quarta-feira, 10 de outubro de 2001

Oh yeah, all right, funky boogie...
Eu estava me divertindo vendo o bartender cortar em oito gomos um limão pra logo em seguida enfiar um deles gargalo adentro na minha garrafa de Sol (Solllll, que ahora yo hablo español) quando uma senhora gorda me esbarrou no cotovelo.
Não sou de reclamar dessas coisas, mas confesso que na hora lancei um olhar impertinente, coisa que fiz sem me dar conta, pra variar. Causou espanto o arrojo da gordota. Cabelos brancos esticados pra trás com gel, sombra cintilante, glitter nas bochechas e um vestido azul celeste de musseline, como eu não via desde as festas de debut das minhas primas (oh!).
Acho que meu olhar passou de impertinente a divertido, mas a senhorinha não se abalou. Foi servida de kir royal, segurou firme no canudinho, deu duas cutucadas na cereja no fundo do copo e soltou a bomba.
- Tá difícil de pedir, né?
- O garçon demorou pra lhe atender? É que ele dá prioridade pras loiras...hehehehe...
- Não estou falando dele, meu bem. Estou falando de você.

Sorri. Tadinha.

- Desculpe, não entendi. De mim?
- É. Faz tempo que você não pede nada.
- Como assim? Pedir o que? Pra quem?
- Pra mim que não ia ser, você nunca levou fé na minha figura, mesmo. Mas podia pedir pra os anjos, pro Universo, pro ...pro barbudo, aquele.
- Ficou sério. Não fala assim dele. Dá pra senhora explicar melhor o assunto? Pera só um minutinho...Moço, outra Sol.
- Sou sua fada-madrinha, babe. A coisa tá feia. Você não pede nada. Orgulhosa, distraída, tá demais. Minha varinha criou teia de aranha, eu estou frustrada, trabalhar com você é fácil, mas eu gosto de desafios, quero feedback, só o salário não conta, se é que você entende.
- Sei...salário, é? De quanto?
- Não interessa. Eu quero é botar a mão na massa, Tipiti, tipiti, puff! Rodar a saia, fazer volteio com a varinha, espalhar pózinho nacarado. Dá pra esboçar um desejo, desses, bem objetivos e impactantes?
- Opa! Pode parar...a senhora está enganada, ou já não ouve direito. Eu vivo querendo coisas, não venha com essa de que a culpa é minha se a senhora não trabalha.
- Querer não é desejar, honey. Muito menos pedir. Pensei que você já soubesse a diferença, depois de tanto ler a Rubedo.
- Esqueci dessas coisas...foi uma fase, faz tempo que não penso nisso...desejo, vontade...necessidade...sabe que a senhora tem razão?
- Pois é. Naquela época, eu ainda me coçava. Agora, nem isso! Você quer fazer tudo, não me dá a deixa, eu tô no escanteio e nada de bola!
- Que mal! Mas tem muita coisa que eu desejo!! É só parar pra pensar. Posso pedir a primeira?
- Por favor. Eu sou workaholic.

You’re just too good to be true...
E o Celebrare entrou no palco enquanto eu tinha meus desejos realizados.