claras pra mim.
Ô vida. Simples e complicada. Quando tudo tá claro, mergulho na escuridão.
Meus objetivos são mundanos e eu sou uma mulher de fé.
Esta proposta tem como objetivo um salto na noite escura.

Obs.: não há recursos previstos para ressarcimentos, em caso de desistência.

segunda-feira, 30 de setembro de 2002

Previsão para os nativos:

Fique inativo.
Coisas fascinantes
acontecem na inércia.
Previsão para o período:

ventos de renovação com pancadas de entusiasmo,
não necessariamente esparsas.
Nesta região do mapa, tudo é possível.
Está sendo aguardada uma frente de calor humano,
com ondas de alegria, que podem chegar a graus inimagináveis.

sábado, 17 de agosto de 2002

In the quiet of the night,
Let our candle always burn.
Let us never lose the lessons
We have learned.



Os pássaros têm pupilas enormes e quase não piscam.
Isso é assustador.
Me sinto segura com as pupilas dos gatos, quando se concentram:
quase um fio.


sexta-feira, 5 de julho de 2002

And she´s buying a stairway to heaven.
Blá.

segunda-feira, 10 de junho de 2002

Ritos de passagem

As lágrimas apagam o fogo.
O tempo apaga as fotos.
Os filhos apagam as velas do bolo
e tudo fica eterno.
O branco amarela.
A vida embranquece depois da negritude.
O mundo se colore - e tudo é só um instante.

terça-feira, 28 de maio de 2002

O tempo vai passar.
Meus filhos vão crescer (às vezes eles já são grandes).
Meus cabelos vão perder a cor (que já é instável).
Algumas pessoas que eu amo vão embora (e dá pra sobreviver a isso - eu sei).
Tanta coisa assustadora pela frente e eu acreditando sempre que do chão não passo.
É nisso que dá ser a porta da rua da própria casa.

quinta-feira, 16 de maio de 2002

Cuernavaca nasceu pra ser um lugar divertido.
Entre burritos e tequila, dias de muita sede,
uma disritmia entrópica me aquece.
Bom esse calor, quando se está longe de casa.
Sofro de saudade compulsiva!

quarta-feira, 10 de abril de 2002

Lulu Kati Kati - isso é suahili - quer dizer "o centro", "aquilo que está no meio".
Estava escrito num muro de Johanesburgo, e imagino se não fui até lá só pra ler isso e
me dar conta de que não importam as coordenadas.
No dia do equinócio que passou, eu vi um arco-íris no céu da África.
Voltei de lá mais colorida. O sol transita pelo meu ascendente e eu transponho a
fronteira dos dias e noites iguais.

quarta-feira, 6 de março de 2002

Hai-kai

quem ri quando goza
é poesia
até quando é prosa

Alice Ruiz

segunda-feira, 4 de março de 2002

Eu já tive medo da felicidade. Hoje em dia, somos amigas.
Às vezes, quando a sua presença é avassaladora, confesso que ainda tenho
um olhar desconfiado. Fico imaginando: quando é que ela vai levantar daqui e ir embora?
É uma bobagem, isso.
Essa senhora tem cadeira cativa na minha vida e está sempre de bandeira em punho nos jogos de decisão.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2002

Meu pai-de-santo diz que o ano começa hoje.
Esse ano estou com vontade de celebrar muitos anos-novos.
Um pra cada perdão que entrar em mim.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2002

Meus amigos queridos estão bem, isso me faz feliz.
Às vezes paro pra pensar no quanto eu amo algumas pessoas, e por que
o faço tão silenciosamente. Não sou dada a conversas longas, não tenho
paciência pra muitos e-mails, sou quase sempre lacônica.
Para alguns amigos (geralmente, os mais antigos) eu custo a telefonar, passo tanto tempo sem ver...o que me
redime (porque eu me culpo e me puxo as orelhas) é que o amor que eu sinto por cada um deles continua igual.
Quando há o encontro, a confidência flui, o reconhecimento é instantâneo, a sintonia é fina.
O tempo é realmente uma bobagem para a qual damos atenção demais.
Me distraio tentando desinventar - hoje posso dar colo ao meu pai e pedir a bênção ao meu filho.

