sábado, 2 de janeiro de 2016

Eu não gosto de segundos cadernos, de cadernos especiais, não gosto de coisas gourmets, não gosto muito de moda que aparece em jornal, nem de espaços descolados. Mas eu adoro a coluna da Ana Cristina Reis. Ela fala comigo.

A Ana Cristina hoje escreve sobre Stephen Hawking, cogumelos e direitos das mulheres. Tudo do meu gosto. Escreve também sobre uma ignorância publicada no Journal of Sexual Medicine, um estudo que relata a depressão pós-sexo. Que pena, que bobagem. Não existe depressão pós nada. A depressão é. Tem gente que se distrai com algumas coisas e depois reencontra a depressão. Aí chama de pós. 

A depressão é um deserto de poeira que levanta com certos ventos e assenta em certas calmarias. A depressão é um deserto onde neurotransmissores passeiam em caravanas. Eventualmente eles estacionam em oásis e bebem chá sob céus estrelados, e aí os ventos trazem nuvens de purpurina,
neurotransmissores dançam alegres num Diwali no deserto. Mas o deserto está, ele não é pré nem pós. Como Lilith, habitante do deserto desde sempre, para quem não faz sentido Stephen Hawking, fim do mundo, cogumelo ou direitos - para quem tudo sempre esteve onde deveria.
Não existe mais estação, o tempo é todo mudança. Há vinte e um anos ouvi sobre isso, sobre um tempo em que tudo que nos restaria seria o fazer das mãos, um futuro feito à mão, é disso que se trata o hoje. Que sejamos atentos ao que passa – mais que o tempo, fluxos e espasmos quase invisíveis, para os quais a maioria dos meus parceiros humanos não liga.

Em plutão há geleiras exóticas, uma sonda chamada novos horizontes envia fotos de glaciares e neblinas que sugerem mudança do tempo. Há anos olho para Plutão – nada de Sputnik me assombra. O tempo de plutão é o tempo do meu pulso, acordo e durmo ciente deste minúsculo longínquo fazendo sombras sobre meus dias de sol e noites de lua, sobre um mercúrio febril que se disfarça de plácido desde que cheguei aqui, há quase cinquenta anos. 

Simples assim – não há placidez nos gelos de plutão. Não é só sobre os meus cabelos que esse vento sopra, não é so os meus cílios que ele congela. Do mesmo jeito que a morte, o frio de plutão nos move a todos – pessoas, samambaias, sonhos e formigas. Que sejamos atentos ao que passa - no meio do mundo, um calor senegalês em tempos de sibéria. Isso é raro, sejamos atentos. É tempo de fazer o pão, cuidar das miudezas, fritar bem um ovo e admirar-se, beijar os velhos, honrar a mãe. É tempo de morte e isso não deveria assustar. Em tempo de morte, tratemos de coser bem as mortalhas e cavar buracos na terra como úteros, porque nas massas de tecidos em terra úmida tudo é germinar.

É tempo de plutão com suas neblinas familiares – retratos de complexidade já não deveriam causar espanto. Cuidemos do pulso, acolhendo expansão e retração como acolhemos o sono, a fome, a saudade: no melhor dos dias, satisfazendo-nos com a simplicidade. No pior, olhando para o céu com esperança.

Avesso do bordado

Muitas das coisas importantes - das mais importantes - que aprendi na vida, aprendi com a minha avó.
Ela me ensinou a dar nó na linha do bordado.
A fazer o arremate.
Me ensinou que o bordado perfeito tem um avesso bonito.
Ainda não consigo por em prática essa última lição.
Sei fazer nós e arremates,
mas meu avesso é cheio de erros.
Por pressa, deixo buracos, eu pulo pontos e às vezes, negligente,
largo restos de fios, linhas soltas, em trechos onde poderia haver outros finais.
Deixo emaranhados.
Sei que eles estão lá, mas me falta a sabedoria para voltar atrás,
desfazer pontos e cerzir de um jeito mais bonito.
O tempo urge, me ilude, e assim vou postergando o capricho do avesso.
Esse tempo - tão meu amigo e tão cruel.
Quero parar o tempo pra alinhavar um declaração de amor por ela.
Mas a linha continua, a linha do tempo - cretina - não me deixa assumir essa tessitura da despedida.
A linha vai, entra e sai dos meus tecidos enquanto ela também se vai,
calada como nunca.
Eu queria poder sentar ao lado dela e pedir que não fosse - que voltasse atrás,
que me ensinasse tudo de novo, porque eu não aprendi nada.
Também queria pedir que ela fosse, porque sei que a bordadura não tem fim e ela tem mãos habilidosas.
Eu queria saber fazer um avesso bonito.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

De repente, toda a cristandade bate à porta.
A longa linhagem se insinua nos detalhes dos meus dias mais comuns, eu vejo e nem sempre sei o que faço com o volume de informações que ela representa. Meus compromissos antigos, meus deuses. Meus amigos deuses.
Hoje respeito o padre, algumas vezes me compadeço e sinto arrependimento por conta do desdém que nutri por eles desde muito cedo. Isso talvez seja maturidade. Ou medo de um momento de maior necessidade de santos e óleos, esse momento que manda cartões postais desde um futuro nem tão distante.
Das freiras, nem falo. Tão invisíveis. Essas me remetem a grades e gozos reprimidos, sandálias e paz interior misturada a intrigas, o milagre da irmandade. Hábito é uma palavra que associo a amargo na boca.
Todavia, para além das distrações recorrentes, do circo e da cortina de fumaça saindo de turíbulos enganosos há dois mil anos, atendo à convocação da linhagem e toco com a ponta dos dedos num comforto absoluto. O fato é que no alto das montanhas há mestres que me acolhem – ora com rigor e olhos que prescrutam, ora com sorrisos e abraços pacientes. Aos pés de um, me despojo do peso das pedras e choro como uma mãe sabe chorar. Aos pés de outro, me prostro em reverência de dançarina. Ambos me falam com poemas e charadas, e até quando não entendo nada, todas as respostas vêm.
Hora de abrir a porta para a cristandade.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Então acordei ouvindo a finitude. Com raras exceções só compartilho com ela cama, sonho, escuro e silêncio. Há muitos anos ela não me falava - esta manhã foi diferente.
Filha de Saturno que sou, levanto cedo para afiar minha alma junto com a lâmina em curva. Isso não me dá medo, sou hábil com foices e protegida de Reia (com ela choro pelos leões). Mas quando a finitude fala me olhando de frente, como hoje, eu engulo palavras em seco - dou tratos à pedra mó mais cuidadosa do que nunca, peito apertado. Não sei o que vem pela frente. Declaro-me discursivamente inoperante, nos próximos dias trabalho silente: só abrirei a boca para chamar anjos pelo nome.

sábado, 4 de julho de 2015

Capturada entre Atlas e Sísifo, de olho no meu meio século refaço planos de Lilith.

Acordei ansiando por Lilith, velha senhora talmúdica que mora na minha primeira casa, tingida pelas cores do carneiro. Tomei café me perguntando: por que tão trágica? Jurei nunca mais ler o jornal. Sucumbi à tentação - nada como uma Lilith na casa 1 - e fui às lágrimas com o Márcio Tavares D'Amaral no Globo de hoje. Na coluna, urros no deserto, Nietzsche.
Recuperei o gosto pelo Cristo dionisíaco que conheço, aquele que, no mesmo deserto de sempre, deita a cabeça no colo da Lilith uivante e sorri, sabendo que são ambos eterno retorno. O Globo pesou menos sobre Atlas. Sísifo faz sentido, se todos nos comprometermos com a dor dos cavalos e nos entregarmos à loucura. Na minha casa, a diversidade faz ferver o amor. Na cabeceira da minha cama, um bilhetinho diz: I have hope - and I'm not afraid to use it. Na minha coluna, Lilith ascende e Dioniso transborda.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sintaxe


Minhas mãos em comixões dizem que tenho escrito pouco - o que seria fruto de uma escuta desatenta ao que realmente importa. Não sei se concordo com minhas mãos. Não quero concordar com elas. Justifico-me dizendo que tenho escrito com o pensamento, em janelas e espelhos: tenho deixado marcas em vidraças de cristaleiras, meus dedos marcando o vapor. Justifico-me dizendo que minha palavra, vou deixando nos interstícios da racionalidade que me aprisiona. Por isso, cozinho. Recheio de significados massas doces que deleitam a boca dos que amo e lhes alimentam a alma. Por isso, cozinho silente - derramando significados em caldas. Depois, prometo a mim mesma mudar. Prometo a mim mesma registros da poesia que me trespassa 24 horas por dia. Faço promessas de visibilidade, de ordem no tempo do desejo, de assinaturas. Não sei se posso cumpri-las, mas as renovo a cada fim de ano. Eventualmente, desço sobre papeis e telas o que sei desde sempre - só pra deixar papeis e telas esquecidos e semi-escondidos, aparentemente abandonados, prontos para um escavador de um tempo futuro que dedique-se a descobrir retalhos de mulheres que passaram. Eventualmente, paro e confesso - mas é tudo tão rápido, tão volátil, sem contrição. Eventualmente, tomo coragem e apaziguo o comixão das mãos.

domingo, 5 de fevereiro de 2012


No céu africano o que se lê é graça.
Rosa amarela, terra salgada
o coração do mundo é negro pulsante.
No riso branco e fácil o que se lê é graça.
Olho amarelo, olho d'água em dádiva incessante
o coração do mundo pulsa aqui, felino e dançante.
A força espalmada, a dor retumbante,
Soweto ri.
No céu africano ninguém parte ou vai embora.
Rosa arrancada, terra doce,
o coração do mundo é negro espalhado.
No mundo todo, a dor da África chora
e a graça sorri, à espera do amor do tempo
que cura saudade e fome.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Daí, um dia, a nega ressuscitou. Ela tinha morrido fazia um tempo, daquelas mortes meio idiotas, que deixou a nega com cruzinhas nos olhos e paradona, estatelada numa pose ridícula. Fazer o que...essas coisas não se escolhe.

