terça-feira, 25 de março de 2003

Dizem que o amor é cego. Mentira. Ele tem astigmatismo.
De longe, as coisas ficam esquisitas, mas de perto, tudo funciona e fica perfeito.
Quando eu olho o amor de perto, fico meio estrábica. Vejo tudo em dobro, o que faz muito sentido.

segunda-feira, 10 de março de 2003

Se tem uma coisa que os Áries fazem bem nessa vida, é começar de novo.

quinta-feira, 6 de março de 2003

Tem dias em que eu tenho uma vontade enorme de revelar todas as minhas senhas.
As pas-swords que eu empunho e que abrem todas as portas.
É uma vontade de dias de dissonância - onde o enjôo, o amor desmedido, os espasmos - tudo me leva a querer abrir mão
da ilusão dos segredos e das palavras escondidas.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2003

Era tarde e eu estava cansada. Mas a visita chegou eu eu sempre o recebo bem - seja de onde vier.
Tinha um orgulho no olhar daquele cara que eu reconheci. Óbvio, eu me deparo com o mesmo ar de satisfação sempre que me olho mais demoradamente no espelho.
É como se ele me dissesse: está tudo bem. E está, mesmo. Em qualquer circunstância, há o bem.
Levei muitos anos pra parar de sentir medo, e o fato de ele vir me visitar me fez lembrar que a gente só se livra do medo quando se entrega sem reservas ao destino.
Custou, mas hoje consigo dar boa-noite sem susto ao meu pai.
Afinal, está tudo bem entre nós.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2003

A vida é boa, a vida é boa.
Há coisas efêmeras e outras eternas
e a diferença entre elas é que torna tudo gostoso.
Há estrelas que não existem mais e ainda encantam,
inspirando os poetas. Até o brilho das estrelas pode ser ilusão,
mas a gente vai morrer sem saber disso. E a poesia é eterna.
E o amor, desde que a gente nasce até quando a gente vai embora - é o mesmo.
E a gente vive e se inebria e se surpreende com ele.
Definitivamente, a vida é boa. No meio de tantas possibilidades eu tenho uma certeza que não me sufoca.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2003

Comigo vive um moleque que vez em quando perturba.
Não deixa meu cabelo crescer, masca chicletes (faz bolas!) e
de vez em quando é estabanado e dá topadas. Também fala palavrão.
Gosto dele.
Minha filha - craque no futebol de praia, única entre mais de dezena de garotos - apazigua o meu moleque.
Meu filho - consciente e responsável - lhe dá sermões com complacência.
Meu companheiro se diverte. E lhe dá asas.
Entre risadas incontroláveis e xingamentos desnecessários, esse guri me compensa os anos no rosto.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2003

Saudades.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2003

Um dia não é um quadradinho que se rabisca
Uma hora não é um rabisco no círculo imperfeito
Um ano não é nada
Meu amor é tudo
E prescinde de projetos.
Eu tinha que escrever um projeto. Três pra meia-noite, a máquina toda disposta, mas a nuca dolorida, fica difícil entabular uma introdução, achar a justificativa, consubstanciar os objetivos e concluir o que quer que seja.

Vá lá. Tem uma veia em mim que volta e meia se esconde, e quando eu cutuco com a seringa pra tirar dela um querequequé de algo que valha a pena, o máximo que arranjo é edema. Hoje a santinha tá viva, depois de ano e pouco achou por bem latejar, eu acho que o bom que eu faço é escrever o tal projeto.

Então, né?

Introdução

A vida é simples, mas é complicada. A gente procura, procura, procura, quando acha bota defeito e cisma de assegurar que vai dar errado e que tem alguma coisa esquisita ou que a gente não merece mesmo e dane-se, sejá lá o que Deus quiser.
Todo mundo sabe que é assim. Quando a gente ganha exatamente o que queria, trata de dar um jeito de mudar, porque se não, qual é a graça da parada? Resumo da introdução: a maioria de nós é muito burra, fora as raras exceções como as irmãs carmelitas encarceradas e os siddhis meio sorridentes meio patéticos das montanhas enevoadas da Índia. Ô vida.