Pra isso servem as férias: pra trazer os comentários de volta.
Não sem briga, diga-se de passagem. Levei uma surra pra
enfiar essa coisinha aqui.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2002

E tem mais.
Custou pra cair a ficha.
Descobri que estou sem comentários.
Às vezes penso que a luz caiu. A corrente elétrica, quero dizer.
Escurece por um instante e depois tudo volta às claras. Nunca tenho certeza se
foi pane elétrica ou se foi pane nas minhas pálpebras.
Tenho a forte impressão que esses quase apagões - que duram ínfimos segundos - são uma pestanejada mais demorada.
Tenho quase certeza de que só eu percebo o quase escuro, e me pergunto se isso acontece com todo mundo.
Ou se apenas as minhas pálpebras hesitam, de vez em quando.
Talvez seja uma vontade absurda de fechar os olhos - pra que, não sei.
É claro que todo mundo tem esses questionamentos abestados.
No meu caso, é por causa do escurinho.
Confesso que também custo a acreditar que deja vú não seja uma experiência unicamente minha.
Assim como as sincronicidades.
***
Well, é bom demais passar por aqui - só vim porque achei que precisava deixar registrado em algum lugar que eu cheguei à conclusão, dentro do táxi, que em minha próxima existência quero ser um whirlwind. Nem que seja como o Diabo da Tasmânia. Porque nutro a idéia - cada dia mais parruda - que a gente encontra Deus numa espiral.
Coisas de deusa antiga, de Giramundo, de Cho Ku Rei. Até de chacrete, quem sabe...
***
Meg. Fausto. Carol. Rick.
Eu confesso: exulto quando vocês me citam nos seus blogs.
Vissem? Caí na arapuca.
Eu posso ser pretentious, vez por outra. Pretender, não.
Love ya.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2002

Eu continuo achando que um novo mito é preciso.
Porque de Narciso eu ando de saco cheio, e não é de hoje.
Vaidade é ranhetice demais e entedia. Quando caio nessa arapuca me sinto tremendamente velha.
Eu queria um vento novo, um novo ser humano possível anunciado.
Eu queria uma revelação, uma jornada inusitada, um espanto.
Que enjôo.

terça-feira, 22 de janeiro de 2002

Inspirou profundamente pela narina direita. Contou até oito e expirou lentamente pela esquerda. A posição era de lótus, e as mãos dispostas da maneira correta para ativar shakti.
Meia hora nessa brincadeira. Quando estava quase desistindo de qualquer elevação, abriu-se um pop up em sua tela mental. Uma mensagem do alto. Baixou um arquivo do seu registro akáshico. A mensagem brilhou à sua frente:
A ingnorança é que atravanca o pogresso.
Pode crer. Nós, o povo das estrelas, sabemos mesmo das coisas!!!
Disse tudo.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2002

Chamadinha básica para 2002:

Niente senza gioia

sábado, 29 de dezembro de 2001

No ano que entra
eu quero fazer uma conta não muito exata.
Pretendo ir além da conta.
Olhar mais pra longe, para o próximo distante,
empunhar cordas e picaretas pra sair deste buraco
que é o meu umbigo (ouvi dizer que é logo ali,
entre as duas colinas ao Norte, que mora o Sol).
Também quero rir mais.
Fazer exercícios de língua pra não falar bobagem,
Andar de conversível pra encher a boca de vento.
Quiçá, usar as pontas dos dedos para somar e dividir,
de maneira que meu restante não sobre.

terça-feira, 18 de dezembro de 2001

Dias estranhos, esses.
Há que se falar, há que se escrever -
o risco do silêncio é o ostracismo.
Não se manifestar sobre o que quer que seja pode ser a morte virtual.
O silente vira o ex, vira o outro - quiçá, um terrorista.
O compromisso é com o verbo, mesmo que sem princípio.
Strange days, indeed.
Não há lugar para o espaço entre dois pensamentos.
Isso me apavora. Não quero ser escrava da instantaneidade.
Vou continuar cedendo aos amplos vazios e à quietude sem reticências.

sexta-feira, 19 de outubro de 2001

Getting in the mood...só quero ouvir esses caras.

Silver

Swung from a chandelier
My planet sweet on a silver salver
Bailed out my worst fears
'Cause man has to be his own saviour
Blind sailors
Imprisoned jailers
God tame us
No one to blame us

The sky is blue
My hands untied
A world that's true
Through our clean eyes
Just look at you
With burning lips
You're living proof
At my fingertips

Walked on a tidal wave
Laughed in the face of a brand new day
Food for survival thought
Mapped out the place where I planned to stay

All the way
Well behaved
Just in case
It slips away

The sky is blue
My hands untied
A world that's true
Through our clean eyes
Just look at you
With burning lips
You're living proof
At my fingertips

Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips
Ti-ti-ti-ti-tips

terça-feira, 16 de outubro de 2001

"Desejo", do latim de-sid-erio , provém da raiz
"sid" , da língua Zenda, significando ESTRELA, como se vê em sideral -
relativo às estrelas.
Seguir o desejo é seguir a estrela - estar
orientado, saber para onde se vai, conhecer a direção...