Então chegou o tal dia. Tocou um sininho na cabeça dela e pimba! A nega sacolejou uma perna, ensaiou de abrir um olho, fez um tremilique com o lábio superior e não resistiu: caiu numa gargalhada de dar tosse, uma gargalhada pós-moderna, coquelúchica. Aquela gargalhada espanou o que ainda podia ter restado de morte na nega e ela se levantou, empinada como nunca. Ai, que trabalho...ai que trabalho isso vai me dar, explicar pro povo todo onde é que passei a morte. Falo não. Quem quiser saber, que morra. Dá licença, moço, que eu pego aquele trem ali e se não for agora perco o mês, a folhinha inteira, a estação.

Não se pode deixar de admitir que nega andou esquisita depois de voltar do lado de lá. Perdeu um pouco do...digamos assim...fairplay. Deu pra peitar maluco quando não precisava, ria menos, teve crise de rins. Mas pra sacudir as ancas e bater em couro de gato, continuava sendo ela e mais ninguém. De chicotinho de tamborim na mão, a nega era só terecoteco. Entrevistada no O Batuque, confessou: aos quarenta e poucos, bato mais que aos vinte. Pura verdade.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010


O email avisa: Você está passando por um novo trânsito astrológico.
Eu sei.
Minha lua pegou fogo. Torrada, cheia, nigérrima e estalando - quase vira Lilith.
Uma língua candente se move sem parar sobre meu Mercúrio e provoca coisas. Labaredas translúcidas azuladas não refletem nada e me obrigam a trocar vogais por consoantes. O céu, infinito, me engole e me cospe ininterruptamente. Não há lugar para mim nem no mais largo dos buracos negros.
Um Marte bem patife me azucrina e me convence a ir para a Lituânia.
Vênus se exime de palpites - nada muito arriscado, por hora. Cantarolando, espera por Paris em outubro.
Um trânsito passa por mim - e me dou conta de que sempre tenho um plano B, que não está no mapa.
Milhas e milhas de cartografias errantes me deixam sair de férias.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

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Wisława Szymborska

I’m a tranquilizer.
I’m effective at home.
I work in the office.
I can take exams
on the witness stand.
I mend broken cups with care.
All you have to do is take me,
let me melt beneath your tongue,
just gulp me
with a glass of water.

I know how to handle misfortune,
how to take bad news.
I can minimize injustice,
lighten up God’s absence,
or pick the widow’s veil that suits your face.
What are you waiting for—
have faith in my chemical compassion.

You’re still a young man/woman.
It’s not too late to learn how to unwind.
Who said
you have to take it on the chin?

Let me have your abyss.
I’ll cushion it with sleep.
You’ll thank me for giving you
four paws to fall on.

Sell me your soul.
There are no other takers.

There is no other devil anymore.

Traduzido por Stanislaw Baranczak and Clare Cavanagh

segunda-feira, 29 de março de 2010

Receita antiga.

Bolo de avó com creme de manteiga, minha barriga cheia de satisfação, uma felicidade infantil ao tocar os outros com palavras.

Rosquinhas de massa frita numa tarde de inverno, céu cinzento e conforto na paixão que se renova. Tenho sete anéis de diferentes ouros no pescoço.

Morangos e suspiros, creme azedo, colher de prata. Na porta, uma batida alucinante, afobada. A novidade espia pela janelinha de vidro pra ver se tem alguém corajosa nessa casa. Venho abrir a porta de salto alto, com a boca açucarada. Suspiros all around. Eu como o morango feito monge zen.



Receita nova.

Gosto do futuro que me acolhe com elegância. Faz sol - e eu me curvo em agradecimento, sem culpa.

terça-feira, 29 de setembro de 2009


\

quinta-feira, 10 de setembro de 2009


Acho que nunca estive tão perdida no meio das palavras. Tenho tanto pra ler, leio, pra em seguida me dar conta de que nessa vida li pouco. Quando me arrisco a escrever, então...aí é que sinto uma solidão absurda, uma falta irremediável das páginas que não li. Em meio a essa angústia, uma coisa me anima: eu li Kafka. Releio Kafka. Me sinto, em muitas situações dessa vida, uma personagem de 'O Processo'. Lembrar disso é um alívio passageiro, um paracetamol cognitivo.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Out of Rio

Uma estrela movediça e crescente no céu azul violeta alaranjado ouro velho
tintas derramadas no adeus do sol
Aeroplano no horizonte
e eu presa na geléia geral plebéia da perimetral.
Em casa, o cartucho preto na impressora me avisa:
cores ao alto.
Deixo as cores pro céu onde a luz plana.
No asfalto niger, buzina, buraco e calombo
dor e medo
me lembram que a terra é redonda
e que não há tombos rumo ao infinito.

segunda-feira, 18 de maio de 2009


É Samedi.
Parece que vim de Salém.
Nas estações dessa semana
vi gente de tanta cor,
na minha cabeça tocava Caetano
com a pergunta que jamais cala em mim:
Eu sou neguinha?
Também.
Sou Suleiman
Em Genebra, primavera, patrícios, kebabs.
Minha cor,
meus aparatos rosa pink
de Victoria Secrets para o eterno Samadhi.
Suleiman sempre neguinha,
fa-ber-glas-ted
com as perguntas perenes
e as respostas coloridas.

Eu vim de além
mar
deserto
cruzada
Sobrevôo a Espanha amarela encantada.
Pra sempre pergunta,
pra sempre tomada
pelo mouro.

segunda-feira, 23 de março de 2009

quarta-feira, 4 de março de 2009

Eu viro criança com uma certa frequência. É um processo simples: entro numa papelaria com pastas coloridas e muitos lápis de cor e pronto. Ou em dia de aniversário (o meu ou o dos outros), quando eu cismo de fazer docinho e confeitar bolo. Me lambuzo. Também viro criança quando discuto com violência, porque elevar meu tom de voz me dá vontade de chorar. Mas uma das coisas que mais provoca a criança em mim são os gatos. Eu amo gatos. Regrido total, converso com eles, sei que sou compreendida e sempre rola uma cumplicidade incrível.

Estas últimas semanas foram marcadas pelos gatos. No campus da universidade eles dominam, dormem em qualquer lugar e sempre tem potes de comida e água espalhados pelos cantos. Na casa do Sandro e da Paia, Frida é uma atração à parte. Linda. Na casa da minha mãe, Zara, a impossível, morre de ciúmes (e de amores) por mim.

Mas o destaque de fevereiro vai para essa mimosa aqui:


Ela dormia no frio absurdo, enquanto o realejo tocava. Não pude me conter, parei ali mesmo e ignorei meu atraso - imperdoável, naquelas bandas. Falei com a gatinha, ela me respondeu, meio acordada, meio cochilando. Trocamos confidências. Colaborei com o senhor que tocava o realejo e fiquei ali, admirando a inocência, derretendo no palato um quadradinho de chocolate e sonhando com um mundo de gatos, lápis coloridos, doces de leite Ninho e velas teimosas em bolos confeitados. Falei baixinho, com voz de gato, ronronei. Lembrei de todos os meus gatos amados - Babushka, Freddie Mercury, Chatô, Shitara, Morena, Tomé, Ray Charles e F.Dona. Praticamente engatinhei de volta pro hotel, querendo com urgência aquecimento e café.

Saudades de casa.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Só pra lembrar:

You don't have to take everything so seriously, Graciela. Reality isn't black and white, answers don't have to be yes or no, and absolutely nothing has to happen today. Act when you're ready. Be led by your feelings. And the next time someone wants to fit you into a mold, just tell 'em that your jeans are in the wash, your angel's at the mall, and Oprah's on the other line.

Fuzzy as dice -
The Universe

You're a spiritual being, Graciela, on an eternal quest [grifo meu], in a love-adventure you get to design. Do it your way.
India in bits and pieces...

A Índia só tem duas partes: a chegada e a partida. Ainda me recupero da segunda - há três dias descompensada, como e enjôo, durmo antes das 7 da noite e ao longo do dia bamboleio, pensando em quando vou voltar lá novamente...se é que vou.



Eu vou, sim. É instigante esse lugar onde me sinto, ao mesmo tempo, em casa e em outro planeta (como se fôssem coisas diferentes :-)).