Justificativa

As pessoas – todos e todas – nasceram para usufruir o que esse mundo tem de bom pra dar. Missão da humanidade: ser feliz. Já sei. Dizem que não há esse estado permanente, felicidade. Não tem problema. Nem sempre ser é estar. Não me preocupo em estar feliz, porque isso implica em um estado e eu sou continente. Quero ser um ser feliz, e isso não deve ser tão difícil assim, porque se fôsse a grande maioria dos seres não ia querer a mesma coisa, porque os seres – humanos – são acomodados demais e quando uma coisa é difícil e dá trabalho eles já não querem mais. E o que não falta é gente querendo ser feliz, dando beijo na boca ou não, eu desconfio que ser feliz é o pedido da avassaladora maioria na hora de virada do ano ou na hora de assoprar as velinhas do bolo (claro, eu estou me referindo à maioria - os criativos pedem outras coisas).

Pois bem, eu acho que não há outra justificativa para querer ser feliz: sou comum, sou parte da maioria, sou humana e levo a sério esse negócio de missão.

Objetivos

Essa proposta tem como objetivo deixar as coisas claras pra mim.
Ô vida. Simples e complicada. Quando tudo tá claro, mergulho na escuridão.
Meus objetivos são mundanos e eu sou uma mulher de fé.
Esta proposta tem como objetivo um salto na noite escura.

Obs.: não há recursos previstos para ressarcimentos, em caso de desistência.

segunda-feira, 30 de setembro de 2002

Previsão para os nativos:

Fique inativo.
Coisas fascinantes
acontecem na inércia.
Previsão para o período:

ventos de renovação com pancadas de entusiasmo,
não necessariamente esparsas.
Nesta região do mapa, tudo é possível.
Está sendo aguardada uma frente de calor humano,
com ondas de alegria, que podem chegar a graus inimagináveis.

sábado, 17 de agosto de 2002

In the quiet of the night,
Let our candle always burn.
Let us never lose the lessons
We have learned.



Os pássaros têm pupilas enormes e quase não piscam.
Isso é assustador.
Me sinto segura com as pupilas dos gatos, quando se concentram:
quase um fio.


sexta-feira, 5 de julho de 2002

And she´s buying a stairway to heaven.
Blá.

segunda-feira, 10 de junho de 2002

Ritos de passagem

As lágrimas apagam o fogo.
O tempo apaga as fotos.
Os filhos apagam as velas do bolo
e tudo fica eterno.
O branco amarela.
A vida embranquece depois da negritude.
O mundo se colore - e tudo é só um instante.

terça-feira, 28 de maio de 2002

O tempo vai passar.
Meus filhos vão crescer (às vezes eles já são grandes).
Meus cabelos vão perder a cor (que já é instável).
Algumas pessoas que eu amo vão embora (e dá pra sobreviver a isso - eu sei).
Tanta coisa assustadora pela frente e eu acreditando sempre que do chão não passo.
É nisso que dá ser a porta da rua da própria casa.

quinta-feira, 16 de maio de 2002

Cuernavaca nasceu pra ser um lugar divertido.
Entre burritos e tequila, dias de muita sede,
uma disritmia entrópica me aquece.
Bom esse calor, quando se está longe de casa.
Sofro de saudade compulsiva!

quarta-feira, 10 de abril de 2002

Lulu Kati Kati - isso é suahili - quer dizer "o centro", "aquilo que está no meio".
Estava escrito num muro de Johanesburgo, e imagino se não fui até lá só pra ler isso e
me dar conta de que não importam as coordenadas.
No dia do equinócio que passou, eu vi um arco-íris no céu da África.
Voltei de lá mais colorida. O sol transita pelo meu ascendente e eu transponho a
fronteira dos dias e noites iguais.

quarta-feira, 6 de março de 2002

Hai-kai

quem ri quando goza
é poesia
até quando é prosa

Alice Ruiz