Recebi um texto do José Angelo Gaiarsa, na Lista Artemis, de onde recortei o
trecho acima...
Meu nome é desejo!
Carácoles...
Transgressão

Se eu encho a boca de amoras,
meu pai vem e me pega manchada.
Vai me olhar durante horas
e me deixar encabulada.
Mas de amora eu gosto tanto,
elas me dão muito prazer...
Então, depois de curto pranto,
mais amoras vou comer.
.......................................

Onde andará meu Saturno?

domingo, 14 de outubro de 2001

Pra morrer basta estar vivo.
E quem não morre não vê Deus...

quarta-feira, 10 de outubro de 2001

Oh yeah, all right, funky boogie...
Eu estava me divertindo vendo o bartender cortar em oito gomos um limão pra logo em seguida enfiar um deles gargalo adentro na minha garrafa de Sol (Solllll, que ahora yo hablo español) quando uma senhora gorda me esbarrou no cotovelo.
Não sou de reclamar dessas coisas, mas confesso que na hora lancei um olhar impertinente, coisa que fiz sem me dar conta, pra variar. Causou espanto o arrojo da gordota. Cabelos brancos esticados pra trás com gel, sombra cintilante, glitter nas bochechas e um vestido azul celeste de musseline, como eu não via desde as festas de debut das minhas primas (oh!).
Acho que meu olhar passou de impertinente a divertido, mas a senhorinha não se abalou. Foi servida de kir royal, segurou firme no canudinho, deu duas cutucadas na cereja no fundo do copo e soltou a bomba.
- Tá difícil de pedir, né?
- O garçon demorou pra lhe atender? É que ele dá prioridade pras loiras...hehehehe...
- Não estou falando dele, meu bem. Estou falando de você.

Sorri. Tadinha.

- Desculpe, não entendi. De mim?
- É. Faz tempo que você não pede nada.
- Como assim? Pedir o que? Pra quem?
- Pra mim que não ia ser, você nunca levou fé na minha figura, mesmo. Mas podia pedir pra os anjos, pro Universo, pro ...pro barbudo, aquele.
- Ficou sério. Não fala assim dele. Dá pra senhora explicar melhor o assunto? Pera só um minutinho...Moço, outra Sol.
- Sou sua fada-madrinha, babe. A coisa tá feia. Você não pede nada. Orgulhosa, distraída, tá demais. Minha varinha criou teia de aranha, eu estou frustrada, trabalhar com você é fácil, mas eu gosto de desafios, quero feedback, só o salário não conta, se é que você entende.
- Sei...salário, é? De quanto?
- Não interessa. Eu quero é botar a mão na massa, Tipiti, tipiti, puff! Rodar a saia, fazer volteio com a varinha, espalhar pózinho nacarado. Dá pra esboçar um desejo, desses, bem objetivos e impactantes?
- Opa! Pode parar...a senhora está enganada, ou já não ouve direito. Eu vivo querendo coisas, não venha com essa de que a culpa é minha se a senhora não trabalha.
- Querer não é desejar, honey. Muito menos pedir. Pensei que você já soubesse a diferença, depois de tanto ler a Rubedo.
- Esqueci dessas coisas...foi uma fase, faz tempo que não penso nisso...desejo, vontade...necessidade...sabe que a senhora tem razão?
- Pois é. Naquela época, eu ainda me coçava. Agora, nem isso! Você quer fazer tudo, não me dá a deixa, eu tô no escanteio e nada de bola!
- Que mal! Mas tem muita coisa que eu desejo!! É só parar pra pensar. Posso pedir a primeira?
- Por favor. Eu sou workaholic.

You’re just too good to be true...
E o Celebrare entrou no palco enquanto eu tinha meus desejos realizados.

sábado, 29 de setembro de 2001

Há pessoas cuja alma não aceita ser engaiolada.
Há outras, como eu, que amarram as asas da alma,
violentam-na para dentro das grades e mantêm-se vigilantes
à porta da gaiola - aberta.
Fingem viver no mundo da normalidade, mas morrem de pavor de uma vingança alada.
.................................................................

A RESPIRAÇÃO DAS PALAVRAS
**Dos Fundamentos dos Pássaros**

O pássaro é denso mas crispado e tem angústias, medos. Aprendeu a sabedoria de pôr-se a jusante das alamedas e do turvo chão, testemunha das planuras , pouquidões humanas.