Mais complicado são os sentimentos alternados: empatia e aversão, reconhecimento e medo, amor e ojeriza. Porque não há meio termo ali, para mim. Não sou turista. Não consigo ser turista dentro de um rickshaw, no meio da poeira, das ruas sem mão e contra-mão, das mulheres te agarrando com uma mão e segurando crianças desnutridas com a outra, dos velhos desdentados que abrem bem a boca pra mostrar o tamanho da fome, das centenas de cabritos pintados no lombo que serão sacrificados no dia seguinte.



Na volta da Índia, Amsterdam e Paris. Tudo normal, o Natal vai ser lindo, cintilante.

Os cheiros da Índia sempre estarão em mim.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008



Estou amando Hyderabad.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Vi essa imagem em frente ao Pinel, no muro do Rocha Maia.
Grande verdade.
Você já teve sua privacidade invadida? Eu já.
É uma enorme violência. E, como em outras violências, nos crimes de invasão de privacidade muitas vezes a vítima acaba acusada, e o criminoso impune - quase um justiceiro.

Mas como tudo na vida tem um lado bom, tirei disso uma lição, um projeto de mestrado, muito gosto por Foucault e um 9,5 na ECO.

Na continuidade, talvez eu decida fazer formação psicanalítica.

sábado, 1 de novembro de 2008

Meu irmão é um cara classudo. Chique, mesmo. Foi pra Nova Iorque fazer palestra no FMI. Voltou de lá com um presente que é a minha cara. Um Moleskine.



Lindinho, um clássico. Está guardado, esperando pelo meu dezembro em Bangalore e Hyderabad. Vai voltar colorido, eu acho.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Dia das Bruxas

quarta-feira, 8 de outubro de 2008


Muitas das coisas importantes - das mais importantes - que aprendi na vida, aprendi com a minha avó.
Ela me ensinou a dar nó na linha do bordado.
A fazer o arremate.
Me ensinou que o bordado perfeito tem um avesso bonito.
Ainda não consigo por em prática essa última lição.
Sei fazer nós e arremates,
mas meu avesso é cheio de erros.
Por pressa, deixo buracos, eu pulo pontos e às vezes, negligente,
largo restos de fios, linhas soltas, em trechos onde poderia haver outros finais.
Deixo emaranhados.
Sei que eles estão lá, mas me falta a sabedoria para voltar atrás,
desfazer pontos e cerzir de um jeito mais bonito.
O tempo urge, me ilude, e assim vou postergando o capricho do avesso.
Esse tempo - tão meu amigo e tão cruel.
Quero parar o tempo pra alinhavar um declaração de amor por ela.
Mas a linha continua, a linha do tempo - cretina - não me deixa assumir essa tessitura da despedida.
A linha vai, entra e sai dos meus tecidos enquanto ela também se vai,
calada como nunca.
Eu queria poder sentar ao lado dela e pedir que não fôsse - que voltasse atrás,
que me ensinasse tudo de novo, porque eu não aprendi nada.
Também queria pedir que ela fôsse, porque sei que a bordadura não tem fim e ela tem mãos habilidosas.
Eu queria saber fazer um avesso bonito.

sábado, 23 de agosto de 2008

Serviço

Tem coisas que servem melhor para outras coisas
do que para serem o que são.
Mercúrios com quírons desmanchados em dores
servem de bússola para o Norte sideral
do auto-perdão.
Laranjas espremidas transformadas em bolo
servem de presente de manhãs de domingo
aos ausentes, às lembranças macias,
aos pais.
Drogas lícitas de três em três horas
servem de cuco a um relógio interno parado
que perdeu a hora do descanso
e inflamou.
Pesadelos escorregados da cama antes das seis
servem de justificativa para um café temporão
que silencia a tagarelice da mente
ávida de porquês.
Palavras servem de trampolim.
Filosofia serve de band-aid.
Espelhos servem de linha de fuga.
Eu olho e vejo.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Das bênçãos de ser terreno: o próximo passo

Hawvlan lachma d'sunqanan yaomana

O pão nosso de cada dia nos dai hoje.

Garanta o que necessitamos cada dia, em pão e insight:
subsistência para o chamado da
vida crescente.

Dê-nos o alimento de que precisamos para crescer
a cada novo dia,
através de cada iluminação sobre as necessidades da vida.

Deixe a medida de nossa necessidade ser o nosso ser terreno:
dê-nos todas as coisas simples, verdejantes,
apaixonadas.

Produza em nós, para nós, o possível:
cada passo humano em direção ao lar,
ilumine.

Ajude-nos a cumprir o que jaz dentro
do círculo de nossas vidas: que a cada dia peçamos
não mais, não menos.

Anima a terra dentro de nós: então sentiremos
a Sabedoria que está subjacente,
apoiando tudo.

Gere, através de nós, o pão da vida:
nós temos justamente o que é necessário para alimentar
a próxima boca.

Garanta o que necessitamos cada dia, em pão e insight.

Prayers of the Cosmos
Meditations on the Aramaic words of Jesus

terça-feira, 25 de março de 2008

Em língua castelhana, quando queremos dizer que ainda temos esperança, dizemos: abrigamos a esperança. Bela expressão, belo desafio: abrigá-la, para que não morra de frio nas implacáveis intempéries dos tempos que correm”.
Eduardo Galeano

Strange days, indeed.

domingo, 25 de novembro de 2007


Padroeira de todos os souks

Já comprei feijão fradinho, quiabo, dendê.
A rosa vermelha eu deixo pro dia.
São vinte e uma pra agradar, às vezes dá trabalho.
Mas eu gosto. O vento desse ano tem cheiro de trabalho de parto.

sábado, 8 de setembro de 2007

Pois é. O Paulo Lima contou e eu confirmo. Almoçamos com o Tom Zé, na Cinelândia. O Mauro também é testemunha.

O Tom Zé parece ser um cara bacana. Hábitos frugais. Bebeu água sem gás, comeu legumes cozidos. Comi a mesma coisa. Só que eu não sou frugal.

Fique espiando o Tom Zé, de soslaio, com medo de um olho no olho. Vi que ele tem hábitos estranhos. Enche a taça de água e depois pega o guardanapo, branco, dobradinho, e pousa na boca da taça. Parecia rito católico. Aquilo me deixou pensando um bocado.

Aí li, do Zé:

Se eu pudesse atrasaria
Este relógio dois mil
Pra rezar na primeira missa
Pelo futuro do Brasil


Passou o sete de setembro, e só no oito eu entendo a homilia. Não rezei como deveria, no sete - mas fiz o minuto de silêncio. Depois da homilia, vem o Credo. Eu, crédula ainda, abro a boca para tudo que é consagrado. O futuro.

Ave, Zé.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Eu fiz análise por quase seis anos. Me lembro de umas poucas palavras solitárias, perdidas, escapulidas da minha cabeça em dias de sibéria: dias de paladar intragável e ritos de morte horripilantes.

Do muito que eu disse, quase nada ficou. Era pra expurgar, e foi.

Mas do que não foi dito...disso minha memória se alimenta.

Presente da minha analista - um bilhetinho, onde se lia:

A man, in some aspect, is:
like all other men;
like some other men;
like no other man.


Uma lágrima fugiu dela no dia da alta. Sim, ela me deu alta. A mim e à barriga que eu empinava desafiadora, perto de parir, símbolo vivo e agudo da minha opção pela vida.

Ninguém explica.

sábado, 18 de agosto de 2007

"Eu vi chover, eu vi relampear
mas mesmo assim o céu estava azul."

Tem dias que eu penso que fui forjada no fogo.
Tudo retine.
Tem dias que eu penso que fui cozida a vapor.
Tudo embaça.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007


Nova amiga

Wild, wild life...

sexta-feira, 3 de agosto de 2007


As melhores lembranças de Nairobi

Quando eu levei um dos maiores estabacos da minha vida, queria me levantar em quatro patas, de preferência daquelas, da altura das patinhas das girafas - capazes dos mais poderosos coices do reino animal. Além da idéia de dar coices poderosos (que ainda me agrada de vez em quando), eu também queria levantar com elegância. Por esse motivo também, as patas das girafas me encantaram: são as mais elegantes de todas. Uma girafa numa carreira daquelas, de sacudir a savana, é quase ballet.

No meio desse afã de escoicear e correr, eu recebi um recado de uma amiga experiente: baby steps, ela me disse. BABY STEPS!!!

Acatei o conselho. Fui devagar e sempre. Sem pressa e sem pausa. Funcionou. Em muito pouco tempo, eu estava segura sobre as minhas duas patas, dançando debaixo do globo espelhado, sobrevivente e vivente. Mas as corridas das girafas, os pescoços elegantésimos, os coices mortais continuaram me encantando.

Há poucos dias levei um beijão da girafa. Uma língua enorme, azulada e rápida passou pela minha mão, pescoço e cabelos. Não retribuí o beijo, mas jamais vou esquecer aqueles olhos doces delineados por pestanas meigas.

Nem o mais idiota dos mortais esqueceria.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Doce de pressão

PshSHshSHshSHsh....

A válvula da panela de pressão balançava em elipses, quase rebolava, o som chiado aumentava e diminuía num ritmo constante, era quase um vou-não-vou. Dentro da panela, duas latas de leite condensado e muita água.

A vontade crescente nos últimos dois dias era doce – muito doce. Na verdade, queria se lambuzar escondido. Sentada à mesa da cozinha, ela esperava o resultado da panela, imaginando que ia comer o doce de colher e quase civilizadamente, já que nesses dias não é civilizado ter acessos de gula. O gato também olhava a panela, mas não via. Na maioria das vezes era isso que ele fazia, olhava sem ver, olhava através. Quantas vezes ela quis aprender a olhar como o gato, mas esse, assim como todos os segredos felinos, era insondável. Tinha dias, como este, do doce, em que ela se resignava em olhar para a vida e nunca através dela. Não nascera gato, e isso era um bocado triste.

Trinta e cinco minutos era o tempo de que precisava para satisfazer seu desejo. O chiado da panela embalava sua espera e remetia a tempos antigos – sextas-feiras santas quando o cheiro insuportável do bacalhau na pressão invadia a casa da avó em manhãs que pareciam intermináveis. Segundas-feiras modorrentas quando o peso de começar tudo de novo era associado à panela de feijão que a empregada colocava no fogo, e que devia durar a semana inteira. Domingos festivos em que a carne assava, a massa era escorrida e os primos faziam barulho, muito barulho. Tudo era bom nesses domingos, a felicidade durava até as cinco da tarde.

Nem sempre a panela funcionava bem, e naquele dia calhou de hesitar. A válvula travava de vez em quando, para - logo depois de segundos de suspense - retomar o ritmo. Deve estar escapando ar demais, pensou. Nada que um palito de fósforo não resolva, e foi num dos buraquinhos da válvula que o palito se encaixou. Tudo começou a rodar como deveria, num ritmo constante e sem sobressaltos. O pauzinho deu jeito.

Fluoxetina também dá jeito nos sobressaltos. Era assim, já há algum tempo. O bendito fruto da Eli Lilly dormia a seu lado no criado mudo, e era a porta de entrada das manhãs em que abrir os olhos era quase um desgosto. Não porque o sonho lhe trouxesse coisas boas, mas porque o dia necessariamente lhe apresentava às claras o espelho do banheiro e os espelhos da rua. Não gostava do que via, em si e nos outros. Sua vontade era apontar o defeito do mundo, mas isso era feio. Assim, restava-lhe gastar boa parte de seu tempo e de seus pensamentos apontando para si mesma seus defeitos. Na verdade, sentia que não era a única a fazer isso. Muita gente lhe ajudava nessa tarefa, era o que pensava. A fluoxetina era uma companheira fiel, amenizava o impacto do erro onipresente e às vezes até lhe ajudava a esquecer que não era perfeita, nem jamais seria. É claro que quando o esquecimento não vinha e mais alguma ajuda era necessária, o açúcar emprestava certo bem-estar e lhe dava momentos de alento.

Não que pensasse em pôr fim à tristeza. Bastava-lhe uma convivência tolerável com os momentos de dor, pois acreditava que acreditava ser possível administrar a falta de alegria na vida. A vida de todo mundo é mais ou menos, afinal de contas. Controlar os altos e baixos, manter-se na faixa do meio é possível, principalmente com a ajuda dos fármacos e dos refinados. Nessa verdade ela se mantinha em pé.

O som do chiado era tão persistente e tão constante que a vontade que lhe deu foi de esperar no chão. O frio do ladrilho compensava o calor da fervura da panela que emanava ao redor. Deitada, imaginou que o teto da cozinha era o céu, e ali tudo seria possível, comeria o leite cozido deitada no chão, lambendo a colher de olho na eternidade. Durou um minuto e meio esse devaneio, interrompido pela explosão. A válvula da pressão foi ao seu limite, e a tampa da panela foi arrojada para cima, fazendo um buraco no teto. Uma chuva de doce de leite pontilhou todas as paredes, teto, geladeira, armários. Depois da explosão, o que se ouvia era quase um silvo – como o fim de um suspiro guardado há tempo demais. No chão, ela não se moveu. Olhos abertos, contemplava o céu. O buraco feito pela tampa era como uma lua, incandescente. As estrelas salpicadas ao seu redor pingavam, como num conto de fadas. A válvula ela não viu mais e, embora soubesse que a causa do imprevisto foi o palito de fósforo enfiado num buraco onde jamais deveria ter estado, não sentiu nenhuma culpa. Abriu a boca e esperou que alguma estrela lhe adoçasse a língua. O gato, debaixo da geladeira, olhava para ela – e não através. Suas pupilas pareciam dilatadas para sempre.

A eternidade é doce e estrelas não engordam.

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quinta-feira, 26 de abril de 2007

Recado pra tu, ó, ô Marte:

Para Que Digladiar
Jorge Ben Jor

Para que digladiar, para que digladiar
Se bom mesmo é cozer
Esperar ficar no ponto e comer
Se bom mesmo é coser
Esperar ficar pronto, vestir, aparecer

Para que digladiar, para que digladiar
Pois o meu amor (ai ai)
Gosta, gosta gosta de mim
Pois o meu amor (ai ai)
Reza, reza por mim

Alcança a esperança
Contra a aliança da vingança
Avança e lança
A bonança da herança
Da criança de trança
Da dança da lembrança
Da poupança que é mansa
Mas não cansa

Duas mulheres se digladiavam no sonho. Iguais, gêmeas, uma perseguia a outra com desejo de morte. Eu me sentia a perseguida. A outra também era eu. Tentando me defender, me batia – e via minha menina chorando, quando acertava o soco. Muita culpa. Muita graça. Muita luz.

Agradeço ao meu Marte na 12, provocando esses golpes de inconsciente, para que venham à tona. Atenta ao Marte, estou. Numinoso, na 12.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Ganhei, nos últimos dias, presentes preciosos.
De Jim Lord, ganhei o livro "What kind of world do you want?".
De Ana Lucia ganhei um sindhi halva, doce especialíssimo que veio de Mount Abu, energizado pela meditação de pessoas definitivamente dedicadas a criar pensamentos melhores, vidas melhores, mundos melhores.

O Universo não me manda recados - ele fala direto, cai na minha caixa postal.

"Oh sure, dreaming is the easy part! Thinking the shiny, sexy, happy thoughts. And so are the baby steps; moving with your dream. The hard part, Graciela, is... Well, actually, choosing words that imply you're on your way is pretty easy, too... Pretending is easy... Gratitude, easy... Finding stuff to be happy about, easy...

Help me, Graciela. I must be forgetting something. What's supposed to be the hard part?"

The Universe

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Amanhã minha Bella faz 12 anos. Ela já quase corre com as próprias pernas, já quase compra suas próprias brigas, já quase acha que sabe o que quer...mas ainda ronrona encostada na barriga da mãe.

É feroz, a bichinha. Eu gosto. Ensino a ela como afiar as garras, a língua, e a cuidar do coração, pra que nenhum orgulho excessivo o machuque. Aos poucos, ela tem relativizado a importância suas vitórias, no instigante caminho de aprender a escolher ser livre.

Sei que de uma hora para a outra ela vai estender suas pernas e ganhar o mundo numa velocidade de deixar qualquer mãe atônita. Estou me preparando pra esfregar os olhos no meio da nuvem de poeira que ela deixar pra trás, e sorrir. Sei que também de uma hora pra outra ela vai voltar pra lamber feridas, me trazer troféus pra polir ou simplesmente me contar do mundo, porque o dela será, certamente, bem maior que o meu.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Algumas mulheres são redemoinho, são tornado, são um vórtice criador e transmutador.
Por serem muito capazes de entregar o coração, se desfazem dos apêndices sem anestesia. No universo delas, não há perda, há compostagem de vida. São essas mulheres que me fazem respirar fundo e rir muito, porque a lágrima é leve, é fácil de carregar. Elas me ensinam a não cavar o solo pra conferir sementes, me ensinam a alegrar-me com o verde quando tudo que se vê é o negro da terra. Me ensinam a manter a cabeça em pé e as velas içadas.

Os ventos da graça sopram o tempo todo, você só tem que içar as velas.
(Ramakrishna)

Para Ilane Gehrs, que me ensina sem saber.
Então, os 40 chegaram. Vieram com água doce e trovoadas, como não podia deixar de ser. Tirei os olhos do computador, no final da tarde do fim dos 39 anos e vi a cachoeira na pedra em frente à minha casa, onde antes só havia pedra. Lavei a casa com alegria.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Cuando el cabrón lloró

Estava no táxi me despedindo de San Jose, a caminho do aeroporto. Quem me levava era Juan Fernando, um taxista colombiano que se irrita com a “arrogância costarricence e da maneira feia como são tratados os nicaraguenses aqui”. Falamos sobre o tratado da TLC, sobre a influência norte-americana no país e sobre o perigo que representam os chineses para o mundo.


De repente, no rádio, toca uma versão castelhana de “Menina Veneno”, do Ritchie. Comentei com Juan Fernando - “uma música brasileira!”. E ele me responde – pois é, mas o Roberto e o Nelson são incomparáveis.

- ?

- Roberto – o Rei.

- Ah, tá. E o Nelson, é o Nelson ....

- Ned!!

- Nelson Ned?

- Sííí...buenísimo cantante!