Há pássaros óbvios. Outros habitam o peito dos mares e aí parecem-se a peixes e a algas que erram. Os pássaros não deixam tocar-se porque são nus e anunciadores. Raro desfazerem-se das sedas de que são articulados: ponto a ponto. Os pássaros são orgíacos, substantivos, a despeito de seu desarvoramento.

Pássaros são feitos de gritos monossilábicos e pulsam pautados: cascos partindo-se no ar. São o silêncio das claras de ovo, o modo de ser da marcha resolvida dos alados.

Os pássaros expõem-se denodados mas de perfil. Irrompem nas desferidas asas ou as colam ao corpo - depositário das deliberações que exacerbam os arcos, que se dão sempre e quebram-se.

por Maria Elisa Guimarães® (Meg)
(que tem a alma livre)

Ele lia em voz alta a parábola de Gibran: "A violeta e a rosa".
Eu assistia à cena muda, percebendo quando sua voz tremia, quando o canto dos seus lábios esboçavam um sorriso enquanto ele lia, quando as suas mãos apertavam um pouco mais o livro e, finalmente, quando terminava a leitura, percebia o quanto seus olhos brilhavam. Aquilo o emocionava demais. Ele se identificava com a rosa.
Juro que tentei ser rosa, mas as pétalas não se comportam...não se encaixam com a perfeição que deveriam, e os espinhos - tão necessários - me dão comichões. Aí, sendo rosa, fico descabelada e com coceira.
Ele também não suportou ser rosa muito tempo.
Tampouco sou violeta.
Nasci miosótis e vou morrer maria-sem-vergonha.

quarta-feira, 19 de setembro de 2001

SexoAsfalto

Copular no asfalto.
Acoplar ao ato
o amor que vem do alto.
Que importa a negritude
e o calor infernal?
Se no final do gozo, tudo gruda.
Se no final das contas,
entregue às mãos do amante,
até a cor do asfalto muda.
Graci, 1998.

terça-feira, 18 de setembro de 2001

Weelll....
Eu estava sondando os preços dos palmtops (que é a minha próxima empreitada no universo dos gadgets tecnológicos, eu, que não sei programar o videocassete, pretendo escrever na tela de cristal líquido com um pauzinho de laranjeira pós-moderno) quando abriu uma janela totalmente esquisita no meu monitor.
A primeira coisa que imaginei foi que havia feito uma trapalhada e baixado um novo screensaver com uma animação de que até Ele duvida. Uma carta (feito aquelas, amarelinhas, do ICQ - só que bem maior e vermelha) piscava sem parar e uma animação sugeria de um jeito meio ameaçador: abra-me....abra-me...Entre as palavras, uma espiral preta rodava. Catifum.
Muito bem. Beijei a imagem de São Judas Tadeu que carrego sempre comigo e cliquei duas vezes no envelope vermelho. Abriu uma sala de chat. Lá estávamos, eu e ele.
- Bem vinda...
- Oi, tudo bem? De onde vc tc?
- Não vem ao caso. Que bom que você aceitou meu convite para o chat.
- Legal, ficaria melhor se você se apresentasse.
- Claro, me desculpe...eu sou O Outro.
- Francisco Cuoco?
- Hehehe..vc lembra, é? Também gostei dessa novela. Mas não sou o Cuoco, não.
- Ok, continuo na mesma. Vc é o outro quem?
- O Outro. O transgressor da sua ordem. O da esquerda, o da mão que segura o garfo. O distante, o exilado, o diferente. Compreende?
- Tá insinuando que é o Capeta? (nem devia escrever essa palavra, que não é de bom agouro, é que nem "azar", que a gente não deve falar nem escrever, pra ver se risca do mapa)
- Acho que me dão muitos nomes por aí, mas não atendo por nenhum deles. Digamos que eu seja só o Outro. Curiosamente, é em mim que muita gente faz morada de seus capetas.
- Tô entendendo. Não sou burra nesses assuntos, sabe? Minha avó é Rosacruz, meu tio é pai-de-santo. Eu mesma ando num canto e noutro. Diga lá, vc me procurou pra que? Aliás, interessante essa sua abordagem via Internet.
- A Rede não deve ser para todos?
- De fato. Não ia ser você um excluído, um sem-acesso, um sem-tela.
- Absolutamente. Estou aqui por gentileza. Realmente, não tenho acesso - livre, gratuito, nada disso. Meu território é a própria exclusão. Imaginei que você soubesse disso. Mas tenho percebido que ultimamente, o que aparece no seu monitor vira sua realidade e julguei (ops) que esta seria uma forma eficiente de chamar a sua atenção.
- Bacana, boa estratégia. Agora, vamos à vaca fria. Me diga, pra que você quer minha atenção?
- Quero ser integrado. Quero que você faça um esforço para relativizar as diferenças que nos separam, para cooptar uma parcela do que represento. Quero que você abra mão de algumas certezas, que questione-as à luz das possibilidades que venho oferecer, quero que você reavalie alguns de seus conceitos.
- Deixa eu ver se entendi: você quer que eu abra mão de um pedaço de mim, de uma parte da minha história, que eu me desfaça dos valores que levei quase 35 anos pra construir, à custa de muita porrada, você quer que eu deixe de acreditar em coisas nas quais meus pais acreditaram, em coisas que eu estudei, li e refleti até chegar ao ponto de acreditar, em tudo que é mais precioso pra mim - idéias, filosofias, crenças pessoais, herança - pra ceder espaço pra você??? Que eu nem sei quem é??? A troco de que? Que conversa é essa? Tá me estranhando? Será que você sabe com quem tá falando?
You have mail!
Nova janelinha. Cliquei duas vezes, ato impensado, quase vício.
Notícias do mundo.
Cliquei correndo para a janelinha da sala de chat, procurando o Outro pra ver se dava tempo de uma explicação, uma busca de reconhecimento, uma reavaliação da minha postura, tão irrefletida.
The user "O outro" left the chat.
Cliquei no quadradinho com um X e fechei a sessão. Quem será que era esse outro?
Paciência...bobagem. Outra hora ele aparece e eu penso nisso de novo. Entrei no site da CNN pra saber mais sobre o atentado terrorista, cuja notícia acabara de chegar. Isso sim, merece minha atenção. Dane-se o Outro.

quarta-feira, 5 de setembro de 2001

Medea nunc sum.
Ponto de congelamento, cuja questão persiste através da trêmula fluidez de nossas emoções.
Ninguém sonha imitar Medéia, não se imita o acontecimento, não se pode antecipá-lo, não se pode vivê-lo por procuração: ele produz seu presente, a cada vez singular e, no entanto, a cada vez repetido.
Ninguém pensa em consolar Medéia, cercá-la de uma afeição que repara e reconcilia. Ninguém deveria nem mesmo ousar expressar qualquer tipo de solidariedade com Medéia. Ela não pode fazer mais nada, não nos pede nada, não pede mais nada a ninguém. Ela é Medéia.
Isabelle Stengers
De uns dias pra cá, ele só anda curvado. Não sei se é por algum motivo concreto, físico, ou se é mania, mesmo.
A impressão que dá é que ele procura por alguma coisa bem pequenininha, que se perdeu num vão entre as pedras portuguesas.
Talvez, de tanto dormir na calçada, tenha aprendido a língua das pedras e, ao invés de procurar com os olhos, cata segredos com os ouvidos.
Ele fala sozinho de monte e inventa umas modas que eu considero verdadeiras instalações: amarra sacos de lixo nos respiradouros da calçada, ordena objetos catados na rua com uma lógica que só ele entende e fica olhando pra eles durante muito tempo, cuidando para que nenhum passante distraído esbarre e estrague tudo que é perfeito. Tem dias em que me pergunto se as montagens de coisas, ao lado da banca de jornal, não fazem parte de algum ritual secreto do povo das ruas. Já o flagrei de varinha na mão, andando em círculos ao redor de cacarecos. Sabe-se lá.
À primeira vista, pensei que ele fosse um mendigo como tantos outros. Com a convivência (nos encontramos todos os dias, afinal) fui percebendo que não é só mendicância a sua realidade. Há um viés, ali. Para muitos, pode ser interpretado como alienação e loucura. Até mesmo para mim, era disso que se tratava, até hoje.
Mudei de idéia.
O caso é que estava comprando empadas numa carrocinha aqui perto de casa, quando ele passou. Percebi seu olhar para a vitrine do carrinho e depois, para o vendedor. Por fim, pararam em mim.
Impossível ficar indiferente. Ele murmurou alguma coisa ininteligível, que eu compreendi - claro, sou cristã, decente, compassiva, politicamente correta e ainda por cima, trabalho em ONG - como um pedido.
- Dá uma pra ele - disse ao vendedor.
Feito.
Ele olhou fixamente para a empada por um tempo, como se avaliando a conveniência de comê-la naquele momento e ali. Depois olhou pra mim, por uns minutos. Impossível descrever o que eu vi.
Era a mim mesma, que eu observava. Não achei estranho ser o homem encurvado à minha frente. Aposto que ele também não achou estranho ser a mulher empertigada.