- Ahhh...si...es verdad [eu pensava por onde andaria o Nelson Ned].


Contei a Juanfe que o Nelson Ned não cantava mais no Brasil.

- Por que????

- Porque chamaram ele de anãozinho num programa de TV e ele “se enojó”.

- Ai!!! Que feo!!!

Engatei noutra noticia ruim: o Roberto sofre de depressão desde que a mulher dele faleceu.


Um silêncio absoluto no carro do Juanfe. Eu me distraí comendo uns plátanos com sal e limão e, de repente, dou uma espiada para o retrovisor. Juanfe chorava em silêncio.


Não quis dizer mais nada, bastava de más notícias. Sabe-se lá o que poderia acontecer com ele se eu contasse mais uma novidade daquelas. Se eu contasse que a Sandy não é mais virgem? Se eu contasse o final de “Chocolate com Pimenta” - novela que é retumbante sucesso aqui por essas bandas...? Se eu contasse...sei lá.


Achei melhor terminar a viagem em silêncio, com meus plátanos. Não se pode tirar as ilusões de um homem assim, de uma hora pra outra.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Faltam 21 dias pros meus 40 anos.
Três semanas de sete dias - hoje é um dia e tanto, olha quanta Cabala!
Sendo assim, começa a série Re-capitulando.

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Sábado, Abril 28, 2001

"A natureza dos gatos parece fundamentar-se no princípio de que nunca é ruim pedir o que se deseja."
Joseph Wood Krutch

Não é absolutamente delicioso? Nenhuma palavra faz sentido sem desejo.

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Acho que foi nessa época que eu decidi ser gata de almofada. Funciona. Depois de cinco anos de prática, eu recomendo.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Eu não dou conta de tudo.
UEBA!
Não tenho que dar conta de nada. Posso não ouvir as mensagens na caixa-postal do celular, posso não fazer o jantar, posso não trabalhar amanhã, posso fazer tudo errado e me divertir com isso.
Vou imprimir esse post e tirar xerox. Vai ser minha filipeta do evento pessoal deste fim de semana. Vou distribuir 400 filipetas destas pra mim mesma ao longo do dia e me embebedar - de tequila, óbvio - na noite de sábado. Com nargueela sabor melão amarelo.
E a partir de janeiro de 2007 vou tratar de ganhar dinheiro dando idéias aos outros.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006


Red hot chilli peppers!

domingo, 19 de novembro de 2006


Eu amo esse mês escorpiano. Os anúncios de verão. Os picos de primavera em mim e ao meu redor. Um vento mais morno entre as árvores, a luz rosa das seis da manhã. Tudo que eu planto, dá.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

A Elza Soares berrando no Ipod, peguei o sabão em pó em promoção, as flores amarelas também. Fui de plataforma, fui de barriga de fora, tudo que eu posso enquanto dá. Sem vergonha de requebrar com a bateria da Mocidade Independente, assim tem sido.

Canto alto. Quem quiser que escute - na fila.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Te adorando.
Daqui eu fico, detrás da escrivaninha, atenta ao som do freio antes do quebra-mola.
O que me embalou o dia foi a lembrança da tua nuca no travesseiro, no lusco-fusco das quatro da manhã.
Você chega, eu desabrocho com a lua que sobe.

domingo, 17 de setembro de 2006


Eu acredito muito que todo mundo precisa de um herói ou heroína. Também acredito que todo mundo precisa de um mito e que todo mundo precisa de uma missão.

Estamira me fez chegar mais perto dessas três coisas - de minha heroína, de meu mito, de minha missão.

Ela revela as verdades na sua pureza, na sua lucidez, na sua sagrada invisibilidade.

domingo, 3 de setembro de 2006

:::Só um minuto:::

No dia 17 de setembro, não perca:
Just-a-minute (Só um minuto) - uma iniciativa mundial que visa despertar a consciência de que todos nós temos a capacidade, o poder e a responsabilidade de criar um mundo melhor

Utilizando tecnologia multimídia, teatro, música, dança e conexão de alta velocidade, será apresentado, ao mundo, um modo de vida pacífico, através do poder de intervalos de um minuto de silêncio. 100 países estarão interligados em transmissão simultânea.
Da Arena de Wembley (Londres) o mundo estará interconectado em Just-a-minute: http://www.just-a-minute.org

Só-um-minuto é fácil, simples e acessível a qualquer um, em qualquer lugar do mundo, de qualquer raça, religião ou em qualquer circunstância. Seja na política, nas finanças, nas artes,
na educação, nos esportes, em casa ou durante qualquer outro tipo de atividade, só-um-minuto pode contribuir com excelência, com integridade e com os valores mais elevados para um mundo que está em acelerada transformação.
Quando nós mudamos, o mundo muda…

Este projeto belíssimo da Brahma Kumaris está sendo lançado mundialmente em 17 de setembro de 2006, domingo, das 12:00 às 14:30. No Rio, as atividades acontecem no Teatro João Caetano, Centro - Rio de Janeiro - RJ. A entrada é franca.

Dê a si mesm@ o minuto! Você e seu mundo merecem.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Leia o Apelo internacional – Por um cessar-fogo imediato e incondicional.
Assine aqui.
E veja quem assinou.

sexta-feira, 28 de julho de 2006

Minha amiga me disse: "fracassei exitosamente".
Haja sabedoria.
Entre um ceviche e outro, descubro que o melhor de Quito é me sentir confortável entre vulcoes que podem cuspir fogo de uma hora pra outra.

sexta-feira, 14 de julho de 2006

Está lá, no arquivo:

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Quarta-feira, Julho 11, 2001

Recado do Hans:
*saudade*, no visor do celular.
Meu precioso amigo me ajudou a descobrir o Renato Russo numa hora em que eu queria morrer - ou matar alguém, sei lá.
"O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido, ninguém prometeu".
Não é que é mesmo?
Custou pra cair a ficha, mas anos depois ninguém precisa cantar pra me lembrar:
"nem foi tempo perdido."
Hans é sabido. E querido. Como a maioria dos cachorros vadios que eu conheço.
É gente da minha espécie. Morre, não deita e renasce - três vezes por dia.

posted by Bellatrix @ 8:38 AM

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O que vinha mesmo depois, na poesia? "Nem foi tempo perdido"...
"somos tão jovens, tão jovens".
Hans é jovem. Sempre será. Assim como sempre será querido. Onde quer que vá, onde quer que esteja, é como eu - morrendo e renascendo.
Não foi tempo perdido, querido. Tão jovem. Vou cantar pra te lembrar, sempre.
Saudades - em todos os visores.

quinta-feira, 13 de julho de 2006

Para viver a paixão com compaixão é preciso despir-se. Tirar, peça por peça, de cima de si os anos, as palavras repetidas sem inocência, as memórias e seus mecanismos encarceradores, os véus.

Desnudar-se é a única forma de mergulhar na paixão compassiva, aquela que liberta e cura, a que desvenda e revela. Nus, não precisamos de reflexos - não há nada que possa estar no lugar errado, nada que não combine ou destoe.

Nus, nós somos únicos, íntegros, generosos, corajosos - e aí sim, podemos ser compaixonados.

segunda-feira, 12 de junho de 2006

Porque um dia ela acordou e ainda era tarde.
Seu amigo invisível lhe apontou Bellatrix no céu. Tantas palavras para o céu acima, a Bellatrix distante.

O amigo invisível pousou o indicador sobre os lábios, e em seus olhos se lia: caluda...ninguém ousaria desobedecer.

Um pássaro desorientado no espaço e no tempo bateu forte contra a janela, lhe causando calafrios. Memórias coloridas, emplumadas, voadoras, afoitas.

Voltou para a cama, o corpo pedia. O céu púrpura delatava - ainda era cedo.

domingo, 14 de maio de 2006

Está lá no Abraham Hicks:
There are as many different worlds being lived by as many different perceivers of the world as there are.

Eu gosto muito do mundo que percebo.
É um mundo de flores secas no caldeirão da trisavó.
Mundo de hibiscos-colibri e colibris sem-vergonha.
É um mundo apaixonado, um mundo de cremes doces, de pé de pimenta.
Gosto do mundo que percebo - múltiplo, como as estrelas que empoeiram meu teto.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Uma garrafa e meia de vinho à beira da piscina.
Três caquis no pé, incontáveis pitangas, até as do chão, as mais gordas, irresistíveis.
Quarenta minutos de corrida ao som do Black Eyed Peas, lose control, all body all soul, serotonina não excede jamais e o suor me energiza.
A vida não foi feita pra gente comer de garfo e faca. Desavergonhadamente lambo os dedos.

domingo, 23 de abril de 2006

"Quero dizer, com toda seriedade, que muitos malefícios estão sendo causados no mundo moderno pela crença no caráter virtuoso do trabalho, e que o caminho da felicidade e da prosperidade é a sua redução organizada". Bertrand Russel, O Elogio ao Ócio.

Acho que um pouco mais de ócio salvaria almas. Pra mim, a cadeira de balanço é um altar.

domingo, 19 de março de 2006

Me interessa demais o pós-morte. Gostaria muitíssimo de encontrar mais pessoas pós-mortas. Um dia, vou enviar cartas do pós-morte para pessoas queridas, que amo, mas que ainda não aprenderam a morrer.

Lamento às vezes pelos quase-vivos...e aí estou incluída, nos dias de esquecimento. Se eu fosse um pouco mais religiosa, acenderia velas por todos os quase-vivos. Uma vela roxa pela ambição quase-viva de permanência, de segurança, de estabilidade. Uma vela amarela pelo desejo quase-vivo de reconhecimento e respeito...ah, o respeito! Uma vela azul-marinho pela mediocridade dos dias sem susto e sem improviso, aqueles dias bem conhecidos dos quase-vivos - dias de pisar nas florezinhas do caminho, nos quereres, nos sonhos, nos ex-amores, ex-mestres, ex-amigos.

Uma vela negra pela quase-vida dos que se crêem - ou se pretendem - importantes e uma mini-vela escarlate por cada palavra e gesto quase-vivo de tentar impressionar.

Deveria ser criado o dia dos ex-mortos, um dia depois do dia de nenhum santo, do dia de todos os pecadores, ou do dia de todos os esquecidos. Seria um dia de gargalhadas intermináveis, de cânticos que nos fizessem dançar, de farra, mesmo. Daquelas, bacantes, cujo superego dos quase-vivos não hesitaria em condenar. Não seria necessariamente uma festa da carne, mas seguramente uma festa da vida pós-morte em vida. De carne, osso, fruto e espírito, alma e consciência, sexo manifesto e imanifesto, fome e saciedade de tudo que é verdadeiro e efêmero. A festa da presença, a festa do agora.

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Onde os anos não aparecem...

Nas rugas da testa, não. Nem nos cabelos, que agora eu pinto. Não aparecem nas mãos, que são saltitantes e se movem com autonomia, nem no ritmo do meu passo, porque sempre que eu quero, corro.

Os anos aparecem, sim, nas gargalhadas que já não consigo segurar como antes - ainda que sinta uma certa vergonha depois da explosão. Aparecem no tênis do filho, número 40 e nas contas da amiga que se orgulha dos quase 30 anos de amizade. Aparecem no número menor de garrafas de cerveja, no leite de soja na geladeira e na paciência de semear flores no canteiro, quando eu poderia comprar as mudas crescidas.

Os anos aparecem nos olhos, mas nunca nos sonhos.

sábado, 24 de dezembro de 2005

"Para a Mãe Terra, nos ensinam os anciãos, não há árvores melhores que outras, nem plantas melhores que outras e nem mesmo peixes melhores que outros.
Quando o homem acha que há árvores que são melhores que outras ou plantas melhores que outras ou, ainda, peixes melhores que outros, também pensa que há seres humanos melhores que outros e que esses outros devem desaparecer, para que vivam apenas os que são melhores.

A solidariedade não se decreta e nem se impõe: ela desperta quando descobrimos que somos filhos da Mãe Terra e irmãos de uma mesma espécie."


Manuel Muñoz Millalonko
Armando Llaitureo Mankemilla
CONSEJO GENERAL DE CACIQUES WILLICHE DE CHILOÉ

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

- Pega o mapa, criatura.
- Mas eu não entendo os risquinhos...
- Não precisa entender, só me diz o nome desse risco aqui, ó, pra eu saber onde a gente está.
- Peraí...estamos na grande...quero dizer na quadra...não, esse risco aqui, acho que diz que estamos no triângulo...ah, não sei!
- Agora é que danou-se, mesmo. ESSE rabisco aqui, ó. O que tá escrito?
- Tá escrito aqui que a gente tá no caminho certo.
- Tem certeza?
- Acho que tenho.
- Onde você leu isso?
- No pontinho do meio do círculo.
- Perfeito. Até que enfim você aprendeu a desvendar mapa astrológico.
- Mas eu disse que não sei.
- E eu disse a mesma coisa.
- Então tá. Toca o carro aí.
- Estou tocando. E tira o cinto, por favor.


Cuidado: cão voluntarioso,
genioso
e apaixonante
fazendo aniversário
de meio ano.

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Hoje foi dia de lembrar frases dos antigos.

De Protágoras, "O homem é a medida de todas as coisas".

De Balzac, "A resignação é um suicídio cotidiano".

Do meu avô (ou melhor, repetida por ele), "O que a gente leva da vida é a vida que a gente leva".

Afinal, a linguagem é ou não é a casa do ser?
Pra mim, a casa do ser é o silêncio. Perto dele, a linguagem é um puxadinho ainda sem embolso.

Que difícil dizer isso!!!!

terça-feira, 1 de novembro de 2005

Por que o mês onze começa com nove?
Por que o mês nove começa com sete?
Hoje é dia de todos os santos e não devia ser dia de questionamentos.
Ontem foi dia das bruxas.
Amanhã será dia dos mortos.
Hoje é dia.

sábado, 15 de outubro de 2005

A vida é filme.

sábado, 17 de setembro de 2005

Passei os últimos meses mudando. De casa, de cidade, de vida. Vou mudar mais, ainda. O melhor da mudança tem sido o tempo de pensar. Na estradinha sinuosa que leva até minha nova e temporária casa, eu penso, esqueço, despenso e tenho momentos de êxtase. O verde extasia, o sabiá extasia, o ar frio extasia. Olho tudo ao redor e vejo que onde quer que eu vá, estou sempre no lugar certo.

Voltei a obervar a vida de um outro ponto, mais atrás das lentes dos olhos. Isso me fazia falta, eu andava sem tempo pra duvidar dos pensamentos. Agora ensaio uma nova alforria da mente, feliz por me dar conta que a frase lida no cartaz do consultório do dentista é verdade: a consciência, uma vez expandida, nunca volta ao seu tamanho original.

Celebro a cozinha e a vista para a pedra nevoenta às seis da manhã. As orquídeas florescem, os amigos estão mais próximos do que nunca, porque meu coração se apazigua no silêncio absoluto da noite, só entrecortado pelos cães. As palavras ressurgem, me supreendem por sua imprevisibilidade e começo a me dispor a ser mais disciplinada com elas. É um próximo passo.

O passado bate à porta, mas é a porta da rua. Digo oi da janela do andar de cima e lamento não poder atender agora. Passado passa.

O presente é assim, permanente e abençoado por mim. Tudo ao redor resplandece, e embora às vezes o espelho me pegue de surpresa mostrando os anos e algum cansaço que ficou do caminho, dou graças pelo que o tempo fez de mim.

O futuro é mudança. Espiral-expansão-vida. Vou passar os próximos meses mudando.

segunda-feira, 13 de junho de 2005

"Eu vou te jogar num pano de guardar confetes".
A música não sai da minha cabeça - nem os confetes.
Depois da negritude de um tempo em que eu atravessei o samba, há anos...alguns anos...aprendi a guardar confetes. Entre os meus neurônios, ali estão, alternando-se com as serpentinas disparadas pelos beijos amorosos que a vida me dá. Bolos de confetes explodem em sinapses, de vez em quando - muitos deles, sem motivo aparente. Descobri que o maior aprendizado dessa vida é a arte de guardar - e jogar - confetes, em mim e ao meu redor, no raio mais amplo possível.

segunda-feira, 16 de maio de 2005

Eu estava de saco cheio de uma cidade onde não se vê gente nas ruas no domingo à tarde. Andava há mais de hora, eu e meu amigo João, por ruas quase desertas - rimos do fato de estarmos na porta de entrada para o Oeste norte-americano, numa cidade quase fantasma: uma parte de Saint Louis é um set perfeito para a versão moderna dos westerns onde venta em ruas vazias, com casas de portas e janelas cerradas, sacos plásticos vazios rolando com o vento no meio do asfalto. Andávamos quadras e quadras sem ver viva alma.

Até chegarmos ao Grand Center. Ali havia gente. Café aberto, teatro lotado. Continuamos rindo de coisas - pessoas esquisitas, gatos, cachorros, american way of life. E andamos um pouco mais, até a igreja Saint Francis Xavier, onde paramos na esquina. Em frente à igreja, ali sim, havia gente.

Umas 15 pessoas - não mais - em vigília. Manifestavam-se contra a guerra, com velas nas mãos, em pé nas escadas, abaixo delas um senhor segurava um microfone e fazia funcionar um pequeno equipamento de som de onde vinha uma música meio melosa. Nas mãos, as pessoas seguravam papéis com números escritos e na avenida em frente, a sinal abria e fechava, os carros paravam, alguns motoristas olhavam e uma das manifestantes fazia o sinal de paz e amor.

Ficamos ali na esquina até o final da vigília. Quando a música silenciou e as pessoas começaram a sair da escada da igreja, fomos ver o que significavam os números e falar com aquela gente. O que passou em seguida não sei descrever nem explicar, mas fomos acolhidos naquela força e compartilhamos aquela dor, que também era nossa e talvez tivéssemos esquecido por um tempo. Ali nós choramos - e choramos de verdade - abraçados à Mary, uma senhora miúda de cabelos brancos. Uma criatura enorme, junto com seus companheiros que se reúnem em frente à Saint Francis Xavier Church todos os domingos, desde o 11 de setembro, pra dizer "Not in our names". Conversamos com Mary, Mark, Deborah, e foi muito difícil sair dali, de verdade. Difícil dar as costas e andar pra longe daquele grupo. Difícil entender o que passou, difícil esperar o ônibus no vento, difícil segurar o choro mesmo depois de atravessar a rua.

Antes de irmos, ouvimos da Mary: vocês sempre estarão conosco nesta esquina, daqui pra frente.

Isso foi fácil de entender. Posso atravessar o oceano, quantos forem. Passar o tempo, passar pelo tempo, ficar de cabelos brancos como aquela senhora - vou continuar naquela esquina. Definitivamente, uma parte de mim ficou ali e uma nova versão de mim saiu dali. Uma versão mais inteira, melhorada. Abduzida do lugar do julgamento. Orgânica.

Grande Saint Louis.

quarta-feira, 23 de março de 2005

Eu sou desaforada, sim. Mas não penso na presidência.
Nem na direção, nem na gerência, nem na coordenação. Nenhum posto, só um porto.
Penso na presença.
Hoje é que vale, isso ensina o Urano que teimo em desafiar.
Passado, se bate à porta, é oi e tchau. Futuro, desculpem, estou muito ocupada tratando de escolher o agora. O que será é o que é e isso importa. E, pensando no que chamam por aí de livre-arbítrio, fico com o livre e dispenso o arbítrio, que é muito empavonado por meu gosto de desaforada.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2005

Uranóidicamente

- Tome ortomoleculares.
- Hã?
- Remédios...ortomoleculares. Por que vc não toma?
- Pra que?
- É moderno e dizem que emagrece.
- E você com isso?
- Tenho que sugerir novidades.
- Pra que?
- Pra sua vida não ser um tédio. Deve ser horrível ter tanto planeta em Capricórnio, na casa 10.
- Olha quem fala...você está em Virgem!
- Hehehe...isso não é nada banal. O caos em Virgem é sempre novidade.
- Não acho você tão caótico. Você tem sido brando, embora sempre ativo.
- Isso é um desafio? Posso mudar tudo delugar na sua vida já, já - e ainda te provocar crises alternadas de diarréia com prisão de ventre...
- Ops, calma lá, não se trata de desafio. Fique quieto aí, por favor.
- Agora você pediu muito.
- Ok, então continue como está, por favor.
- Hummm...não sei,não...está me dando vontade de esculhambar a mesmice.
- Que mesmice, criatura? Que mesmice? Tem seis meses que mudamos radicalmente a rotina, você quer mais?
- Hehehe...pergunta de novo...
- Pára! Calado! Tem um stellium em Capricórnio te dizendo pra segurar a onda!
- Onda, filha? Pega a tua prancha de surf e vou te mostrar o que é onda.
- Jura?
- Juro!
- Maneiro!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

Ela tinha uma saia rodada
Sob a qual circulavam mil pernas
Em passos às vezes incertos
Mas sempre ritmados.

Tinha um cabelo de nós e laços
Que escondiam pensamentos mulatos
Como numa mandala as imagens se sucediam
Brancas e negras, em velocidade de confundir.

Ela ria. Ah, como ela ria,
Isso sim. Ela ria.

E o mundo ao redor se regojizava,
A cada gargalhada que se esvaía
A cada suspiro de retomar o ar,
Que era tudo de que ela precisava para ir adiante.

Além do ar, a água dos olhos,
A terra debaixo das unhas
O fogo do espírito. Hare-ave-aieiê.
E a nêga se reinventava.

terça-feira, 23 de novembro de 2004

Recebido de uma assessora de imprensa...
O título do e-mail dizia: saiba como evitar o "Tchauzinho Maria Mole". A curiosidade mata gatos e seres humanos. De rir, nesse caso, por conta da mensagem copiada abaixo, na íntegra.

"Prezado (a) jornalista,
O músculo Tríceps Braquial, popularmente conhecido como o músculo do tchauzinho, pode começar a "despencar". Entre os motivos a flacidez, a alimentação irregular e a genética estão associadas.

Para combater o Tchauzinho Maria Mole o professor de Educação Física e instrutor de Musculação da Trixblabla Academia, Fulano das Quantas (eu sou má mas não sou sacana de dizer o nome do cara), dá algumas dicas.

Mais informações, estamos à disposição.
obrigada
um abraço
Jornalista das Candongas" (também não vou entregar a colega).

Tchauzinho Maria Mole??? Isso é genial. "Despencar"? As aspas são geniais!
Se eu tivesse muito dinheiro sobrando, abriria uma empresa de assessoria de imprensa pra inundar a caixa-postal dos colegas com essas pérolas.
O que será que as pessoas pensam quando andam dentro de ternos e tailleurs? Quando carregam laptops pendurados como se fôssem troféus e usam crachás bacanudos...quando falam ao celular como se estivessem decidindo o destino do mundo, e sacam seus cartões de visitas de dentro dos bolsos ou caixinhas moderninhas que servem para carregar o que elas acham que são? O que será qua as pessoas pensam? Que a vida há de lhes trazer mais dinheiro, mais reconhecimento, mais importância, mais oportunidades de trabalho, mais destaque - deve ser isso. Devem pensar que vão a algum lugar melhor, dali onde estão, empavonadas, se fizerem tudo certinho. Há que se dizer a coisa certa, ter a opinião certa, adotar a posição política mais conveniente, mostrar que se sabe o que esperam que seja sabido, ser igual aos bons.

Eu acho uma chatice isso tudo. Eventos, hotéis, laptops, cartões de visita. Ser igual aos bons. Eca. Almoçar com o fulano que alguém disse que é importante. Eca. Tudo em nome da sobrevivência? Eca. Dispenso o sobre, fico com a vivência.

sexta-feira, 5 de novembro de 2004

Eu olhei a Mona Lisa nos olhos. É verdade que o olhar dela segue a gente. Tanta confusão diante de um quadro pequeno, solitário numa parede enorme, isolado atrás do vidro. Diante dela, uma quase-multidão se acotovelando sem entender nada. Sorriso enigmático? Com certeza. Mas eu posso apostar que ela pensa, lá de trás do vidro: "seus babacas"! Ô mulher debochada!

segunda-feira, 1 de novembro de 2004

Um babuíno sorriu pra mim. Deve haver algum trânsito bom no meu céu.
O céu da África sempre me encanta, e o céu africano sobre o Oceano Índico é insuperável. Babuínos que assustam e divertem, pinguins em fila, graciosos, à beira-mar, multilínguas, multiculturas, comida picante e doce ao mesmo tempo, calor e frio. Mil estrelas no céu africano. A vida é bela e o vento me faz feliz.

sexta-feira, 15 de outubro de 2004

Please allow me to introduce myself
I'm a man of wealth and taste
I've been around for a long long year stolen many man's soul and faith
I was around when Jesus Christ had His moment of doubt and pain
Made damn sure that Pilate washed his hands and sealed His fate
Pleased to meet you hope you guess my name
But what's puzzling you is the nature of my game


Noite passada, vi de novo na TV "O Advogado do Diabo".
Amo esse filme.
"A vaidade é o meu pecado preferido", diz o fascinante diabo na pele do Al Pacino.
Pleased to meet you - we do agree on this ;-)

quinta-feira, 7 de outubro de 2004

Ele gosta da minha letra e dos intervalos entre as minhas linhas.
Gosta quando falo, gosta da minha língua,
gosta quando sou ininteligível.
Ele se compraz com meu ritmo e com minha métrica.
Não se incomoda quando perco uma boa rima.
Até na minha prosa ele é feliz.
Com ele, componho de tudo.

terça-feira, 28 de setembro de 2004


Borboleta Posted by Hello

sexta-feira, 3 de setembro de 2004

Ante-passado

Na ante-câmara do lugar onde se escondem meus segredos
eu vi meus antepassados alegres e joviais.
Vi meu presente tímido.
Não vi meu futuro porque isso não é da minha conta.
Finalmente pude perceber,
os anos passam,
as efemérides se repetem
e nada é igual. Nada redondo,
tudo espiral.

quinta-feira, 2 de setembro de 2004

Ela fabrica aviões terroristas. Vontade de destruir um monte, eu entendo perfeitamente.
Ele engole chôro. Chuta dever pro alto. Me olha de canto de olho, se cala. Entendo perfeitamente.

Um dia um amigo pra lá de analisado soltou a seguinte pérola: "quem tem pai tem medo". Eu perdi meu pai bem cedo. Eles também, de certa forma. Só que tive mais sorte. Pai, melhor morto que inconseqüente.

quarta-feira, 11 de agosto de 2004

Porque hoje são 11

Eu gosto de agosto, até no dia 13. Mas hoje, por ser 11, resolvi me preparar e entrei numa loja de artigos religiosos (leia-se macumba) pra comprar umas velas coloridas. Não me considero macumbeira, mas adoro um cheiro de defumador e acho vela colorida lindo.

Estava no balcão, entregando as velas para um senhor surdo e mal-humorado, cuja mulher fazia as vezes de RP da casa, exagerando no sorriso em contrapartida a cada resmungo do velhinho. Encostei sem querer numa pilha de pratinhos de plástico preto (daqueles de aparar água de vaso de plantas), e caiu tudo no chão. Um rapaz correu em meu socorro e prontificou-se a juntar os pratinhos e refazer a pilha.

"É uma torre", ele me disse."
Derrubei a torre, pensei - agradecendo ao rapaz e aos deuses e deusas. Como um raio da Oiá no arcano do Tarot.

Que alívio! E hoje são 11, nem são 16. Dia da Força de derrubar torres.

Dia 16, dia da Torre, Martha Pires Ferreira lança livro - magnífico, eu imagino - sobre astrologia na Livraria Leonardo Da Vinci, no Rio. Às 18:04. Leitura imperdível.

quinta-feira, 13 de maio de 2004

Uma das características das grandes revelações que acontecem na vida da gente é que elas chegam quando são mais necessárias. As revelações desnecessárias simplesmente não são percebidas, porque não se encaixam em nenhum processo, nenhum contexto que lhes dê sentido. Podem ser importantes mas, porque não somos capazes de apreendê-las, se tornam desnecessárias. É por isso que lemos milhares de palavras, abrimos dezenas, centenas de livros, consumimos um número incontável de informações até que – tchan! - uma faz sentido e muda nossa vida. Às vezes, três palavras são suficientes pra nos fazer entender que tudo o que temos feito é uma grande bobagem – ou não. Na maioria das vezes, é, sim, uma grande bobagem.

Pois abri outro dia desses um livro sobre física quântica e coisas que tais, mudanças de paradigmas, e tudo isso que os arautos da Nova Era têm proposto e popularizado nos últimos anos. Está escrito lá que a matéria, todos os corpos, são 99,9999 por cento espaço vazio. Na mesma hora, uma grande interrogação se acendeu na minha cabeça: por que diabos eu faço dieta??

terça-feira, 11 de maio de 2004

Os maus pensamentos são como bolhas de sabão: a gente sopra e eles geralmente estouram, vão embora. O problema das bolhas de sabão é que às vezes, quando estouram, pinga aquela água ensaboada no olho da gente e arde muito. Com os maus pensamentos também é assim. Tem horas em que eles estouram, respingam e a gente chora.

Mudando de pesamento...

quinta-feira, 29 de abril de 2004

E quando Shiva Nataraja dança, tudo perece e se recria - o fogo ao redor é vida, os olhos parados, consciência.

Quando ele dança, quem é esperto descansa.

segunda-feira, 12 de abril de 2004

Na quinta-feira santa tive um acesso de vômito de palavras. Falei para quase estranhos sem parar, sobre um tema que carrego desde que me entendo.

Passei a sexta-feira em penitência. Que vergonha da verborragia! Mal saboreei o jantar. Fui chata.

No sábado, aleluia! Meus excessos não costumam ser à toa (diferentemente de minhas penitências). Entrei numa livraria de Ipanema e encontrei "A Deusa Branca", do Robert Graves. Há anos pensava em comprar esse livro. Foi preciso ser tratorada pelo inconsciente pra finalmente ir ao seu encontro.

quarta-feira, 31 de março de 2004

No meio de muita coisa importante sempre tem uma desimportante. Essa coisa desimportante faria a vida diferente.
Com gente, é a mesma coisa. Eu gosto de gente desimportante. Essas fazem o mundo diferente.
;-p

sexta-feira, 19 de março de 2004

Ilê Omolu e Oxum, Ilê Yá Omim Dayê Axé Obalayó, Ilê Axé Gantois, Ilê Axé Oxumarê, COMDEDINE, ASS. AFRO-SEC., CEAP, CETRAB,
Koinonia, ICAPRA, COBRA, NEXPP, Cia. É Tudo Cena!, FENACAB, IRMAFRO, INAEOSSTECAB, Afoxé Filhos de Gandhi...e EU!

Todos de branco, na minha área - vai ter passeata no Leme, a partir das oito da manhã (o horário é ingrato, mas o Ilê merece o esforço).

Dia 21 de março é "Dia Internacional pela Eliminação da
Discriminação Racial". Essa data foi criada em memória do massacre de Sharpeville
(1960), África do Sul. Desde então dia 21/03 está agendado em todo mundo para
mobilização e reflexão contra a intolerância racial e pela liberdade de expressão.

Oscilando entre um Eparrei! e um Ora Iê Iê Ô, eu vou lá conferir a irmandade. Em homenagem à minha vó libanesa (cristã maronita radical), meu avô italiano, (kardecista radical) e meu pai (um medroso radical de tudo que fôsse do além). Vou de nega radical abrir a boca contra a intolerância. Tô apostando que no domingo de São Miguel a nêga vira na Oxum, chora tudo que é preciso pra ser feliz, e depois empunha a espada e solta gargalhada bem alto...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004

A água tá cara. E vai ficar mais ainda. A lata dela tá cheia. Equilibrada na cabeça, não desperdiça nenhuma gota, por mais sacolejo inesperado ou remelexo proposital. Não cai um pinguinho da lata da nêga, plena até a borda, cintilante quando bate sol.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2004

Nã há incômodo nenhum em sambar na chuva. Sequer uso solas antiderrapantes, porque faz parte do meu show o swing inesperado em busca do equilíbrio - e até o estabaco, quando é o caso. Não pode dizer que sabe sambar quem tem medo de cair.
A fantasia encharcada também não me amola. Se as penas murcham, as lantejoulas descolam e os cetins grudam no corpo, a gente canta o samba mais alto. Afinal, nasci berrando e sem fantasia...Nada como um rebirthing na avenida.
A chuva traz um efeito especial imprevisto e lindo. Quando a água toca a pele de quem, de fato, ferve na passarela, sai fumaça. Então ficam, os seres em ebulição, cercados da aura de vapor - quase inefáveis.
E aí, mais do que nunca, eu converso com Deus.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004

Comprei um pão a metro, meio metro de bordado inglês pra uma toalha de rosto, corri quilômetros esta semana e devo ter diminuído uma polegada na cintura.
Talvez eu me sentisse mais bacana se tivesse mais cinco centímetros de altura. Mas não há de ser nada. Tenho cada salto assim, Ó!

Tinha uma nêga que tinha um tamborim e um chicotinho de bater tamborim que enlouquecia a bateria inteira. Não porque fôsse exímia em nada - nem no samba, nem no batuque.
Mas é que ela inventava. Em cima da plataforma, fazia de tudo. E as percussões, os passistas, os mestres apitantes e os destaques dos píncaros, ficavam todos irritados. Tudo hesitava e se descontrolava quando a nêga cismava de inventar. Era um passo esquisito, um repique solitário, fora de hora, uma frase que não existia no samba. Era assim que ela sabia o Carnaval. E o resto, se aturdia.
Tinha gente que pensava que ela era louca e se incomodava com os imprevistos da nêga.
Ela nunca se amolou. Não tinha medo. Era feliz, e bem o sabia.

sexta-feira, 3 de outubro de 2003

Acho que meus cabelos já estão grandes o suficiente pra receber flores, rolinhos e presilhas.
Achei que nunca mais conseguiria deixá-los crescer, depois de 12 anos de nuca de fora. É gostoso o movimento dos fios, isso me agrada. Sempre posso mostrar a nuca de outras formas, quando tiver vontade.

quinta-feira, 11 de setembro de 2003

Setembro é primavera. Mês de virgem, balança, alianças.
Em outubro, verão.

quarta-feira, 20 de agosto de 2003

Parece que não consigo me livrar das interrogações.
Como a vida é paradoxo, elas aparecem bem no momento da mais deliciosa certeza.
Sejam bem-vindas.
A Malásia é um lugar fantástico.
Todo mundo fala inglês, tem melancia amarela e, em alguns lugares, banheiros luxuosíssimos com um buraco de louça no chão, no lugar do vaso sanitário.
Tem coisas fritas que não se pode imaginar o que sejam, tem tecnologia quase de graça e é dificílimo conseguir uma água com gás.

Quero voltar pra casa.

quarta-feira, 23 de julho de 2003

Não há o menor significado na paixão de quem não tem compaixão. Uma é o avesso da outra, nas pessoas verdadeiramente corajosas. E essas, são ventania a vida toda. Até quando tudo parece estático.

terça-feira, 10 de junho de 2003

Ah, moleque!
Na primeira vez em que olhei bem dentro dos olhos dele, uma surpresa. Tive tanto medo!
Desde então, se passaram dez anos e uma eternidade, porque pra um amor desse tamanho, tempo não se mede.
Continuo me assustando com seus olhares profundos - que vêm depois de um choro sentido, uma gargalhada debochada, um beijo de repente, que ganho todos os dias.
Muitas vezes, não tenho o que dizer a ele. Nem ele me pergunta muito. É como se soubéssemos tudo, juntos.
Agora, ele me vem com ânsias de independências e vergonhas injustificadas, e eu fico repetindo pra mim mesma: é o tempo, é o tempo.
Eu sempre soube que esses dias chegariam, e agradeço aos universos por estar neste presente. É o tempo, mesmo.
Que esperneia, dá frutos, tira o fôlego da emoção e me faz parir uma mãe nova por dia.

terça-feira, 13 de maio de 2003

Maravilhoso Plutão!
Tudo se regenera, se reconstitui, se reconstrói em versão melhorada.
Tá bonito, tá bonito....